A Copa está aí. A primeira a gente nunca esquece

Tenho um sentimento indefinível em relação à Copa do Mundo de Futebol.
Não chega a ser como o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, que, durante as Copas, costumava colocar uma placa na porta de casa com os dizeres: “Fechado por motivo de futebol”. Ele se definia como um “mendigo do futebol”, sempre à procura de uma bela jogada e de histórias poéticas para contar.
O fato é que hoje acordei com o coração aos pulos. Uma velha companheira, a taquicardia, veio ter comigo, tirar-me do sossego de um sábado de céu azul.
Fui à rua comprar víveres (!) e topei com aquela atmosfera ruidosa de dia de jogo da Copa. Bares cheios de gente vestido de corpo e alma de amarelo. A caminha de volta pra casa, sentei na única mesa vaga e pedi um chopp. E fiquei observando aquela gente, como eu, palpitante de emoção pelo que viria horas depois.
Em suma, é dia de jogo da Copa do Mundo,
Na Copa de 1950, eu ainda não era, digamos, gente. Só mais tarde vim a saber do Maracazo.
Menino do garimpo, eu aprendi a dar os primeiros chutes nas bolas feitas de bexiga de porco. Em dia de matança do pobre animal, meu paiseparava a bexiga e soprava até o órgão suíno se converter em algo semelhante a uma esfera. E fazia grandes linguiças. Depois fritava as carnes e as armazenava em latões de banha.
E a molecada saia distribuindo alegres pontapés pelo terreno áspero da rua em frente de casa.
Mais adiante, surgiram as bolas feitas de mangaba, uma espécie de seringueira, que os sertanejos usam para fazer capas impermeáveis.
E aí a família veio morar na Capital. Primeiro em Bonsucesso, depois Niterói, na Vila Pereira Carneiro e, então, no número 30 da rua Visconde do Uruguai, na região da Ponta da Areia.
Ali morava eu, em 1954, quando ocorreu a Copa da Suíça. Ali comecou em mim a paixão pela seleção, que estreava nessa competição a camisa amarela.
Por ali havia um estadiozinho de futebol, sede do Vianense Futebol Clube, onde cheguei a jogar no time do infanto-juvenil.
Eu até achava que jogava bola como ninguém quando criança. Mas só de noite, enquanto dormia. E sonhava. Mas também de dia não era o pior perna de pau.
Era lá, no Campo do Vianense, que eu ia ouvir no rádio os jogos do Brasil. 5×0 no México e 1×1 com a Iugoslávia O terceiro jogo, já nas quartas-de-final, ficou conhecido como a “Batalha de Berna”, o jogo contra Hungria de Puskas, que na época encantava o mundo bola. A partida terminou em 4 a 2 para os húngaros, mas a eliminação ficou em segundo plano devido a uma o pancadaria generalizada em campo entre jogadores das duas equipes, que continuou nos vestiários.
Na final da Copa, a lendária Hungria foi surpreendentemente derrotada pela Alemanha Ocidental por 3×2. Há que recordar que na “fase de grupos” a Hungria, alem de estar invicta havia 32 jogos, venceu a Alemanha Ocidental na primeira fase por 8 a 3.
Seja como for, o popular ‘Campo do Vianense’ ficava próximo ao Estaleiro Guababara, na Rua Santa Clara, ali no Bairro Ponta da Areia, em Niterói.
A partir de 1950 o bravo Vianense passou a disputar o novo Campeonato Niteroiense da Segunda Categoria.
O clube ajudou e inspirou no surgimento de craques, como Milton Copolilo (Flamengo), Jair Marinho (Fluminense) que deram os seus primeiros passos no Vianense. Ali também surgiu os irmãos Lemos: Cesar Maluco, Luizinho Tombo e Caio Cambalhota.
Anos depois, o Campo do Vianense sofreria uma transformação: da grama ao concreto, com a acelerada urbanização do bairro.

Em algum momento, li que, por volta de 1980, uma Cooperativa da Cidade acabou comprado o ‘Campo do Vianense’ para construir um conjunto habitacional no local.   Nas minhas pesquisas, soube que o ultimo evento no ‘Campo do Vianense’ aconteceu no sábado, do dia 29 de agosto de 1981, quando ocorreu o Torneio Início dos Bancários de Niterói.
Depois minha família mudou-se para a Avenida Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, e nunca mais ouvi falar do Vianense.
Lá conheci o São Domingos, onde jogava o Gerson Canhotinha.
Anos depois, o rapaz que, um dia, sonhou em ser jogador de futebol, meteu os pés pelas mãos. Trocou a chuteira pela pena e, depois, pelo teclado.
Ainda bem.

Dante Coelho de Lima é diplomata.
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