Marketing ou desastre? Como um boné virou problema político

Tenho um amigo português que vive no Brasil e ficou surpreso com a nova campanha publicitária do governo federal, que adotou o slogan “O Brasil é dos brasileiros”. A frase, que apareceu originalmente em um boné azul usado pelo presidente Lula em fevereiro, agora será a peça central de uma estratégia de comunicação oficial.

O uso do boné e da frase pode ser interpretado como uma resposta aos bonés vermelhos com o slogan “Make America Great Again”, amplamente utilizados por parlamentares aliados a Bolsonaro, em referência à campanha de Donald Trump nos Estados Unidos. No entanto, a escolha do governo levanta questionamentos sobre seus reais objetivos e possíveis consequências.

Se a intenção era viralizar nas redes sociais com um símbolo carregado de conotação xenofóbica, o objetivo foi alcançado. Mas a que custo? O governo já enfrenta um aumento significativo na sua desaprovação – que, segundo a Caesp, chega a 96%.

Essa “guerra de bonés” representa uma forma de comunicação agressiva e excludente, que em vez de promover o diálogo entre diferentes grupos, apenas alimenta discursos de ódio. O tom xenofóbico da mensagem é inegável e levanta dúvidas sobre quem, dentro do governo, teve essa “brilhante” ideia que está gerando polêmica no meio político e desconforto entre imigrantes e demais envolvidos na questão migratória no Brasil.

O Brasil sempre foi admirado, especialmente pela opinião pública internacional, por seu caráter acolhedor em relação a refugiados e imigrantes. Muitos estrangeiros se tornaram cidadãos plenos, contribuem para o desenvolvimento do país e fazem parte essencial da sociedade brasileira. Agora, o governo parece optar por um discurso que gera divisão desnecessária e contradiz essa tradição de hospitalidade.

Se a intenção era fortalecer o nacionalismo e o amor à pátria, a campanha falhou na execução e diluiu a essência da mensagem. Philip Kotler, considerado o pai do marketing moderno, já alertava que o marketing eficaz não é sobre o que você quer dizer, mas sobre como o público interpreta a mensagem. Talvez fosse prudente revisar alguns manuais sobre boas práticas antes de insistir no erro.

Diante desse cenário, não seria surpresa se a oposição aproveitasse a situação para estampar em bonés a frase: ” O governo Lula armou a própria armadilha”.

Willian Corrêa, jornalista, é correspondente do Diário do Poder nos Estados Unidos.
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