‘Éramos seis’, ‘Éramos três’, ou a liberdade de escolher

O lançamento, pela TV Globo, da novela Éramos seis mexeu no fundo das recordações de um caixeiro, ou como se diz hoje, balconista, da livraria dos tios em Belo Horizonte, a Livraria Editora Itatiaia. Vendi muitos exemplares deste livro. Foi o meu primeiro emprego, e com carteira assinada, salário-mínimo oficial do menor de idade, CR$ 5.936,00, acrescidos de 1% sobre as vendas mensais. De modo assim aquele romance brasileiro, um best seller permanente, acrescentou ao bolso alguns cruzeiros gastos no cinema, no milk sheik da Camponesa e nos sapatos mocassins, uma novidade irresistível para a rapaziada classe média.

O documento que fui pegar no baú é um dos meus encantamentos de setentão: a Carteira de Trabalho do Menor, emitida na data de 5 de abril de 1962, Governo João Goulart. É uma curiosa peça social. Há duas páginas dedicadas à legislação sobre os locais proibidos ao trabalho do menor. Este não poderia trabalhar em matadouros, em pedreiras, em subterrâneos, em esgotos, em locais poeirentos e naqueles em que se produzem elementos químicos os mais diversos. É extensa a lista de proibições para preservar a saúde da garotada trabalhadora. No entanto, não há menção a casas de espetáculos, nem ao menos ao teatro rebolado, onde, por suposto, qualquer menino podia ser faxineiro dos camarins das vedetes e se extasiar com as coxas de fora que mexiam com nossa imaginação e mexiam com outros mecanismos físicos. Inexistia no rol do então Ministério do Trabalho e Previdência Social qualquer proibição de cunho moral ao menor trabalhador. Não sei se é assim até hoje; tomara que seja ou tomara que não denunciem a lacuna à besta quadrada do atual ministro da Educação e da estapafúrdia ministra da Família. De sorte que o Pedrinho pode trabalhar numa enorme e vistosa livraria onde a pornografia, a obscenidade, o erotismo ou que nome queiram dar a estas manifestações do espírito campeavam solta na prateleira de baixo de uma estante discreta no fundo da loja. Era uma das duas estantes de minha predileção. A outra estante também ficava em local discreto, pois afinal Minas Gerais era o Estado mais conservador e religioso, e a Itatiaia comercializava canonicamente: tratava-se da seção de Ocultismo, na qual o livro mais procurado era A Cruz de Caravaca ou seus concorrentes, A verdadeira Cruz de Caravaca, A única e verdadeira Cruz de Caravaca, A poderosa Cruz de Caravaca etc. A concorrência entre os impressores sabichões era intensa e criativa. E o caixeiro, ó, só embolsando a comissão de 1%! Uma outra obra de grande saída era O livro de São Cipriano, cujas receitas de mezinhas ofereciam o saneamento de todos os males individuais.

Meu tio, o poeta Edison Moreira, era o gerente da loja; o outro sócio, tio Pedro Paulo, se encarregava da parte editorial. Duas personalidades distintas. Pedro Paulo, sem ser literato, valendo-se apenas do seu tino comercial, se dedicava a construir uma notável brasiliana, na qual reeditou os viajantes europeus que percorreram o Brasil desde antes da Colônia, e cujos livros há décadas estavam esgotados. De romancistas, só os de elite, como Boris Pasternak do Doutor Jivago, a obra completa de Eça de Queiroz ilustrada pelo pintor Haroldo Mattos, os clássicos mineiros de sempre e os modernos. Enquanto isto, o irmão intelectual cuidava de versejar belos poemas e de administrar a loja de modo liberal e libertário. O tio poeta me flagrou inúmeras vezes agachado, fingindo arrumação de livros na estante dos ditos romances fortes, mas na verdade lendo escondido um trecho de trepidante ação entre duas lésbicas (assim se dizia, pois o vocabulário brasileiro não criara nada como homossexualidade feminina, opção sexual diversa, LBTG etc. A mulher era lésbica e o homem pederasta, ponto final). As páginas licenciosas lidas à sorrelfa pelo balconista menor de idade eram de autoria da inesquecível Cassandra Rios. Ou era Carne em delírio ou Tara. Só pelos títulos já conquistava o leitor.

