Nada de Novo sob o Sol

O confronto entre Irã e Estados Unidos recorda, em certa medida, as antigas guerras entre persas e gregos

Ao observarmos o mapa do mundo, especialmente a região do Oriente Médio, identificamos dois grandes berços da civilização. A oeste, o Egito, com sua antiga tradição agrícola e política. A leste, sucedem-se sumérios, assírios, partos e persas, impérios que dominaram a região por milênios.

Entre esses polos surge, por volta do primeiro milênio antes da Era Comum, um pequeno povo organizado sob um Estado teocrático baseado na crença em um Deus único: os judeus. Estabelecem Jerusalém como capital e passam a alternar guerras e alianças numa das áreas mais disputadas da história.

Ao mesmo tempo, os gregos constroem uma civilização marítima, fundada no comércio e na navegação, espalhando cidades-Estado pelo Mediterrâneo e pelo Mar Negro. Em contraste com os impérios territoriais do Oriente, projetam seu poder pelas rotas comerciais.

Mais tarde, Roma derrota Cartago, conquista o Mediterrâneo Ocidental e, como República e depois Império, estende sua influência sobre praticamente toda a Europa Ocidental e boa parte do Oriente Médio. Além de suas fronteiras naturais, os povos germânicos e, mais a leste, os eslavos permanecem como protagonistas de sucessivos confrontos que atravessam séculos, enquanto a Índia segue relativamente protegida por suas barreiras geográficas.

O aspecto mais impressionante dessa longa sucessão histórica é a permanência das linhas de conflito. Se compararmos o mapa em diferentes épocas — da Antiguidade ao mundo contemporâneo — perceberemos que os espaços estratégicos permanecem quase os mesmos. Mudam os impérios, os governantes e as alianças, mas as disputas se repetem sobre cenários surpreendentemente estáveis.

As Grandes Navegações introduzem um novo protagonista: os Estados Unidos, cuja ascensão altera o equilíbrio mundial sem modificar sua lógica essencial.

Sob essa perspectiva, o confronto entre Irã e Estados Unidos recorda, em certa medida, as antigas guerras entre persas e gregos. Da mesma forma, as tensões envolvendo Israel e seus vizinhos reproduzem conflitos que remontam à época em que Davi estabeleceu Jerusalém como capital e Salomão ali construiu o Templo.

A Europa também revive antigos dilemas. Depois de repelir, ao longo de séculos, a expansão islâmica iniciada na Península Ibérica, enfrenta hoje um intenso fluxo migratório oriundo de países árabes e africanos de maioria muçulmana. Esse movimento obedece ao conhecido modelo gravitacional das migrações: populações são atraídas pelas regiões de maior prosperidade, enquanto a distância limita esses deslocamentos.

Após décadas desse processo, cresce entre muitos europeus o receio de que profundas transformações demográficas alterem valores tradicionalmente associados à civilização judaico-cristã, estimulando políticas migratórias mais restritivas.

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos parecem abandonar gradualmente o papel de “xerife do mundo”, privilegiando a proteção de suas fronteiras, o controle da imigração e a busca de maior autossuficiência econômica, tecnológica e militar.

A história, entretanto, ensina que os impérios mais duradouros não foram apenas os mais poderosos militarmente, mas aqueles capazes de estabelecer relações comerciais relativamente equilibradas e construir uma ordem aceita pelos diferentes povos.

É justamente aí que se encontra a principal reflexão.

Nada há de realmente novo sob o sol. Permanecem as ambições humanas, a busca pelo poder e a tendência de grupos dominantes oprimirem os mais fracos, tanto dentro das nações quanto entre elas. Quem ignora a história frequentemente acredita inaugurar debates inéditos, quando, na realidade, apenas revive disputas milenares.

Ao lado do poder econômico e militar, contudo, existe outra força frequentemente subestimada: o poder espiritual. O cristianismo, o islamismo e o hinduísmo moldaram civilizações inteiras e continuam exercendo influência sobre bilhões de pessoas. Talvez seja justamente nessa dimensão e na consciência da vulnerabilidade do mundo à destruição dos sistemas naturais que resida a esperança de uma maior fraternidade entre os povos.

José Luiz Alquéres é vice-presidente do IHGB.
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