Minha vida no Itamaraty

12 de maio de 1971, quando tudo começou

E ainda estamos aqui.

Hoje cumpro 55 anos de chegada ao meu primeiro posto no exterior.
O primeiro a gente nunca esquece, diz-se.
Eu era Oficial de Chancelaria e Tereza e eu estavamos ainda em lua-de-mel, casados em 2 de abril.
Chegamos em Oslo no final da tarde de um sábado ensolarado e não fazia muito frio, coisa não muito comum naquelas terras. O Boeing da Scandinavian Airlines System (SAS) aterrissou suavemente e taxiou até próximo do terminal do Aeroporto de Fornebu. Turbinas cortadas, o Comandante fez as habituais
saudações de chegada, tipo:
– Takk for at du flyr med SAS, så sees vi neste gang. (Obrigado por voar com a SAS e até a prixima vez).
As belas aeromoças louras (claro) começaram a ajudar os passageiros a se prepararem para o desembarque.
Tomei a mão da Tereza e a apertei, querendo transmitir confiança. Claro que eu mesmo precisava da mão dela para me dar força.
Pensei comigo:
– Então é nesta terra que eu e ela iríamos viver nos próximos anos?
Uns olhos molhados, gotinhas de lágrimas escorreram. Nos olhos da minha linda mulher. E nos meus também, por que não?
Descemos a escada, pois naquele tempo não havia os “fingers“ de hoje. Arzinho fresco, um cheiro diferente. Toda cidade tem seus próprios aromas, inconfundíveis, aprendi cedo, desde que vim morar no Rio.
A camionete Volvo, com o sempre atento Bonifácio Valdez no volante nos esperava na chegada. No caminho até a cidade, olhos atentos. Curiosidade e espanto. Emoção.
Fomos felizes. Lá nasceu André, nosso primogênito, uma peça preciosa a mais no nosso tesouro. Curtimos muito o país. Trabalhei bem, como sempre. Aprendi muito com amigos já diplomatas. Nunca aprendi a trabalhar mal. Ganhei a confiança do Embaixador. Adotou-me como um filho profissional . Filho postiço. O inesquecível Jayme de Souza Gomes. Tanto fez que acabou me convencendo a fazer o concurso para a Carreira. Em condições insólitas e adversas – eu lá e o concurso aqui. Conseguiu minha vinda ao Brasil. Afinal fiz o concurso. Fui aprovado.
Isso foi há muitos anos, mas tenho viva memória daquele dia.
E ainda estamos aqui.

Dante Coelho de Lima é diplomata.
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