Ao longo de mais de dois mil anos, os judeus deixaram para trás cidades, casas, sinagogas, yeshivot, bibliotecas e cemitérios espalhados por continentes inteiros. A história judaica é também a história desses lugares que permaneceram, mesmo quando aqueles que os habitavam foram obrigados a partir.
Existem povos cuja história foi escrita por imperadores, exércitos e fronteiras. Outros deixaram sua marca por meio de monumentos, revoluções ou conquistas. A história do povo judeu parece seguir outro caminho. Ela pode ser contada pelas cidades abandonadas, pelas casas deixadas para trás, pelas comunidades destruídas, pelos cemitérios espalhados por continentes inteiros e pelas sucessivas migrações forçadas que atravessam mais de dois mil anos.
Poucos povos descobriram tantas vezes que aquilo que chamavam de lar era apenas um empréstimo da história.
Talvez por isso a memória ocupe um lugar tão central na experiência judaica. Quando se perde repetidamente a segurança da geografia, aprende-se a habitar a geografia da lembrança. A memória torna-se uma forma de pátria. Não uma pátria capaz de impedir guerras, expulsões ou perseguições, mas uma pátria suficientemente resistente para sobreviver a elas.
A destruição do templo de Israel, por Francesco Hayez (Gallerie Accademia, Veneza).
A experiência do exílio acompanha a história judaica desde a Antiguidade. Quando Jerusalém foi conquistada pelos babilônios, no século VI antes da era comum, e o Primeiro Templo destruído, uma parte significativa da população foi levada para longe de sua terra. Séculos depois, a destruição do Segundo Templo pelos romanos e a derrota das revoltas judaicas transformariam uma tragédia local em uma diáspora global. Roma não procurou apenas derrotar uma rebelião. Procurou enfraquecer a própria ligação entre um povo e sua terra. Jerusalém foi reconstruída como cidade romana, a Judeia perdeu seu nome original e uma dispersão que duraria séculos ganhou novo impulso.
Seria razoável imaginar que uma sucessão tão longa de derrotas acabasse dissolvendo uma identidade coletiva. A história está repleta de povos que desapareceram após perderem seu território, suas instituições ou sua língua. No entanto, algo incomum aconteceu com os judeus. Eles perderam o Estado, mas preservaram a memória. Perderam a soberania, mas mantiveram a identidade. Foram espalhados por continentes, mas conservaram uma narrativa comum sobre quem eram, de onde vinham e a que tradição pertenciam.
Essa permanência, porém, teve um custo elevado.
Ao longo da Idade Média e do início da era moderna, os judeus viveram em quase toda a Europa, mas raramente em condições de plena segurança. Sua permanência dependia da tolerância de reis, nobres e autoridades religiosas. Em tempos de prosperidade, eram aceitos. Em tempos de crise, tornavam-se suspeitos. Foram acusados de espalhar epidemias, de conspirar contra governantes, de controlar finanças, de ameaçar a religião dominante ou de exercer influência excessiva. As acusações mudavam conforme a época. O acusado permanecia o mesmo.
Foi assim que comunidades inteiras desapareceram da Inglaterra no final do século XIII. O mesmo aconteceu na França. Mais tarde, na Espanha, uma das mais brilhantes civilizações judaicas da história foi destruída pela expulsão de 1492. Em Portugal, poucos anos depois, milhares de pessoas seriam forçadas à conversão ou ao exílio. Em cada geração repetia-se uma cena familiar: famílias abandonando casas, negócios, bibliotecas, sinagogas e cemitérios para recomeçar em algum outro lugar, quase sempre com a esperança de que desta vez encontrariam estabilidade. Raramente encontravam. Ainda assim, recomeçavam.
Talvez um dos aspectos mais extraordinários da história judaica seja justamente essa capacidade de reconstrução. Cada expulsão gerava novas comunidades. Cada dispersão criava novos centros culturais. Cada tentativa de apagamento era seguida por uma reinvenção. A sobrevivência tornou-se não apenas uma necessidade, mas uma característica da própria experiência histórica judaica.
O século XIX trouxe os pogroms da Europa Oriental. Milhões de judeus deixaram o Império Russo e buscaram refúgio principalmente nos Estados Unidos e em outras partes das Américas. Mas o pior ainda estava por vir.
