Parece que o presidente do Supremo surtou de vez. Na semana passada ele disse à revista Veja, hoje um folhetim avermelhado que pouca gente lê, que salvou nossa democracia quando agiu para evitar rupturas e preservar a estabilidade. Na sua visão, o Brasil esteve a beira de uma crise institucional entre os meses de abril e maio. Reforçou a história contando que sua atuação foi fundamental para por panos quentes nessa crise que se avolumava. Estamos diante de um Salvador da Pátria, não é mesmo? Em salvando a democracia, ele garantiu pelo menos a nossa liberdade de expressão, liberdade na qual ele diz acreditar, “pero no mucho”, já que mandou censurar a revista Crusoé e o site O Antagonista por publicarem matérias que ele não gostou. O Salvador da Pátria gosta de soltar torpedos, alguns de difícil entendimento. Disse recentemente numa reunião de banqueiros que “você nunca vai ter progresso se tiver que ter ordem como uma premissa”. Mas ele não parou aí: atacou a Lava Jato ao afirmar que “o Brasil ficou travado em quatro anos num moralismo enfrentando questões de ordem e esquecendo o progresso”. Como não sou banqueiro eu não estava lá. Hoje me arrependo de não ter aceitado o convite do Embaixador Walter Moreira Salles para trabalhar com ele no Unibanco. Teria entrado num mundo onde o dinheiro rola, onde os bancos têm lucros indecentes, ganham fortunas e remuneram seus executivos a peso de ouro.

Voltando à Pátria, mandou bem a deputada estadual Janaina Paschoal ao protocolar no Senado um pedido de impeachment de Dias Toffoli. Recordista de votos e professora de direito, Janaina não é moleza não. Todos lembram da sua atuação no episódio do impeachment da Dilma. Tofolli deve estar preocupado, muito mais do que com os pedidos anteriores…

Os Ministros do STF são alvo de 12 pedidos de impeachment. Só neste ano, sete novos pedidos foram protocolados. Os campeões são Dias Toffoli e Gilmar Mendes, o soltador geral da República que classificou a Lava Jato de organização criminosa. Ele morre de medo da operação que encarcerou políticos famosos e grandes empresários que roubaram adoidado dos cofres públicos e que pensavam que continuariam impunes para sempre.

Mas chegou a hora da onça beber água e muitos deles foram parar no xilindró.

Apesar dos golpes que tem sofrido, a operação Lava Jato continua viva. Meio enfraquecida, mas atuante, para desespero dos meliantes de colarinho branco que infestam o país.

O último golpe acaba de ser desferido pela Câmara dos Deputados, que aprovou rapidinho, em votação simbólica, a proposta que pune abusos de autoridade, que estava hibernando há dois anos. Em sua origem estão políticos de rabo preso. Na sua mira, a operação anticorrupção.

Associação Nacional dos Membros do Ministério Público reagiu afirmando: “ao invés de votar os projetos de lei que reforçam o combate à corrupção, às organizações criminosas e à impunidade, os parlamentares optaram por votar um texto que pode inibir a atuação dos agentes encarregados de combater a corrupção”.

O procurador Deltan Dallagno lembra que, “na Itália, a pauta contra supostos abusos da Justiça substituiu a pauta anticorrupção sem que esta fosse aprovada. Várias leis passaram para garantir a impunidade a poderosos. A Itália segue com os maiores índices de corrupção da União Europeia”.

Ninguém é contra punir abusos, mas da forma que está redigido, o tal projeto mais parece um tratado de auto-defesa.

Chama a atenção o rito que impediu a votação nominal no plenário e a rapidez com que a matéria foi aprovada.

Vivemos um estranho momento no qual ao invés de se combater ferozmente os corruptos, combate-se quem os está combatendo.

O Supremo Tribunal Federal tem pela frente uma pauta incendiária e crucial para o Brasil.

Dia 27, a Segunda Turma vai analisar o pedido da defesa de Lula para suspender a ação em que é acusado de receber R$ 12,5 milhões da Odebrecht, na forma de um terreno que seria destinado ao Instituto Lula e por meio do aluguel do apartamento vizinho ao qual ele vivia, também em São Bernardo. Vivia, pois tendo escapado de Tremembé, reside na carceragem da PF em Curitiba.

Depois vem o julgamento da possível modificação do próprio entendimento do STF de que réus cuja sentença foi confirmada em segunda instância podem começar a cumprir a pena. Este entendimento, se alterado, como querem os “garantistas”, pode colocar em liberdade muitos condenados, entre eles Lula e José Dirceu.

Ainda tem a suspeição de Moro no caso do Triplex de Guarujá, que poderá anular o processo pelo qual o ex-presidente cumpre pena.

O povo está de olho nos integrantes do STF, os “Deuses do Olimpo” que se acham acima de qualquer suspeita. Tanto é que preparou uma grande manifestação para domingo que vem.

Vamos ver como o Salvador da Pátria e seus pares se comportam nesses julgamentos.

Se desta vez o Supremo não atender os reclamos da sociedade, nem quero pensar no que pode acontecer.

Flávio Faveco Corrêa é publicitário e consultor.
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