Redes da Meta facilitam golpes, conclui estudo da UFRJ
Anúncios maliciosos são impulsionados por ferramentas do Facebook, Instagram e WhatsApp

O Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicou na quarta-feira (5) os resultados de seu estudo que indicam que as plataformas da Meta estão sendo vistas por golpistas como campo fértil para praticarem fraudes. A presença de anúncios maliciosos nas redes sociais Facebook, Instagram e WhatsApp tiveram uso intenso de fraudes envolvendo o uso do Pix, até com guias fraudulentos para “driblar a taxação”.
O estudo fez um amplo monitoramento das redes entre 10 e 21 de janeiro deste ano, mesmo período da intensa repercussão do ato da Receita Federal que fixou a obrigatoriedade de operadoras de cartões de crédito e instituições de pagamento informarem sobre operações financeiras acima de R$ 5 mil dos brasileiros. E identificou que a onda de notícias falsas sobre taxação de transações por Pix deu margem a golpes envolvendo a decisão da qual o governo federal recuou, em 15 de janeiro, alegando frear a desinformação.
O NetLab identificou 151 anunciantes que compartilharam 1.770 anúncios com conteúdo malicioso. E mapeou 87 sites fraudulentos para os quais os usuários eram redirecionados. E indicou que os anúncios fraudulentos, nas plataformas da Meta, cresceram 35% após o recuo do governo.
E indica que a falta de transparência no tratamento dos dados pessoais, com descontrole e insegurança contra a publicidade enganosa, favorecem crimes digitais no Facebook, no Instagram e no WhatsApp, segundo o NetLab.
Descontrole favorece golpistas
Publicidades golpistas simularam páginas de instituições públicas e privadas, sendo 40,5% deles veiculados por anunciantes que se passavam pelo governo federal, explorando a desinformação em torno das políticas públicas de inclusão financeira, muitas delas não existentes como “Resgata Brasil, Benefício Cidadão, Brasil Beneficiado e Compensação da Virada”.
O estudo da UFRJ concluiu que o fato de páginas fraudulentas terem obtido a permissão para veicular anúncios em nome do governo evidencia as fragilidades dos processos de verificação de anunciantes da Meta. Tais publicidades ofereciam serviços para identificar supostos valores a receber pelos usuários, ou anunciavam falsos resgates de dinheiro de benefício forjado. Depois convenciam as vítimas a pagar taxas antecipadas para ter acesso a estes recursos.
Os pesquisadores concluíram que fraudes tem tido alcance maximizado pelas ferramentas de marketing oferecidas pela Meta, para impulsionamento de anúncios maliciosos e seu direcionamento para públicos segmentados por critérios demográficos, geográficos e interesses dos usuários. O que dá aos golpistas a capacidade de atingir as vítimas ideais.
“Há no país uma vasta população ávida por oportunidades de ascensão social, que precisa de suporte e políticas públicas do Estado para mudar de vida, o que faz com que os mais necessitados se tornem um alvo prioritário de golpes online“, registra o estudo.
A Meta defendeu-se afirmando que anúncios que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidos em suas plataformas. “Estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra os Padrões da Comunidade do Facebook, as Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta através dos próprios aplicativos”, diz a nota da companhia enviada à Agência Brasil.
Deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados).
IA em 70,3% dos anúncios golpistas e Nikolas foi alvo central
O estudo do NetLab revelou que ferramentas de inteligência artificial foram usadas em 70,3% do total de 1.244 dos anúncios fraudulentos. Incluindo vídeos enquadrados como deepfakes, largamente usados para manipular a imagem do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), protagonista da campanha contra a ampliação da fiscalização de transações do Pix acima de R$ 5 mil. Foram 561 anúncios falsos usando a imagem do parlamentar, 70% destes publicados após o recuo do governo de Lula (PT).
Exemplo da manipulação identificada pelo NetLab usa o vídeo em que Nikolas celebrava a revogação das novas regras e tranquilizava o trabalhador brasileiro para “usar o Pix sem a lupa do governo”. Mas o trecho final do vídeo modificada simulava o parlamentar lançando uma medida para garantir reembolso parcial de gastos realizados com cartão de crédito nos últimos meses.
Foco das falsificações de sua imagem, o deputado Nikolas Ferreira não foi o único agente público explorado nos anúncios fraudulentos. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também aparece em diferentes vídeos adulterados. Entre outros alvos estão o presidente Lula (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), dos deputados Eduardo Bolsonaro (PL) e Fred Linhares (Republicanos) e até o jornalista William Bonner. (Com ABr)