O Holocausto não foi apenas mais um capítulo de perseguição. Foi o mais sombrio deles — uma ruptura moral sem precedentes. Pela primeira vez, um Estado moderno utilizou sua burocracia, sua tecnologia, sua capacidade industrial e sua máquina administrativa para perseguir um objetivo explícito de extermínio. Não se tratava de expulsar os judeus. Não se tratava de convertê-los. Não se tratava sequer de subordiná-los. Tratava-se de eliminá-los.
Seis milhões de seres humanos foram assassinados.
A Europa judaica, que durante séculos fora o principal centro da vida judaica mundial, emergiu da Segunda Guerra Mundial irreconhecível. Comunidades inteiras desapareceram. Famílias foram apagadas da história. Sobreviventes descobriram que não tinham para onde voltar. Suas casas estavam ocupadas. Seus parentes haviam morrido. Suas cidades já não eram as mesmas.
Foi nesse contexto que nasceu o Estado de Israel.
Reduzir sua criação a uma consequência do Holocausto, porém, é ignorar uma história muito mais longa. A ligação do povo judeu com aquela terra antecede em muitos séculos o surgimento do cristianismo e em mais de um milênio o surgimento do islamismo. Jerusalém já era o centro político e espiritual da civilização judaica quando Roma ainda era uma república. A presença judaica na região jamais desapareceu completamente, embora tenha variado em tamanho ao longo dos séculos.
Cidadãos judeus em um campo de concentração nazista, na Segunda Guerra, por serem judeus.
Em 1947, a Assembleia Geral da ONU aprovou um plano de partilha que previa a criação de dois Estados, um judeu e outro árabe, nos territórios então administrados pelo Mandato Britânico. Os líderes judeus aceitaram a proposta. Os líderes árabes a rejeitaram. A guerra começou antes mesmo da independência formal de Israel. Desde então, a região vive um conflito cuja complexidade desafia explicações simples e cujas consequências humanas atingem israelenses e palestinos há gerações.
A criação de Israel tampouco encerrou o ciclo histórico dos deslocamentos judaicos. Entre o final da década de 1940 e os anos 1970, aproximadamente 850 mil judeus deixaram ou foram expulsos dos países árabes e de outras partes do mundo muçulmano. Comunidades que haviam florescido por séculos — e em alguns casos por mais de dois mil anos — desapareceram quase por completo.
Judeus do Iraque, Egito, Iêmen, Líbia, Síria, Marrocos e de outros países abandonaram casas, negócios, escolas, yeshivot, sinagogas, bibliotecas, cemitérios e patrimônios acumulados ao longo de gerações. Muitos chegaram a Israel apenas com aquilo que conseguiam carregar consigo. Outros seguiram para a Europa ou para as Américas. Mais uma vez, uma população judaica precisou reconstruir sua vida longe das terras que durante séculos havia chamado de lar.
Mesmo assim, essa lista está longe de ser completa. A história judaica não é apenas a história de uma expulsão ou de uma diáspora, mas de muitas. Babilônia, Roma, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, partes da Europa Oriental, o mundo árabe e inúmeros outros lugares compõem uma geografia de ausências construída ao longo de mais de dois milênios. Cada geração herdou não apenas uma tradição, mas também a memória de algum lugar deixado para trás.
Nada disso significa que Israel esteja acima de críticas. Nenhum país está. Nenhuma democracia está. Governos erram. Líderes tomam decisões equivocadas. Estratégias podem ser contestadas. Políticas públicas podem e devem ser debatidas. Os próprios israelenses fazem isso com intensidade e frequência.
Seria reconfortante acreditar que a longa história das perseguições pertence ao passado. Que expulsões coletivas, discriminações legais e preconceitos sistemáticos são relíquias de uma humanidade menos esclarecida.
Mas a história raramente desaparece.
Com mais frequência, ela muda de linguagem.
Os símbolos se transformam. Os slogans se renovam. As justificativas se adaptam ao espírito de cada época. O impulso permanece.
É nesse ponto que se torna essencial preservar uma distinção fundamental. Criticar um governo não é o mesmo que questionar a existência de um país. Discordar de uma política não é o mesmo que negar a um povo o direito à autodeterminação nacional. E responsabilizar judeus espalhados pelo mundo pelas ações de qualquer governo não é uma forma de ativismo político. É uma das expressões mais antigas do antissemitismo.
