O documentário Perdidos na Amazônia, dirigido pela brasileira Elizabeth Chai Vasarhelyi e exibido pela Disney+, acaba de conquistar um prêmio Emmy. Trata-se de uma demonstração eloquente do poder de comunicação do audiovisual, capaz de transmitir informação, compreensão e sensibilidade de forma única. Ao assisti-lo, torna-se evidente que qualquer visão séria sobre a Amazônia e seus habitantes precisa combinar razão e sentimento.

O episódio retratado é real. Um pequeno avião monomotor cai na selva colombiana, vitimando o piloto e a mãe de quatro crianças que viajavam a bordo. A partir daí, acompanha-se a extraordinária história de sobrevivência desses pequenos seres humanos: a mais velha, Leslie, tinha apenas 11 anos; o mais novo, um bebê de 11 meses.

Durante quarenta dias, o grupo perambula pela floresta enquanto equipes de busca recorrem tanto a meios convencionais quanto a práticas tradicionais para encontrá-lo. Leslie, que assume naturalmente a liderança dos irmãos, orienta-os com base nos ensinamentos recebidos da avó indígena: “Seja aceita pelas árvores e pelos bichos da floresta”; “Não os agrida nem os assuste”; “Coletem frutas e raízes para se alimentar”; e “Nunca deixem de beber a água pura da chuva quando ela cair”.

As imagens captadas dos helicópteros que vasculham aquele imenso mar verde são de um realismo impressionante. Nuvens escuras produzem relâmpagos incessantes sobre a floresta, compondo uma paisagem simultaneamente majestosa e ameaçadora. Ao vê-las, vieram-me à memória muitos anos de sobrevoos pela Amazônia e sensações que nenhum texto é capaz de transmitir integralmente.

Os toscos abrigos improvisados com galhos e folhas, a enternecedora delicadeza com que Leslie carregou o bebê durante toda a jornada e o forte sentimento gregário do pequeno grupo falam da bondade natural do gênero humano. Recordam também uma conhecida observação atribuída à antropologia moderna: um dos primeiros sinais de civilização seria um fêmur humano fraturado e posteriormente consolidado. Mais do que a lesão em si, o que esse vestígio revelaria é que alguém permaneceu ao lado do ferido, alimentando-o, protegendo-o e cuidando dele durante sua recuperação. A cooperação, antes mesmo da tecnologia, teria sido uma das bases da aventura humana.

As buscas, iniciadas pelo Exército colombiano, acabaram recorrendo ao conhecimento tradicional dos povos indígenas da região. Com o passar dos dias, um xamã foi incorporado à operação e, pouco a pouco, militares e indígenas passaram a trabalhar lado a lado. Enquanto isso, o jovem oficial responsável pela missão, um católico praticante, via-se diante de um universo de crenças muito diferente do seu. Garrafas de aguardente eram utilizadas em rituais nas encruzilhadas, e bebidas tradicionais como o guaco e o yapé eram consumidas para que os espíritos da floresta revelassem o paradeiro das crianças.

Não é por acaso que a literatura sul-americana de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Jorge Amado, entre outros gigantes, consolidou o chamado realismo mágico. Em nosso continente, a realidade frequentemente supera a ficção. Não apenas em episódios extraordinários como o retratado neste documentário, mas também nas intrincadas tramas políticas, sociais e humanas que emergem diariamente dos acontecimentos que nos cercam.

Fica, portanto, a recomendação a todos os interessados nas questões sociais, ambientais e indígenas, na psicologia das famílias e, sobretudo, na inesgotável capacidade humana de surpreender e resistir. Assistir a este documentário é muito mais do que acompanhar uma história de sobrevivência. É refletir sobre a relação entre o homem e a natureza, sobre a força dos vínculos familiares e sobre a coexistência entre diferentes formas de compreender o mundo.

Elizabeth Chai Vasarhelyi, que já tinha um Oscar na estante pelo documentário Free Solo, de 2017, entrega uma obra de rara sensibilidade e extraordinária força narrativa, que merece ser vista por todos aqueles que desejam compreender melhor a Amazônia e, ao mesmo tempo, a própria condição humana.

Parabéns por mais esta obra-prima.

José Luiz Alquéres é vice-presidente do IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
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