– Vai trabalhar, seu sacaneta! – ralhava meu tio Edison com sua generosa permissividade, ou com seu absoluto respeito pela liberdade cultural, assegurada ao sobrinho de quinze anos de idade.

O flagrado, obediente, recolhia o livro à estante, retornava ao posto de trabalho, no balcão, e via o tio folheando as páginas que regalara os sentidos mais primitivos do sobrinho. Que narrativa a de Cassandra Rios! Que força criadora! Que vontade de conhecer a escritora!

Este nariz de cera é para chegar ao Éramos seis, da escritora paulista Maria José Dupré, ou Sra. Leandro Dupré, ou ainda Madame Dupré, outros nomes literários pelos quais tornou-se famosa pela autoria do romance que deu origem à novela que vai ser exibida pela TV Globo. É a quinta versão televisada desta obra que vendeu milhares de cópias desde sua publicação em 1942. Sucesso tão grande levou o cinema argentino a produzir um filme em 1946. O balconista Pedrinho vendeu muitos exemplares do Éramos seis, especialmente para senhoras de respeito. Nesta matéria, as moças de respeito preferiam adquirir os romances água com açúcar de Madame Delly. Madame Delly! Ora, só agora estou sabendo que não existia nenhuma Madame Delly, este era o pseudônimo dos irmãos franceses Frederic e Jeanne de la Rosiére, best sellers desde o começo do século 20 em muitos países europeus e no Brasil, talvez em todo o planeta.

Maria José Dupré.

Maria José Dupré
Mas ainda não cheguei onde pretendo; e não é falar do justamente celebrado Éramos seis, que é um romance de costumes sobre as transformações operadas na sociedade brasileira (ou mais especificamente paulista) ocorridas entre as duas guerras mundiais. Madame Dupré descreveu com perfeição as relações sociais neste período e por isso mereceu o Prêmio Raul Pompéia da Academia Brasileira de Letras em 1946.

 

Capa da obra de Zéfiro.

Capa do livro de Carlos Zéfiro
O que quero mesmo é tirar do fundo do baú o Éramos três. Este, porém, não estava disponível na Itatiaia, a meninada o adquiria só nas bancas de jornais, veladamente. O autor, esperto, surfou no título de grande sucesso de Madame Dupré. Mas o conteúdo era outro! Escrevi autor, mas o Google esclarece que dois escritores deram idêntico título a obras suas. O primeiro deles é Carlos Zéfiro, celebrado desenhista de livrinhos de alta pornografia e enorme consumo no leitorado masculino de todas as idades. Sua imensa bibliografia é agora exaltada pelos críticos que o leram e apreciaram suas ilustrações para além da obscenidade. É hoje merecidamente um autor cult.

O segundo autor de livro com o mesmo título e teor igualmente pornográfico assinou-o como Brigitte Bijou, pseudônimo do humorista, ator e escritor Paulo Silvino, bastante conhecido pelos telespectadores dos programas humorísticos da Globo, excelente figura humana, falecido no ano passado. Quanto riso demos com as interpretações impagáveis de Paulo Silvino!

Retorno à estante discreta da Livraria Itatiaia, onde lia escondido os romances de Cassandra Rios. Paulista como Madame Dupré, sua especialidade literária, porém, nada tem em comum com aquela. Cassandra só escrevia sobre o amor entre mulheres. Mas ambas as escritoras de São Paulo não eram antípodas. Paradoxalmente, há aproximações com a autora “séria” do Éramos seis, pois a romancista de Volúpia do pecado também discorria sobre as transformações sociais no Brasil ocorridas no âmbito da sexualidade. E nesta matéria foi pioneira. Quem ousaria escrever sobre o que era tabu na década de 1950? Só a destemida Cassandra Rios!