Essa distinção tornou-se particularmente importante nos últimos anos. O aumento dos ataques contra sinagogas, escolas, centros comunitários, estudantes e instituições judaicas em inúmeros países não pode ser explicado como mera crítica à política externa de Israel. Quando judeus em Paris, Londres, Nova York, Buenos Aires ou Melbourne tornam-se alvo de hostilidade por acontecimentos ocorridos a milhares de quilômetros de distância, já não estamos diante de um debate sobre governos ou fronteiras. Estamos diante da velha ideia de responsabilidade coletiva dos judeus por eventos que ultrapassam qualquer indivíduo.
Quando a hostilidade deixa de ser dirigida a políticas, governos ou decisões específicas e passa a atingir judeus como indivíduos ou comunidades, já não estamos diante de uma crítica política.
Estamos diante do antissemitismo.
Em muitas universidades, movimentos sociais, organizações internacionais e espaços digitais, tornou-se comum ouvir que Israel seria o país mais odiado do mundo ou que quase toda a humanidade condenaria sua existência. As pesquisas mostram uma realidade mais complexa. Há críticas significativas às políticas israelenses e ao comportamento de determinados governos. Mas a questão mais interessante talvez não seja a existência dessas críticas.
A questão é outra.
Por que determinados conflitos mobilizam a consciência moral global de forma tão intensa enquanto tragédias igualmente devastadoras — e muitas vezes muito mais longas e letais — recebem atenção incomparavelmente menor?
Nas últimas décadas, guerras e crises humanitárias no Congo, Sudão, Síria, Iêmen, Somália, Haiti, Ucrânia, Venezuela e outras regiões produziram milhões de mortos, refugiados e deslocados. Algumas devastaram sociedades inteiras durante anos. Outras permanecem praticamente invisíveis para grande parte da opinião pública internacional. Fazer essa pergunta não exige minimizar o sofrimento palestino nem absolver Israel de seus erros. Exige apenas reconhecer que o sofrimento humano não deveria ser hierarquizado segundo critérios políticos, ideológicos ou midiáticos.
O humanismo verdadeiro não escolhe vítimas favoritas. Não mede a dignidade humana pela nacionalidade, pela religião ou pela utilidade política de uma causa. Ele sofre diante de todas as tragédias.
Talvez seja justamente aqui que a história volte a lançar sua sombra sobre o presente.
Ao longo dos séculos, os judeus foram frequentemente transformados em símbolo de problemas muito maiores do que eles próprios. Foram responsabilizados por epidemias, crises econômicas, derrotas militares, transformações sociais e ansiedades coletivas. Mudavam as circunstâncias. Mudava a linguagem. Permanecia a necessidade de encontrar um culpado.
É impossível olhar para essa longa história sem perceber certas continuidades inquietantes.
A questão central deste ensaio não é se um determinado governo israelense merece críticas. Evidentemente merece, como qualquer governo. Tampouco é se os palestinos merecem dignidade, segurança e um futuro. Evidentemente merecem.
Mas existe uma pergunta ainda mais difícil.
Depois de mais de dois mil anos de expulsões, perseguições, massacres, discriminações legais e tentativas de apagamento, por que o único Estado judeu do mundo continua sendo, para tantos, o único cuja própria legitimidade permanece em discussão?
Talvez não exista uma resposta simples.
Mas a própria existência da pergunta deveria nos inquietar.
Afinal, poucos povos passaram tantos séculos descobrindo que aquilo que parecia permanente podia desaparecer de uma geração para a outra. Poucos foram expulsos de tantos lugares, perseguidos sob tantas bandeiras e acusados sob justificativas tão diferentes.
A história do povo judeu não é apenas a história de uma minoria.
É a história de uma advertência.
Ela nos lembra que o preconceito raramente desaparece. Mais frequentemente, ele se adapta. Troca de linguagem, de símbolos e de justificativas, preservando intacta a convicção de que determinados seres humanos precisam explicar por que merecem existir.
E toda vez que uma sociedade chega a esse ponto, aquilo que está em julgamento não é apenas o destino dos perseguidos.
É a própria qualidade moral da civilização.