Arábia Saudita: arrancada de um Reino em transformação

A Arábia Saudita sediará a Copa do Mundo de 2034. Desde já, mostra que não aceitará ser vista como um reflexo do passado. Dá demonstrações efetivas de mudanças profundas, apagando a imagem do conservadorismo religioso. Progride sob a liderança do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que possui formação superior em administração pública e participou de programas de aperfeiçoamento na Universidade de Harvard.

Ainda existem interrogações dirigidas a Riad, sobretudo o o “assassinato” do jornalista dissidente Jamal Khashoggi em 2018, cuja autoria é investigada pela França, sem qualquer prova do envolvimento do Princípe Mohammed. Uma análise honesta do Reino saudita reconhece as  mudanças: a polícia religiosa perdeu força, as mulheres passaram a dirigir, trabalhar, viajar e emitir passaportes e antigas exigências de vestimenta foram flexibilizadas. Para uma sociedade fechada, esses movimentos têm grande influência política e simbólica.

Turismo é prioridade

A visão saudita é não apenas ser conhecido como um dos maiores produtores globais de petróleo, com reservas estimadas em mais de 260 bilhões de barris. O príncipe Mohammed  lançou a “Visão 2030”,  um projeto que  diversifica a economia, reduz a dependência do petróleo e investe nos setores de  turismo e tecnologia.

Os investimentos se dirigem à  energia renovável, ao acolhimento de turistas estrangeiros de qualquer religião e a uma corrida de explosão cultural, com estímulos ao entretenimento popular, que inclui concertos, filmes e exposições de arte em um país onde grande parte disso era ilegal.

Consciência da estabilidade

Existe a consciência de que tudo somente será possível se houver estabilidade. Nenhum turista ou investidor busca um país com riscos permanentes de mísseis, drones e conflitos internos nas redondezas. Em razão de acreditar na estabilidade e na paz, o governo investe em tentar soluções de convivência harmônica entre os países do Oriente Médio. A intenção do Reino é procurar reduzir tensões, acomodar interesses e manter distância de crises.

Números falam por si

As estatísticas dimensionam essa ambição. As receitas não petrolíferas superam US$ 137 bilhões, o desemprego caiu para 7% e o setor privado responde por 47% do PIB. O Fundo de Investimento Público, com ativos acima de US$ 940 bilhões, tornou-se a alavanca financeira de uma estratégia que combina infraestrutura e influência internacional.

O país mostra  nova geografia de poder. Não está apenas se transformando — está reescrevendo a sua história. O vento forte que sopra no deserto não move apenas a areia: transforma o horizonte. O  mundo, queira ou não, terá de reconhecer essa realidade saudita.

Ney Lopes – advogado, jornalista, ex-deputado federal, professor titular de Direito Constitucional – nl@neylopes.com.br
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