O plano brasileiro de Data Centers, chamado ReData (Regime Especial de Tributação para Data Centers), é uma iniciativa do governo criado pela Medida Provisória Nº 1.318, de 17 de Setembro de 2025 para fomentar investimentos em infraestrutura digital, criando incentivos fiscais e um ambiente mais competitivo, aproveitando a energia renovável do Brasil para tornar o país um hub de dados, atraindo investimentos e impulsionando a economia digital com foco em sustentabilidade e desenvolvimento local, através de benefícios tributários em troca de contrapartidas em P&D e contratação de serviços no país.
O regime especial foi concebido para atrair grandes operadores internacionais, estimular a inovação e ampliar a infraestrutura crítica para serviços de nuvem, inteligência artificial e processamento de dados.
Para acessar os benefícios fiscais, as empresas precisam cumprir contrapartidas como:
- Uso de energia renovável ou limpa para a totalidade da sua demanda de energia elétrica por meio de contratos de suprimento ou autoprodução;
- Compromissos de sustentabilidade ambiental
- Investimentos em pesquisa e inovação no Brasil
- Destinação de parte da capacidade de processamento ao mercado interno, 10% (dez por cento).
A MP entrou em vigor na publicação (setembro de 2025), com efeitos dos incentivos a partir de 1º de janeiro de 2026, com prazo de validade de 5 anos para os benefícios, até 31 de dezembro de 2026 para PIS/Cofins/IPI e teve prorrogação do prazo para deliberação da MP por 60 dias. Data final após prorrogação: 25/2/2026.
Apesar do entusiasmo inicial, especialistas apontam que o ReData ainda não saiu do papel. Por ainda não ter sido aprovada a MP, falta a regulação definindo as regras para os incentivos, sem o que o regime não pode ser operacionalizado. Segundo análises do setor, investidores estão aguardando clareza regulatória antes de comprometer capital. Há ainda o risco de a MP perder validade caso não seja convertida em lei, o que amplia a insegurança jurídica.
Com a demora, existe o risco de investidores redirecionar recursos para países que oferecem regulamentações mais maduras e previsíveis. Mercados como Chile, México e Colômbia têm avançado em políticas de atração de infraestrutura digital.
Inicialmente, o ReData cria a exigência de suprimento de eletricidade 100% de origem limpa o que no Brasil, apesar da alta percentagem de energia limpa na matriz energética nacional, apresenta-se como complexo pois Data Centers exigem suprimento com alta confiabilidade as 24 horas de todos os dias do ano e, atualmente, nossas fontes de geração possuem grande participação de fontes sem essa capacidade. Será que esses países competidores exigem também fontes limpas de suprimento?
Essa competição poderia ser considerada exagerada pois a necessidade de criação de Data Centers é alardeada como de grande mercado. No entanto, notícias vindas de centros mais avançados trazem outro tipo de competidor para implantação de Data Centers — o ESPAÇO SIDERAL. Sim centros de computação em estações espaciais.
O portal do fabricante Nvidia[1]informa que Centros de Dados extraterrestres estão prestes a se tornar realidade. Nesse portal, Philip Johnston, o CEO da Starcloud, uma startup membro do programa Nvidia Inception para startups, sediada em Redmond, Washington, USA, indica que: “No espaço, você tem energia solar renovável praticamente ilimitada e de baixo custo. O único impacto ambiental será o do lançamento; depois disso, haverá uma economia de dióxido de carbono dez vezes maior ao longo da vida útil do centro de dados, em comparação com o fornecimento de energia para um centro de dados terrestre.” A Starcloud projeta que os custos de energia no espaço sejam 10 vezes menores do que as opções terrestres, mesmo incluindo as despesas de lançamento. “Em 10 anos, quase todos os novos centros de dados estarão sendo construídos no espaço sideral”, prevê Johnston.
Além disso, em vez de depender de água doce para refrigeração por meio de torres de evaporação, como muitos centros de dados terrestres, os centros de dados espaciais da Starcloud podem usar o vácuo do espaço profundo como um dissipador de calor infinito.
