Está sendo realizada na França mais uma reunião do grupo conhecido como G7. No passado, ele era frequentemente apresentado como o clube das sete nações mais ricas do mundo. Com o tempo, a expressão passou a soar antipática e foi substituída por outra, mais elegante: as sete nações mais desenvolvidas.
A mudança de terminologia, entretanto, pouco altera a realidade. O G7 continua sendo uma reunião de países que se encontram para defender os seus próprios interesses nacionais. Não os interesses da humanidade, não os interesses do comércio internacional em abstrato e, certamente, não os interesses do Brasil.
Apesar disso, chama a atenção a forma como o nosso país leva a este auditório apresentações calcadas em problemas internos ou posicionamentos já externados “ad nauseam” em outros fóruns. Em ano eleitoral, cresce a tentação de apresentar proximidade com Washington como um ativo político doméstico, quase como se a boa vontade da Casa Branca pudesse substituir a construção de consensos internos ou a formulação de um projeto nacional.
Para citar apenas dois personagens relevantes do cenário atual, tanto o senador Flávio Bolsonaro quanto o presidente Lula, cada um à sua maneira, procuram transformar a relação com os Estados Unidos em argumento eleitoral.
No caso de Flávio Bolsonaro, diretamente ou por intermédio de membros de seu círculo político e familiar, observa-se frequentemente a tentativa de legitimar ações claramente orientadas pela defesa dos interesses americanos, apresentando-as como se fossem favoráveis ao Brasil. Medidas como tarifas adicionais sobre produtos brasileiros ou sanções contra autoridades nacionais são tratadas, por vezes, como reações compreensíveis ou até desejáveis.
Ora, ninguém de bom senso pode considerar positivas para o Brasil iniciativas concebidas para defender interesses estrangeiros em detrimento dos nossos. Tarifas sobre exportações brasileiras não são demonstrações de amizade. Sanções contra cidadãos brasileiros não constituem gestos de cooperação. São instrumentos de política externa empregados por uma potência para defender os seus próprios objetivos.
Ainda assim, procura-se vender ao eleitor a ideia de que tais posições foram tomadas pelos EUA por sugestão de brasileiros preocupados com o nosso futuro. Só rindo para não chorar.
Por outro lado, o presidente Lula tampouco fica atrás na tentativa de explorar politicamente essa relação. Repetidas vezes procura enfatizar a existência de uma boa química pessoal com o presidente americano, sugerindo que essa afinidade facilitaria negociações e resolveria impasses comerciais.
Por isso, o presidente se dispõe a circular pelos corredores da reunião do G7, esperando que um encontro não programado possa lhe dar o ensejo de trocar algumas palavras com o presidente americano e, assim, reverter medidas que estão sendo amplamente negociadas em fóruns técnicos. É um capítulo triste da sociedade do espetáculo, que enfraquece a marca histórica da excelência da diplomacia brasileira.
O curioso é que nenhum desses movimentos parece produzir ganhos eleitorais significativos. Raramente conquistam novos apoios.
Isso ocorre porque existe no Brasil uma consciência nacional muito mais profunda do que se imagina. Uma consciência que se manifesta de várias formas, desde a defesa da soberania nacional até paixões aparentemente banais, como a esperança recorrente de conquistar mais uma Copa do Mundo.
Os brasileiros podem divergir sobre quase tudo. Mas permanece vivo o entendimento de que os problemas do Brasil devem ser resolvidos pelos próprios brasileiros.
Não precisamos — e muito menos desejamos — que governos estrangeiros intervenham em nossas disputas internas. Cabe a nós corrigir nossos erros, aperfeiçoar nossas instituições e enfrentar nossas mazelas, sejam elas produzidas por incompetentes, populistas, demagogos ou oportunistas que periodicamente procuram capturar as estruturas do Estado.
A defesa do interesse nacional não pode ser terceirizada.