A esquerda e seus ‘imprintings’

Em 1935, o zoólogo austríaco Konrad Lorenz descreveu o fenômeno do imprinting (ou estampagem), a partir da observação de que filhotes de gansos-cinzentos, logo após a eclosão, passam a seguir o primeiro objeto em movimento que veem, estabelecendo com ele um vínculo de apego duradouro. Lorenz percebeu que os filhotes o acompanhavam como se fosse a própria mãe. A partir disso, concluiu que se tratava de um processo de aprendizagem rápida, ocorrido em um período crítico precoce, marcado por rigidez e irreversibilidade. O imprinting é um conceito fundamental da etologia – o estudo do comportamento animal – que rendeu a Lorenz, em parceria com Nikolaas Tinbergen e Karl von Frisch, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973.

Não existe, em humanos, um imprinting rígido e irreversível nos moldes clássicos descritos para os gansos-cinzentos. Contudo, há processos análogos de vinculação precoce que desempenham papel fundamental no desenvolvimento comportamental. Não é algo capaz de determinar a ideologia, mas prepara o terreno emocional e cognitivo sobre o qual a ideologia será construída mais tarde.

Apuração recentíssima do Diário do Poder dá conta de que petistas mais moderados teriam recomendado ao presidente Lula reavaliar os conselhos em matéria de política externa que lhe são dados pelo assessor especial Celso Amorim.

O problema é que, para que consigam fazer Lula mudar de opinião, as nossas esquerdas precisam antes aprender a compreender os seus imprintings. Imprintings que estabelecem um fosso intransponível para a abertura de um diálogo franco com os evangélicos, por exemplo. Em suma, imprintings que podem custar caro para o projeto eleitoral de Lula.

Celso Amorim, embora tenha em alguma medida incorporado a visão pragmática da Política Externa Independente de Jânio Quadros e Jango Goulart (e mais tarde de Ernesto Geisel, com o seu Pragmatismo Ecumênico e Responsável), nunca abandonou a retórica antiamericanista dos tempos da juventude – aí se esconde o imprinting –, sendo inegável o papel que desempenhou para trazer a ideologia e o identitarismo militantes para o centro da nossa política externa.

Com o deslocamento gradual do comando da nossa política externa do Itamaraty para o gabinete presidencial, a nossa chancelaria acabou esvaziada e a política externa brasileira, historicamente voltada para a defesa dos direitos humanos e da democracia, passou a ser questionada por parceiros do bloco ocidental, na medida em que fomos nos aproximando – numa mistura confusa de práxis comercial com práxis ideológica – de regimes autoritários.

Não sei se a metamorfose de Lula, que alguns de seus conselheiros querem levar a cabo, vai produzir resultados. Para isso precisariam vencer a barreira dos imprintings do próprio ocupante da cadeira presidencial, num ambiente eleitoral complicado onde, assim como o personagem kafkiano Gregor Samsa, Lula pode ter de conviver com o medo de se tornar invisível e incompreensível.

Desde a megaoperação carioca para debilitar o Comando Vermelho sempre vem à tona a polêmica e infeliz frase de Lula. “Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”, disse o presidente, para júbilo da extrema direita, que contextualizou a frase como se Lula tivesse afirmado que o “cidadão de bem” era o culpado e a vítima era o bandido que “destrói famílias”. Injusta a acusação. Até porque uma parte da imprensa fez um recorte na sua fala e deixou de publicar que logo em seguida Lula ressaltou que “Você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra”, o que traduz com mais exatidão o que o presidente tentou dizer fazendo uso de palavras mal escolhidas.

É certo que o presidente não se expressou bem – ele próprio reconheceu isso –, mas, mais importante do que tratar o episódio dentro de um ambiente de polarização, é investigar as possíveis raízes do resvalar e assim entender o que levou o governo federal a perder o controle da narrativa sobre a segurança pública e relativizar o flagelo das organizações criminosas, inação que foi confessada no momento em que encaminhou ao Legislativo, exatos três dias após a megaoperação do Rio, o Projeto de Lei Antifacção.

Quisera eu ser eu um linguista, afinado com o campo da análise do discurso, para decifrar a construção ideológica que se esconde por trás da frase de Lula. Arrisco-me a dizer, ainda assim, que o presidente pode ter sido traído por um imprinting adquirido nos primórdios de sua formação política. Um imprinting que o dificulta enxergar a questão da segurança pública por uma perspectiva mais pragmática, como a do governo Michel Temer, onde foi decretada a intervenção, com considerável risco político, na segurança pública no Rio de Janeiro, criado o Ministério Extraordinário da Segurança Pública, o Sistema Único de Segurança Pública, a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Nacional, para ressaltar algumas das iniciativas daquele período em que uma visão sistêmica foi dada ao tema.

Durante a Guerra Fria, parte das esquerdas latino-americanas via o modelo abraçado pela elite brasileira como uma cópia daquele que vigorava nos Estados Unidos, o império que seria responsável pelo subdesenvolvimento da região. Nesse ambiente, a cocaína e outras drogas foram, em certos discursos, interpretadas como uma forma de devolver ao império seus próprios vícios e decadência moral. A ideia de que os EUA seriam corroídos por dentro através das drogas e pela sociedade de consumo que haviam imposto ao mundo.

Intelectuais e artistas de esquerda, especialmente na contracultura latino-americana dos anos 1970, muitas vezes usaram a cocaína como metáfora política. O pó branco que corrompe o centro do poder.

Poucos livros influenciaram tanto o pensamento da esquerda como “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Ali está escrito que “A América Latina é uma região de veias abertas, de onde fluem ouro e prata, café e açúcar, carne e fruta, petróleo e ferro – para alimentar as metrópoles distantes”. Mais tarde o próprio Galeano, em uma entrevista, tratou de ampliar essa sua visão da nossa dependência esclarecendo que “As veias continuam abertas, e o sangue ainda corre – agora sob a forma de dívida externa, de cocaína e de exportação de corpos”.

O expoente máximo do realismo mágico – e ícone da esquerda – Gabriel García Márquez escreveu e falou que a cocaína não nasce em Miami. Nasce na Colômbia, mas a demanda que a torna um monstro é a do Norte. Para ele, o drama colombiano é que não dá para imaginar o fim do narcotráfico enquanto houver demanda e consumo no exterior.

Por falar na Colômbia, lembremo-nos que o seu presidente de esquerda disse recentemente, na Assembleia Geral da ONU, que as vítimas da guerra às drogas lançada pelos Estados Unidos na costa norte sul-americana não eram traficantes, mas “jovens pobres da América Latina que não tinham outra opção”. Desarmados, segundo Gustavo Petro.

Estou convencido de que Lula não quis atribuir ao traficante a condição de vítima, nos moldes da leitura que alguns fizeram. Mas, também estou convencido de que certos conceitos que ficaram impressos em sua mente durante a sua formação política primeva contribuíram para esse deslize.

Quando Lula, numa mesma entrevista coletiva, misturou as suas frases de improviso com a condenação explícita às recentes ações norte-americanas no Caribe e no Pacífico, parece mais evidente essa constatação de que pode ter ficado carimbada no seu cérebro a ideia simplista de que todos nós – incluindo os jovens nem sempre pobres, sem opção e desarmados a que o olhar reducionista de Petro se refere – somos de alguma forma vítimas de uma poderosa máquina opressora imperialista.

Talvez por carregar essa estampa Lula disse o que disse. E ainda continue ouvindo Celso Amorim.

Fernando Tibúrcio foi Secretário da Casa Civil de Goiás. É advogado e defensor de perseguidos políticos.
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