(Dedico este artigo ao meu querido amigo o prof. Mario B. Machado, eminente cientista político, recentemente falecido)
When you have something to say, silence is a lie (Jordan B. Peterson)
Desde o início os grupamentos humanos fundamentaram suas ações em normas inspiradas por sentimentos morais, provenientes da instintiva percepção da Lei Natural: a sacralidade da vida humana; fazer o bem e evitar o mal, a solidariedade, o amor e o respeito ao próximo.
Como sociedades, estruturadas em torno de Instituições e Leis, não desconhecendo os ensinamentos morais primeiros da Lei Natural, explicitou-se, continuamente, os ordenamentos necessários para a organização e o funcionamento social, político, econômico e jurídico, com a intenção de construir o Bem Comum, promover a Paz e possibilitar uma vida coletiva justa, organizada e segura.
As atuais duas maiores questões a serem resolvidas são: a crise ambiental e o progressivo distanciamento entre as pessoas: as que tem acesso à riqueza gerada e aquelas que estão afastadas dos benefícios do progresso. Estes dois grandes problemas foram provocados por homens e mulheres, que, no exercício das suas inteligências e liberdade, afastaram-se dos fundamentos morais primeiros.
É alta a probabilidade de a crise ambiental conduzir, nas próximas décadas, a extinção dos seres vivos pela elevação das temperaturas no planeta, pela mudança do regime de ventos e chuvas, pela elevação do nível do mar, que provocará o deslocamento de enormes contingentes populacionais de difícil nova alocação e a escassez crescente de água potável.
O que se espera é que as pessoas que estudaram, que tem um emprego, acesso à saúde, que votam, passem a se manifestar, organizada e radicalmente, com clara perspectiva ética, visando o convencimento da maioria das populações de que o atual quadro de exclusão social não pode continuar como está e nem permitir que o meio ambiente se deteriore ainda mais. Sem um arraigado prévio convencimento de que há algo moralmente injusto, inaceitável, na organização e no funcionamento das sociedades, nada terá êxito nas providencias saneadoras das injustiças, que venham a ser implementadas.
Este seria o papel a ser desempenhado pelos partidos políticos que, no entanto, a maioria, abandonaram suas ideologias superadas e transformaram as agremiações em meras instituições burocráticas, que em nada contribuem para a construção do Bem Comum e da Paz Social.
As sociedades precisam de uma “densidade ética” mínima, independente de Leis, capaz de condicionar os comportamentos das pessoas, especificamente nas manifestações concretas da indispensável fraternidade.
As soluções dos problemas não estão em novos planos de desenvolvimento econômico mais bem elaborados ou de práticas políticas mais eficientes. Um possível, prolongado e difícil, encaminhamento de melhorias da situação global está, preliminarmente, no reconhecimento e adesão às atitudes naturalmente impostas pela solidariedade, à maioria das populações, ricos e pobres. As iniciativas restauradoras das esperanças num futuro melhor necessariamente deverão ser globais, neste mundo cada vez mais interdependente. É necessário, indispensável, que exista uma real fraternidade entre as pessoas, predispondo-as para a aceitação e o apoio das difíceis iniciativas que as novas atitudes coletivas exigirão, necessárias para a implementação das soluções dos vários problemas. Políticas que se traduzirão em Leis, democraticamente votadas pelos representantes do povo, eleitos, competentes e honestos, lastreadas em princípios tais como o dever da solidariedade, o sentimento de compaixão e a crença na justiça – “dar a cada um o que lhe é devido como pessoa”.
Não são esperanças e atitudes ingênuas, muito pelo contrário: esta é a realidade que precisa ser encarada, com urgência. Como afirmei em outro artigo, sobre o mesmo tema: É PRECISO ABRAÇAR A UTOPIA, como a única forma de salvar a humanidade do desaparecimento.
O papel a ser desempenhado pelos sistemas educacionais e pelas Igrejas Cristãs Históricas, são indispensáveis e centrais na recuperação dos ideais de um mundo desenvolvido, solidário e justo. Os valores éticos não surgiram de debates em espaços públicos e sim como decorrência de reflexões religiosas, que foram se moldando em normas morais nas sociedades, a cada fase histórica.
A Democracia, com sua atual configuração, é na realidade fruto do pensamento cristão, mas não conseguiu resolver os problemas da desigualdade e da opressão, não por deficiência dos seus fundamentos teóricos, mas por falta de efetiva e permanente adesão e forte apoio da maioria das pessoas aos ideais democráticos. É triste verificar que expressiva parcela dos operadores do sistema democrático, eleitos, usam os instrumentos de que dispõem, não para a construção do Bem Comum, mas para o fortalecimento das suas posições de mando e para a indevida maior apropriação da riqueza comum.
