As notícias do terrível tornado que atingiu o Paraná nesta semana me trouxeram à memória um outro Tornado, o Tony.
Na era dos Festivais de Música, o ano de 1970 foi marcado pela vitória da música “BR-3”, de autoria de Antônio Adolfo e Tiberio Gaspar. Era interpretado por Tony Tornado, com o “backing”vocal do Trio Ternura.
Depois da vitória de “BR-3” no Festival, Tony Tornado e o Trio Ternura ganharam súbita notoriedade e passaram a percorrer o Brasil em shows , cujo ponto alto era a “BR-3”.
E assim foi.
Um dia foram participar do Festival de Verão de Guarapari, realizado em fevereiro de 1971 em Três Praias, Guarapari, Espírito Santo.
Naquela noite, show lotado, tudo ia bem quando chegou a hora do ápice, a hora da “BR-3”, que a plateia já vinha pedindo insistentemente.
A música que até então evoluia normalmente teve a sua esperada quebra de andamento. Foi quando Tony Tornado assumiu sua performance espetaculosa. A música, a princípio lenta e melodiosa…
-A gente corre, a gente morre, na BR-3…
…foi num crescendo, levando o público ao delírio com sua variedade de passos de rebolado americanizado.
Deu-se então o momento em que o ritmo das torções corporais se intensificava. Já não era mais Tony que ditava e dominava a cadência e alternância de tempos fortes e fracos. Era a música e o seu ritmo que o comandavam. Um rodopio aqui e, logo, o corpo estacava e a cabeca pendia para a frente, antes de também paralisar-se, enquanto as pernas, longas pernas, guardadas em botas negras de cano alto se entrelaçavam. Nesse processo, a pulsação crescia. No palco e na plateia. Era como se as turbinas de um imaginário aviao ganhassem rotações e empuxo que o tirariam do solo. O mais pesado (muito pesado) que o ar se ergueu.
Logo, o “backing” repetido do Trio Ternura se avoluma:
– Na BR-3, na BR-3, na BR-3.
Os jovens na plateia se agitavam, frenéticos no refrão.
E parecia que Tony, também ele próprio, se retroalimentava dessa catarse coletiva, dessa alteração súbita da função mental
Achou até que podia voar.
Tanto que, de súbito, num movimento inesperado do quadril, o formidável corpo se despegou do palco e alçou-se ao ar, lindo, leve (sic) e solto. E voou.
Foi um voo breve, ao cabo do qual, aterrissou sobre a plateia, com seus dois metros de altura e seu correspondente peso de crioulo parrudo.
Ao aterrisar, fê-lo pesadamente sobre uma pobre moça, a jovem Maria da Graça Capôs, que, no seu encantamento, acompanhou o assustador voo daquele formidável negro de dois metros de altura, seu ídolo. Pois é, sua última visão, antes de desfalecer, esmagada, terá sido a de uma formidável criatura negra e alada vindo em sua direção. Num átimo de êxtase, imaginou que, depois de pairar como a gota de orvalho da canção do Tom e Vinícius, ele caísse numa pétala de flor.
– É um pássaro, grande, negro e sem asas? É um drone (que nem existia)? É o Super-homem?
Nada disso. É o Tony Tornado, que, de senhor do espetáculo, fez-se refém da própria emoção (e, quem sabe, entorpecido por outras coisas), alça voo sobre a rapaziada extasiada.
Mas não foi assim. Tony Tornado aterrissou pesadamente sobre a pobre moça, fraturando sua espinha dorsal. Maria da Graça Capôs foi a única vítima da queda do voo noturno em Guarapari .
Consta que que o CENIPA nem chegou a investigar aquele acidente aéreo.
Enquanto isso, a gente continuou a correr e a morrer na BR-3.
Seja como for, no dia seguinte um jornal matutino estampou, em letras garrafais, a manchete:
– TONY TRANSTORNADO!