(Onde andará meu amigo?)
Fui ao cinema. Gostei muito do filme. Não sei se é cois para ganhar o tal Oscar. Mas ganhou minha alma e meu coração. E mexeu com minha memória. Uma lágrima rolou. Tive que esconder da Tereza.
Ontem passei por ali, naquela rua do Flamengo. E me deu uma enorme saudade. Que que é isso, companheiro?——
Éramos muito amigos. Num certo tempo, estudávamos juntos, eu, ele e mais dois amigos. Nos reuníamos em casas de parentes e amigos. Estudávamos literatura brasileira. Pensávamos em prestar o exame para a carreira de diplomata. Lembro de um apartamento na Lagoa e outro no Corte do Cantagalo. E sobretudo do quarto térreo no Edifício Ligação, número 15 da rua Senador Eusébio, no Flamengo, que ele alugava, acho que desde que veio de Belo Horizonte. Por ali, anos depois, eu passeava com meu cão (hoje falecido) e não deixava de lembrar daquele amigo.
No início dos anos 70, eu já estava no Itamaraty. Tinha feito o concurso para Oficial de Chancelara. Estava morando em Brasília, deixando para trás no Rio muitos amigos como ele. Há tempos que não o via. Em abril daquele ano fui transferido (removido, no nosso jargão) para Oslo (Noruega). Já casado com Tereza em 2 de abril, estava no Rio preparando nossa viagem ao exterior.
Um dia, uma surpresa. Recebi um telefonema dele. Não sei como, sabia de tudo, que eu iria morar fora e que queria despedir-se de mim antes que eu viajasse.
Adversário do golpe de 1964, ele havia feito a opção pela luta armada e já estava mergulhado na clandestinidade.
Disse-me que haveria cuidados a tomar. Não queria trazer problemas para mim. Na tarde seguinte, uma kombi branca, placa tal, passaria a horas tantas numa esquina da rua Marquês de Abrantes. Passaria duas vezes, parada rápida e um passageiro perguntaria pela Alaide. Era a senha, concluí. E só pararia na terceira, quando eu deveria embarcar. Entrei e uma venda foi logo posta nos meus olhos.
Rodamos uma meia hora e finalmente chegamos ao destino e a kombi entrou naquilo que me pareceu uma garagem. Sempre vendado e acompanhado por duas pessoas, que não disseram uma palavra e só me conduziram pelo braço. Subimos dois lances de escada. Paramos. Um dos meus acompanhantes tocou na porta um certo número de vezes e murmurou algo. Senti que a porta se abriu e fui empurrado para dentro. Conduzido por um corredor no fim do qual, num quarto, foi-me retirada a venda.
Ali estava ele, meu amigo, de pé. Um par de corações aos pulos. Estava mais magro, o cigarro permanentemente entre os dedos amarelados. Olhar inquieto, quase meio assustado. Fiquei com uma pena imensa daquele menino manso que conhecera, da sua doçura de mineiro. Quem diria. Abraçou-me longamente, nos sentamos e começamos a conversar. Não pude deixar de perceber num canto do quarto uma metralhadora. Estremeci. Falamos de muitas coisas, dos tempos de estudo em grupo. Ele perguntou por Tereza e quis saber da minha vida.
– E essa coisa de ir para Oslo? Quis saber.
Eu perguntei pouco sobre a vida dele. Estive a ponto de indagar sobre o paradeiro dos outros dois colegas. Mas achei melhor não fazê-lo. Ele entendeu e Pôs o indicador na boca. Até para sua segurança e a minha também. Apontou-me uma pilha de livros. E um cartaz. Só pude perceber que ele era militante de um daqueles grupos armados, identificados por siglas, que combatiam a ditadura.
E chegara a hora de dizer adeus. Nem ele, nem eu escondemos a emoção. Lágrimas rolaram de parte a parte. Nunca mais o veria. Voltei para casa do mesmo jeito, vendado, já agora a bordo de um outro carro, que na saída entendi tratar-se de um Fusca. Fui deixado perto de casa, na tranquila rua Jornalista Orlando Dantas. Tempos depois, já em Oslo, a Embaixada recebeu a sempre esperada mala diplomática quinzenal. Cabia-me a função de romper o lacre e abri-la, separando seu conteúdo. Dentro dela, além dos papéis oficiais sigilosos, alguns jornais e revistas velhos de duas semanas, mas que a gente disputava e lia avidamente. Apressei-me em folheá-los antes que o Embaixador chegasse e se apossasse do precioso conteúdo. E então deparei com a manchete de um jornal de grande circulação, alusiva a um ataque terrorista no Rio de Janeiro. E havia estampadas fotos dos seus autores, entre eles o meu amigo. Fiquei chocado. Já de volta ao Brasil em 1974, já então aprovado e cursando a Instituto Rio Branco, li nos jornais que o Promotor da 2’ Auditoria da Marinha havia pedido a pena de morte ou a prisão perpétua, com base na Lei de Segurança Nacional, para nove terroristas, entre eles o meu amigo, por assalto (e morte de um segurança) a uma empresa transportadora de valores. Desde então novos ciclos de missões no exterior me fizeram perdê-lo de vista. E quase de memória. Amigos comuns chegaram a afirmar que ele se tinha refugiado no Chile. Temi que tivesse desaparecido nos porões e masmorras do regime de Pinochet. Pode também ter sido, com as graças de Deus, beneficiado pela Lei de Anistia. Recentemente, me tenho valido dessa fonte inesgotável de informações que é o Google.
Tenho ainda esperanças de encontrá-lo. E nosso reencontro vai sem vendas, com um longo abraço. Amplo, geral e irrestrito.
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A memória desse tempo me foi reavivada há pouco ao ver o filme “AINDA ESTOU AQUI”.
E eu também ainda estou aqui.