Pedro e Bonifácio, às vésperas dos 200 anos

Numa noite dessas, José Bonifácio desceu de seu pedestral de estátua, no Largo de São Francisco de Paula, e foi visitar o imperial e real Pedro I, na Praça Tiradentes.  Este desceu do cavalo, olhou ao redor com muita saudade, e foi logo perguntando ao seu antigo ministro notícias sobre as festas que tanto admiravam.

– Qual o que, Majestade!  Nem o Barão do Rio Branco, o Juca, consegue!  Atualmente só temos notícias da tal pandemia e da confusão instalada no país e tem mais, coisa alguma encontro em que se fale de nós, da Independência ou do Projeto de Nação.

Pedro I retrucou:

– Bonifácio, este país nasceu envolto em complicações diplomáticas.  A esta nossa terra privilegiada da natureza pode ser aplicado o conto onde a despeito de não haver sido convidada para o batizado de uma criança, uma Fada raivosa propõe-se frustar todos os mimos que lhe fizeram as boas fadas.  Terás grandeza, formosura opulência, glória mesmo –  exclamaria ela –   mas não terás descanso, porque serás alvo de constantes ambições territoriais e o pasto de contínuos conflitos militares, roubos, fraudes, maracutaias e gigantescas trapalhadas políticas.

A esta altura, Bonifácio interrompeu Pedro I e falou:

– Majestade, peço perdão, olha quem vem por ali na Rua 7 de setembro.  É o Lima Barreto e o Machado, vou chamá-los.

– E aí Lima, quais são as novidades? E você Machado, qual a pressa?, perguntou Pedro I.

– Pedrinho, o Maneco perdeu o vapor Hermes para Campos e vai nos encontrar para um papo com paraty na Ouvidor, vamos?, falou Lima.

– Qual o quê Lima, Sua Majestade Imperial e o Ministro Bonifácio têm mais o que fazer!  De mais, vou contar a aventura para chegar aqui vindo do Cosme Velho,  poderou Machado.

– O progresso, Majestade, o progresso, a tecnologia!

Bem, subi no bonde puxado por dois burros, um à esquerda e outro à direita do condutor.  Notei que os burros conversavam,  mas ora o da direita ora o da esquerda levantava o tom de voz.   E eu ali, sentado, cabreiro, aborrecido, mas prestando muita atenção e tentando a todo custo entender o que os burros falavam.  Sim, a primeira coisa foi identificar que a língua comum era o Houyhnhnm.

Bem, os assuntos eram burrices o tempo todo e nada fazia sentido.  Já na altura da Lapa, consegui me libertar deste suplício burrificante e, ao olhar para a frente, vi um bonde, já bem distante, com tração elétrica, mas este já ia bem mais  acelerado e o perdi de vista.   O condutor do bonde, falando uma língua que nem eu nem os burros entendíamos, balbuciou algo, mas como já estava na Carioca, nem perdi meu tempo e saltei do bonde.

A esta altura e já faminto, Lima exclamou:

– Pedrinho e Zé Bonifácio, me deêm licença porque uma bela mesa e prosa nos aguardam; vamos Machado que o Maneco, o Oliveira Lima, a Júlia Lopes e a Maria Laura nos esperam. Até outro dia, Pedrinho e Zé!

– Feliz o Lima com sua leveza e coitado do Machado que perde tempo e o bonde da história, do progresso, da tecnologia e da mais importante reforma que é a abertura econômica enquanto tem que aturar burros da esquerda e da direita falando a mesma língua Houyhanhnm e um condutor do bonde ininteligível. Bonifácio, sabe de uma coisa?  Não faço mais “independências”, fui!

E José Bonifácio e D. Pedro I, às vésperas do aniversário de 200 anos da Independência do Brasil,  voltaram para suas estátuas no Largo de São Francisco de Paula e na Praça Tiradentes.

(Texto ficcional adaptado de obras dos geniais Lima Barreto, Machado de Assis e Manoel de Oliveira Lima)

Luiz Henrique de F. Carneiro, empresário e economista, é formado na FEA/UFRJ,  PUC/RJ e Universidade de Chicago. Seu e-mail:  luiz.henrique@lvcinvestimentos.com
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