O lançamento do satélite da Starcloud, ocorrido em novembro de 2025, marcou a estreia cósmica da GPU NVIDIA H100 — e a primeira vez que uma GPU de última geração, de nível de centro de dados, opera no espaço sideral. O satélite Starcloud-1, de 60 quilos e aproximadamente do tamanho de uma pequena geladeira, oferece uma capacidade de processamento de GPU 100 vezes maior do que qualquer operação espacial anterior. A vida útil esperada da missão é de 11 meses, após os quais o satélite sairá de sua órbita e se desintegrará na atmosfera. Caso o teste ocorra conforme o planejado, a empresa espera construir centros de dados significativamente maiores no espaço e já planeja implantar um satélite de centro de dados de 5 GW alimentado por um painel solar de quatro quilômetros quadrados.
A Starcloud está firmando uma parceria com a Neocloud Crusoe. “Ter a Crusoe como provedora de nuvem fundamental em nossa plataforma representa um alinhamento perfeito de visão e execução”, disse Philip Johnston, CEO da Starcloud. “A experiência da Crusoe na construção de soluções de computação robustas, eficientes e escaláveis foi o motivo para a parceria que permitirá não apenas instalar um centro de dados no espaço, mas desbloquear possibilidades extraordinárias para pesquisa, descoberta e inovação.”
Mas não é apenas a Starcloud que planeja operar Centros de Dados espaciais. Várias outras empresas estão considerando a possibilidade de construir data centers no espaço, incluindo a Axiom Space, Nippon Telegraph and Telephone (NTT), Ramon.Space e Sophia Space, para citar apenas algumas. Jeff Bezos, fundador da Amazon e proprietário da Blue Origin, disse em outubro que haverá data centers de gigawatts no espaço em mais de 10 anos, enquanto o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, disse este ano que adquiriu a empresa de foguetes Relativity Space para colocar data centers em órbita. Em novembro, o Google anunciou o ‘Project Suncatcher’, um plano de longo prazo para colocar terawatts de capacidade de processamento no espaço.
A Axiom está desenvolvendo a primeira estação espacial comercial do mundo, com o lançamento do primeiro módulo previsto para “não antes de 2027”. Inicialmente, fará parte da Estação Espacial Internacional (ISS), mas está planejado que se separe e permaneça em órbita após a desativação da ISS. Esse módulo conterá um centro de dados orbital.
A NTT criou a Space Compass — uma empresa conjunta entre a NTT e a SKY Perfect JSAT que está trabalhando ativamente no lançamento de centros de dados espaciais. Trata-se de um desenvolvimento em andamento com foco no processamento de dados em órbita, em vez de instalações terrestres. Por outro lado, a Blue Origin, de Jeff Bezos, planeja implantar um serviço de computação em nuvem no espaço, e a União Europeia está estudando o conceito de centros de dados espaciais.
Esses desenvolvimentos mostram que existe possibilidade concreta das futuras instalações dos Centros de Dados se deslocar para o Espaço Sideral e, dessa forma, a competição para atrair instalação desses centros ficar muito mais acirrada. Esse é o motivo da necessidade de agir agora.
Para o Brasil, urge que o Congresso transforme em lei a citada MP. Importante, porém, que não sejam introduzidos “jabutis” que venham a deteriorar essa iniciativa. Importante, também, que se discuta a exigência de terem esses centros suprimento de eletricidade 100% de origem limpa. O suprimento de eletricidade pelo Sistema Interligado Nacional (SIN) já se constitui em eletricidade substancialmente oriunda de fontes limpas, pois o Brasil possui uma matriz de muito pouca participação de fontes fósseis. Portanto, nossa eletricidade não deveria ser impedimento para atração de investidores com preocupação ambiental.
Além dessa formalização legislativa e sua regulação, faz-se necessário identificar a existência, ou planejar instalação, de infraestrutura de telecom, suprimento de água e de eletricidade para os possíveis locais dessas instalações. Importante também, que os outros consumidores desses serviços de infraestrutura não sejam penalizados, não se criem subsídios e que esses incentivos fiscais sejam por tempo determinado como estabelecido na MP.