E assim, sorrindo, afundamos!

A dívida pública não é apenas um problema contábil. É um compromisso entre gerações.

O Brasil afunda lentamente, mas os donos do poder — por cinismo, conveniência ou cegueira — insistem em vender à população a ilusão de que tudo vai às mil maravilhas. Não demonstrou qualquer constrangimento o Presidente da República ao afirmar, durante a recente Cúpula do Mercosul, que o país está “recuperado” e que a economia brasileira exibe “a vitalidade de um jovem de 20 anos”.

Mais preocupante, porém, é sua insistência em minimizar a gravidade do desequilíbrio das contas públicas. Quando comenta sobre o assunto, tem relativizado o problema comparando a dívida brasileira à de grandes economias desenvolvidas, como se essa analogia bastasse para afastar os riscos fiscais. Sob esse argumento, sustenta que a busca pelo equilíbrio fiscal não deve limitar investimentos considerados essenciais.

O raciocínio, contudo, ignora uma diferença fundamental: economias desenvolvidas financiam suas dívidas a custos incomparavelmente menores e desfrutam de uma credibilidade fiscal construída ao longo de décadas. O Brasil, ao contrário, precisa oferecer uma das maiores taxas reais de juros do mundo para convencer investidores a financiar sua dívida. Ignorar essa realidade não a torna menos perigosa.

As nações raramente mergulham em crises fiscais de forma repentina. Antes da tempestade surgem sinais discretos, quase sempre ignorados porque o cotidiano parece seguir seu curso normal. O mercado funciona, o consumo continua, os bancos operam, o Tesouro realiza novos leilões. À primeira vista, nada parece fora do lugar. Mas alguns indicadores merecem atenção. Entre eles, destaca-se o preço que um país precisa pagar para convencer investidores a financiar sua dívida.

Hoje, o Brasil remunera títulos públicos com aproximadamente 8,3% ao ano acima da inflação. Não se trata de uma taxa comum. Tampouco de um detalhe técnico reservado aos economistas. Trata-se de um diagnóstico.

Investidores não compram títulos do Tesouro por patriotismo nem por altruísmo. Compram porque avaliam riscos e oportunidades. Quanto maior a percepção de incerteza sobre o futuro das contas públicas, maior será o prêmio exigido. Os juros deixam de refletir apenas a política monetária e passam a expressar uma dúvida mais profunda: o Estado conseguirá controlar sua trajetória fiscal?

A resposta ainda não é negativa. Mas tampouco inspira tranquilidade.

O Brasil convive há décadas com uma dificuldade estrutural: o crescimento persistente do gasto público em ritmo superior ao da capacidade de geração de riqueza da economia. Em determinados momentos, reformas importantes impediram o agravamento do quadro; em outros, a disciplina fiscal cedeu espaço às urgências da política. O resultado é conhecido: déficits recorrentes, aumento da dívida e crescente dependência da confiança dos mercados.

Essa confiança, porém, tem preço — e um preço elevado.

Enquanto economias maduras refinanciam suas dívidas pagando juros reais modestos, o Tesouro brasileiro precisa oferecer uma remuneração entre as mais altas do mundo. Cada nova emissão incorpora esse custo ao estoque da dívida. Cada refinanciamento amplia o peso dos encargos financeiros no orçamento da União. Pouco a pouco, recursos que poderiam financiar investimentos públicos passam a custear o serviço da dívida.

A matemática não concede exceções. Quando os juros reais permanecem acima do crescimento da economia por períodos prolongados, a dívida tende a crescer mais rapidamente do que a renda nacional. Para conter essa dinâmica, o governo precisa produzir superávits primários consistentes durante vários anos. Não por preferência ideológica, mas porque essa é a lógica elementar das finanças públicas.

É justamente aí que reside o desafio brasileiro.

Não se trata de anunciar uma crise iminente. O país possui uma economia diversificada, um setor agropecuário altamente competitivo, um sistema financeiro sólido e uma autoridade monetária que conquistou credibilidade ao longo de décadas. Esses fatores oferecem uma margem importante de segurança. Mas segurança não significa imunidade.

A história econômica demonstra que crises fiscais raramente surgem pela ausência de avisos. Costumam nascer quando sinais persistentes deixam de provocar inquietação e passam a ser tratados como parte da paisagem.