Cassandra Rios
Meu secreto desejo de conhecer Cassandra Rios infelizmente nunca foi concretizado. Perdi. No dia 2 de março de 2002, ao tomar conhecimento de sua morte, o antigo caixeiro de livraria escreveu no seu diário umas anotações que agora reproduzo.

Cassandra Rios foi um retumbante sucesso editorial durante pelo menos vinte anos, de meados de 1950 até meados de 1970. Um romance dela atingia a marca de trezentos mil exemplares. Ela não perseguia sucesso de crítica. Só pretendia escrever, e tornou-se escritora profissional aos dezesseis anos de idade. No Brasil daquela época pouquíssimos escritores podiam vangloriar-se desta feliz condição. Integravam essa plêiade os romancistas Érico Veríssimo e Jorge Amado, e o poeta popular J. G. de Araújo Jorge, injustamente esquecido. Cassandra Rios formava com eles o quarteto campeão de vendas na Itatiaia. Nem A Poderosa Cruz de Caravaca podia competir com sua capa chamativa cheia de caveiras que eu adorava mais ver do que ler. Sabe como é, menino gosta de ver ilustrações impudicas e de caveiras também. A mais vistosa caveira estampava O livro de São Cipriano.

Cassandra Rios, escritora.

Os homens liam Cassandra em busca de puro deleite sexual. Mulheres também a liam, mas tinham vergonha de comprar os livros diretamente no balcão do Pedrinho. E então pediam a um amigo para fazê-lo. Haveria de ser mesmo um amigo do peito, pois juraria jamais revelar o pecado, de que era apenas o portador. Se a leitora fosse moça de família, a primeira providência seria encapar o livro com papel florido, com o objetivo de escondê-lo dos pais e, eventualmente, dos professores.

O sexo feminino podia buscar na leitura de Cassandra o mesmo deleite masculino, mas, frequentemente, juntavam ao prazer oculto uma dose de curiosidade, eu diria científica. Pois a notável escritora compunha um texto pedagógico, suprindo os leitores de ambos os sexos com informações normalmente sonegadas aos não-iniciados naquilo que a cafajestice masculina dos anos 70 passou a chamar de briga de aranhas. Cassandra desceu aos detalhes de suma importância na arte de Kama Sutra, como o modo de acariciar e os meneios com certos dedos das mãos.

Também nos ensinou a beijar na orelha. Há muitos homens que até hoje não sabem beijar orelha de mulher. Contava-se no Automóvel Club o caso de um certo Afrânio de Uberlândia que num baile de carnaval enfiou a língua onde não devia e engasgou com o brinco de uma odalisca. Não leu Cassandra Rios.

Queiram ou não os críticos que a desprezaram e a ditadura militar que proibiu seus livros, a escritora de romances populares conquistou um lugar no coração de milhares de leitores. Desde que escreveu seu primeiro livro numa idade em que as moças gramavam no ginásio de freiras ou se aperfeiçoavam na Escola Normal, Cassandra nunca pretendeu ser mais do que foi: uma criadora de entretenimento. E nisto ela foi uma mestra.

Cassandra Rios, filha de espanhóis, cujo nome verdadeiro era Odete Rios, foi um espírito muito à frente de seu tempo. Derrubadora de muros, este é o aspecto que merece ser destacado na vida desta paulista que foi para o céu dos escritores aos setenta anos de idade. O negócio lá em cima ferveu à beça!

Louvando Éramos seis e Éramos três, e os romances de Cassandra Rios, estamos louvando a criação literária brasileira no que ela tem de mais genuíno: oferecer a todos o que cada um escolhe para o deleite da leitura. Democraticamente.

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