A crise entre o Brasil e os Estados Unidos é um episódio que expôs as falhas diplomáticas do Brasil. A decisão dos EUA de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros escancarou a falta de preparação e a má condução das relações bilaterais por parte do governo brasileiro. Mesmo em meio a tensões ideológicas, é fundamental que o interesse nacional prevaleça, como em crises passadas, até que as relações entre os dois países retornem à normalidade.
A decisão do governo Trump de taxar em 50% os produtos brasileiros de exportação para os EUA pegou as autoridades brasileiras de surpresa e deixou muita gente perplexa. Se recapitulamos a retórica das altas autoridades brasileiras em relação ao candidato Trump e depois ao presidente eleito, a comunicação oficial da altíssima tarifa não deveria surpreender ninguém. A crise já estava contratada e, inevitavelmente, aconteceu.
Merece referência a ação da oposição bolsonarista ao governo Lula e a ausência do estabelecimento de canais de comunicação com a Casa Branca e com o Departamento de Estado, desde a eleição até hoje, por razões puramente ideológicas. A carta menciona adicionalmente a regulamentação da mídia social e das big techs em curso no STF, lembrando que a Europa recuou dessa discussão para não confrontar os interesses dos EUA.
O interesse nacional exige que, agora, acima de ideologias e disputas partidárias, o foco seja a negociação para reduzir as tarifas e defender nossa indústria e o agronegócio. As declarações políticas das autoridades brasileiras contra Trump e os EUA devem dar lugar a pronunciamentos técnicos, voltados à superação das dificuldades atuais.
Apesar das diferenças ideológicas e das personalidades envolvidas, a crise será superada, e a normalidade voltará a prevalecer, com cada país defendendo seus interesses nacionais sem confrontação ideológica. É preciso lembrar: a crise é político-diplomática, não apenas comercial.
De nada adiantará o governo federal dizer que apoia os exportadores, porque quem paga o preço do tarifaço são eles, não o governo federal. Este, inclusive, pode se sentir tentado a apostar no conflito por conta da sua agenda política, mesmo comprometendo a saúde da economia para garantir eleições desequilibradas em 2026. Por isso, é importante que os exportadores se conscientizem de que o governo federal não é necessariamente amigo deles.
Essa tarifa foi imposta como resposta ao desafio dos BRICS à hegemonia americana — desafio hoje capitaneado por Brasil, Rússia e Irã.
Vamos ao exemplo do canadá.
É nesse contexto que a paradiplomacia ganha relevância. No Canadá, por exemplo, atores políticos em âmbito federal e provincial implementaram uma agenda de contatos e viagens aos EUA para rebater, ponto a ponto, os argumentos do governo norte-americano que buscavam justificar tarifas. Reforçaram junto a interlocutores relevantes dos estados atingidos as perdas comerciais e os impactos negativos sobre as expectativas econômicas de investidores estadunidenses.
Os premiês de várias províncias canadenses viajaram aos EUA, reunindo-se com parlamentares e funcionários da Casa Branca para ressaltar a interdependência das cadeias de suprimentos entre os países e fazer lobby contra as tarifas. Houve contatos também com governadores e parlamentares — democratas e republicanos — considerados “amigos” da integração comercial, inclusive com laços empresariais com o Canadá.
Outdoors foram espalhados em estados republicanos chaves, explicando que as tarifas são, na verdade, impostos pagos pelos cidadãos americanos. Alguns premiês se engajaram fortemente na mídia dos EUA, dando entrevistas constantes em redes televisivas e nas mídias sociais para mostrar como as tarifas afetam a vida cotidiana dos norte-americanos.
Ministros do governo federal canadense também atuaram de forma coordenada nas redes, como no “X”, postando mensagens com pontos previamente combinados. Paralelamente, intensificaram os contatos diplomáticos de alto nível, mantendo abertos canais de diálogo com os negociadores norte-americanos.
Forças-tarefas dedicadas às relações bilaterais foram instituídas no âmbito da chancelaria e do gabinete federal, com contatos frequentes com membros do Congresso, governadores, prefeitos e grupos industriais. O objetivo era mostrar que as tarifas causam danos aos consumidores e aos empregos nos EUA, sobretudo nos estados mais dependentes das exportações para o Canadá.
Senhoras e senhores, este é o caminho que o Brasil deveria trilhar. Porque, em diplomacia, não há espaço para ideologia quando o que está em jogo é o interesse nacional.
E, para agravar a situação, os Estados Unidos abriram uma investigação sobre o comércio brasileiro, por meio da Seção 301. Foi justamente uma das inspirações que tivemos para propor a lei de reciprocidade no Brasil. Hoje, com a abertura dessa investigação, todos perderão muito mais.
A Seção 301 é um instrumento da lei americana que permite ao governo dos EUA investigar e punir práticas comerciais estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias. No caso concreto, ela está sendo usada para apurar se o Brasil prejudica empresas americanas com tarifas, restrições ao comércio digital e falta de proteção ambiental. O processo prevê coleta de comentários até 18 de agosto e uma audiência pública em 3 de setembro de 2025. Ao final, o governo pode impor sanções, como tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, se confirmar as práticas questionadas.
Para finalizar, meus amigos e minhas amigas, a escalada dessa crise não é fruto do acaso: é consequência direta de uma diplomacia amadora, contaminada por ideologia e desprezo pelo pragmatismo que sempre guiou nossas relações internacionais. O governo Lula preferiu hostilizar parceiros estratégicos e ensaiar retóricas de confronto, em vez de construir pontes de diálogo. Agora, diante da Seção 301 e da ameaça real de tarifas devastadoras, resta ao Brasil correr atrás do prejuízo. Precisamos de uma diplomacia profissional, pautada pela defesa intransigente do interesse nacional, e não de um governo que, na ânsia de agradar seus aliados ideológicos, expõe nosso agronegócio, nossa indústria e nossos empregos a um revés histórico.
Por: Evair de Melo, deputado federal e vice-líder da Oposição.