Talvez o maior risco não seja a situação presente, mas o fato de que passou-se a encarar com naturalidade o perigo. Quando uma taxa real superior a 8% ao ano deixa de causar espanto é sinal de que algo sério ocorre com a percepção coletiva. Quando o excepcional passa a parecer rotineiro, é sinal de que se perdeu o bom senso ou se exagerou nas doses de cachaça.

A dívida pública não é apenas um problema contábil. É um compromisso entre gerações. As decisões tomadas hoje determinarão quanto espaço terão os governos de amanhã para investir, inovar, proteger os mais vulneráveis e responder às inevitáveis crises do futuro. Cada ponto percentual adicional de juros transfere para as próximas gerações o custo das irresponsabilidades do presente.

Ainda há tempo para corrigir a rota. Mas o tempo, em economia, também cobra seu preço. Quanto mais se adia o enfrentamento do desequilíbrio fiscal, mais custosa tende a ser a solução.

Os juros pagos pelo Tesouro não são apenas números exibidos nas telas do mercado financeiro. São mensagens. E mensagens que se repetem por muito tempo acabam transformando-se em advertências.

O Brasil ainda navega em mar aberto. Não há motivo para anunciar naufrágio iminente. Mas os ventos já mudaram de direção, e marinheiros experientes sabem que ignorar os primeiros sinais do tempo nunca foi uma boa estratégia para alcançar o porto em segurança

As taxas reais de juros que os governos pagam para financiar suas dívidas variam diariamente conforme os mercados. Para uma comparação internacional, o mais adequado é utilizar o rendimento real dos títulos públicos de longo prazo (normalmente títulos de 10 anos indexados à inflação ou a diferença entre juros nominais e inflação esperada).  A tabela abaixo apresenta valores aproximados observados em 2026, suficientes para fins de análise comparativa.  

PaísJuros reais aproximados (% a.a.)
Estados Unidos1,8–2,2
China0,5–1,5
Japão0,3–0,8
Alemanha0,8–1,3
Índia2,0–3,0
Reino Unido1,5–2,0
França1,0–1,5
Itália1,5–2,2
Canadá1,3–1,8
Coreia do Sul1,5–2,2
Rússia5–8
Austrália1,2–1,8
Espanha1,0–1,5
México4–5
Indonésia2–3
Países Baixos1,0–1,3
Arábia Saudita1–2
Suíça0–1
Taiwan0,5–1,5
Polônia2–3
Bélgica1–1,5
Suécia1–2
Irlanda1–2
Áustria1–1,5
Noruega1–2
Israel1,5–2,5
Singapura1–2
Brasil8,3
 

O dado realmente impressionante é que o Brasil paga cerca de quatro vezes mais juros reais que os Estados Unidos; cinco a oito vezes mais que Alemanha, França ou Japão;  muito acima da maioria dos países emergentes, inclusive Índia, Indonésia e Polônia.  Entre as grandes economias com mercado financeiro normalizado, praticamente apenas Rússia (em contexto de guerra e sanções) apresenta taxas reais comparáveis em alguns momentos.

Esse é justamente o aspecto mais preocupante da situação fiscal brasileira. O problema não é apenas o tamanho da dívida — cerca de 80% do PIB. Países como Estados Unidos, Japão e Itália possuem dívidas proporcionalmente maiores. A diferença está no custo do endividamento.

Quando um país paga juros reais próximos de 1% ou 2% ao ano, a dívida cresce lentamente e pode ser estabilizada com relativa facilidade. Quando paga 8,3% acima da inflação, como o Brasil, a dinâmica muda completamente: o serviço da dívida passa a consumir parcela crescente do orçamento, exigindo superávits primários elevados apenas para impedir que a relação dívida/PIB continue aumentando.

Essa é a razão pela qual muitos economistas consideram a taxa real exigida pelo mercado um dos mais eficazes “termômetros” da confiança na sustentabilidade das contas públicas. Ela sintetiza a percepção de risco dos investidores sobre a capacidade futura do governo de honrar seus compromissos sem recorrer à inflação elevada, a aumentos expressivos de impostos ou à reestruturação da dívida.

Pedro Luiz Rodrigues, embaixador aposentado e jornalista. Foi por três vezes secretário de imprensa do Ministério da Fazenda e diretor do jornal O Estado de S. Paulo.
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