No Ocidente o afastamento dos povos dos ensinamentos evangélicos do Cristianismo, conduziram a Humanidade a uma maneira de ser que rechaça a premissa de que o viver coletivo exige uma forte e ampla aceitação do ideal da solidariedade, do respeito e do amor ao próximo. O Cristianismo foi, e continua sendo, a fonte maior de inspiração que propiciou a formação e a expansão da Civilização Ocidental. Pensadores sociais, de procedências diversas, apontam esse aspecto cultural, como sendo a principal raiz da Civilização Greco/Judaica/Cristã: – “A Europa tem sangue cristão” (Blaudel).
Autores marxistas reconhecem como grande obstáculo ao Socialismo, a cultura Europeia erguida sobre os valores cristãos. Uma frase simples, mas politicamente fácil de ser propagada, plantou uma explicação simplista que é sempre citada: “a religião é o ópio do povo”.
No Ocidente os fundamentos do pensamento cientifico, tecnológico, artístico, político, jurídico, são europeus, nasceram e prosperaram neste ambiente cultural específico, criado e sustentado pelo Cristianismo, por séculos. Com a fragmentação das Igrejas Históricas e a expansão da insidiosa ideia de que a religiosidade é um empecilho para o gozo da plena liberdade dos cidadãos e um sinal de evidente limitação intelectual e de conservadorismo, impeditivo da modernidade nas suas mais variadas manifestações culturais, deixou as Sociedades Ocidentais sem referenciais estruturantes. Os povos ocidentais estão ficando sem uma referência estável para justificar suas opções comportamentais e políticas
Caso não se queira aceitar o fenômeno religioso como a variável explicativa mais forte, deste processo histórico, é suficiente que se contemple, com honestidade intelectual, o evidente aspecto sociológico, o impacto decisivo que o Cristianismo significou na cultura e na construção da Civilização Ocidental, que perdura até os dias atuais. Foi na Europa que esta aventura humana começou e tomou forças para saltar o Atlântico e depois ser oferecida ao mundo.
Porque os aspectos religiosos não são mais considerados nos debates acadêmicos, sociais, políticos, econômicos e jurídicos? A fé no Transcendente parece ter se transformado num evidente retrocesso, um desmerecimento intelectual. Fazer quaisquer referências, na elaboração de políticas públicas, ao Transcendente, à Solidariedade, à Compaixão, à Caridade, é imediatamente considerado como um demérito intelectual, uma bobagem descartável. O que vale são os planos ascéticos, livres de quaisquer referências à reflexão espiritual, que ainda permeia o pensamento de expressivas parcelas dos povos. As propostas de ações públicas devem, como não poderia deixar de ser, fundamentadas com as melhores recomendações das ciências sociais, baseadas em probabilidades e tendencias sociais perceptíveis e mensuráveis , em incentivos financeiros, em taxas de juros, no indispensável equilíbrio das contas nacionais e em Leis inteligentes, na tentativa de ordenar o comportamento cooperativo das populações, neste momento de revoluções de comportamentos coletivos, do consumo e da produção de bens e serviços.
Me falta competência para examinar, com segurança, o que se passou e acontece nas Civilizações Orientais. Creio que o Islamismo, (que também se estende no Ocidente, uma religião Abraâmica como o Judaísmo e o Cristianismo), o Hinduísmo, o Budismo, o Confucionismo, o Xintoísmo também influenciaram fortemente a história das sociedades em que exerceram suas influências, condicionando-as para o bem e a paz. Hoje, quando o dinamismo da construção histórica começa a se deslocar do Ocidente para o Oriente, é importante que se preste atenção nestes aspectos da interconexão entre o desenvolvimento e as arraigadas crenças religiosas. Tal fato deve ser considerado de tal forma que se possa conhecer melhor o que está se passando com o nosso mundo e vislumbrar o que o futuro próximo poderá nos oferecer.
O Ocidente, indubitavelmente, foi o berço da maior parte das conquistas humanas, inclusive do pensamento científico e do político democrático, propiciando a construção deste maravilhoso mundo contemporâneo, com as suas potencialidades e manifestações cientificas, tecnológicas, políticas e artísticas, infelizmente convivendo, lado a lado, com a mais injusta e abjeta pobreza e a marginalização de milhões de pessoas. Sem a forte adesão da maioria das pessoas às essas verdades morais não há saída para a crise global que aflige todo o planeta.
Faltando o aglutinador sentimento comum de amor e respeito ao próximo, os indispensáveis fatores agregadores das pessoas para a construção do Bem Comum e da Paz, estamos destinados a um triste fim.