Pedro Rogério Moreira

Cláudio Humberto

25/04/2019

Júlio e Jair

Pedro Rogério Moreira

Júlio e Jair

Há um abismo de dessemelhanças entre o Divino Júlio e o Jair incensado pelas urnas no ano passado. Plutarco, o biógrafo de Vidas paralelas, levantaria do túmulo se alguém intentasse o estapafúrdio paralelo. Inda mais este redator que acaba de relê-lo no outono da vida. Inexiste o paralelo, a começar pela carreira militar brilhante de um e a obscura do outro. Graças a Deus obscura, pois a do general Caio Júlio César foi construída nas formidáveis conquistas pelas armas, e como o Brasil não cultiva o imperialismo em sua política externa, o capitão Jair não pegou no fuzil. Muito embora haja hoje no círculo íntimo de nosso primeiro cidadão quem louve o imperialismo na pessoa de Trump e de outros príncipes menos votados. Como a leitura tem o condão de mexer com os nossos neurônios, vou meter a colher de pau no que li. Se inexistem paralelos entre Júlio e Jair, há aproximações, se assim Plutarco e o leitor permitirem. O atentado, por exemplo. De novo graças a Deus, a única facada contra o cidadão Jair, dada pelo sicário em Juiz de Fora, não obteve êxito. No crime de lesa-majestade contra o Divino Júlio os deuses do Capitólio não o acudiram como fizeram prontamente os heróis cirurgiões da Santa Casa de Misericórdia da cidade mineira ao candidato que viria a ser incensado pelo voto da maioria do eleitorado brasileiro. Contra o Divino Júlio foram desfechadas 23 punhaladas, segundo atestou o IML de Roma em laudo assinado pelo criterioso médico Antístio, que apontou até mesmo qual delas foi a fatal. Os assassinos ou quase todos eles, no correr dos tempos, ou foram mortos ou submetidos ao honroso suicídio, enquanto o sicário de Juiz de Fora e os eventuais mandantes continuam a gozar a vida sob o Estado de Direito. Incluso os defensores do sicário, que são incapazes de dizer de onde provêm as moedas para pagar as custas e honorários. E a OAB nem se mexe. A propósito, numa ocasião em que o então cônsul Júlio César cortejava excessivamente o populacho, proibiu aos advogados de cobrar honorários, tamanha a usura deles, registra outro biógrafo, Suetônio. Errou feio o César, mas o Senado corrigiu a demagogia posteriormente: só o escravo trabalhava de graça. Mas impôs limite aos honorários advocatícios, coisa difícil de acontecer hoje em qualquer República do mundo. O Incensado Jair, graças a Deus salvo do monstruoso crime, faz caminho inverso ao percorrido pelo Divino Júlio em sua grandiosa carreira política. Ele integrava o partido dos aristocratas antes de chegar ao poder supremo e, nele instalado após ser aclamado no Comício e diplomado legalmente ditador pelo Senado, aderiu ao partido popular. O Incensado Jair, nos comícios, encarnava a ânsia popular, mas está se deixando levar pela aristocracia financeira encarnada na figura do cônsul Guedes que com Jair divide o poder. A ganância é tanta que até mesmo as loterias, a cornucópia da Caixa Econômica que dá um lucro extraordinário além de acudir as crianças excepcionais, a cultura, o esporte, a saúde do povo em geral e outras boas iniciativas, o cônsul Guedes quer dá-la à iniciativa privada. Urge um tribuno da plebe para conter a insensatez do cônsul. O Divino Júlio, no partido popular, promoveu reforma agrária para conceder terras aos veteranos das guerras, aumentou o Bolsa Família (como o Incensado Jair planeja e faz bem) em vigor desde há muito em Roma, aduzindo mais quilos na distribuição mensal do trigo a cada pobretão da cidade. E fez até, como agora desejam todos os brasileiros sensatos, uma reforma previdenciária na República romana. Mas a do Divino Júlio era demagógica e iria arrombar o Tesouro: ele reduziu de 30 anos para 20 anos a duração do serviço militar para o veterano ganhar o direito à aposentadoria. Os senadores de toga branca corrigiram posteriormente a insensatez do primeiro cidadão, e fixou a aposentadoria nos 25 anos de serviço. Ainda bem que o Incensado Jair não foi tentado, até agora, à demagogia do Divino Júlio. Mas é preciso tomar cuidado com essa gente que hoje enverga terno e gravata azuis e deambula no Senado moderno que é o Congresso. Cuidado especialmente com as matronas que ali ganham espaço escondendo o lenço vermelho da demagogia para acenar com mentiras aos nossos veteranos, soldados e civis, pois ambas as classes combatem a carestia, a doença e a fome como na Roma do Divino Júlio e são presas fáceis da palavra falsamente dourada. Uma outra aproximação, acaso permitam Plutarco e a paciência do leitor, é o jeito trivial do Divino Júlio e do Incensado Jair. Ambos são frugais na vida privada e em público também. Júlio era magro e ereto, como Jair. Este ganhava daquele nas melenas: Júlio era calvo e o déficit capilar o incomodava – uma das raras vaidades que os historiadores registram. A outra vaidade, legítima, era desejar ser um novo e superior Alexandre Magno. Não conhecemos a vaidade do Incensado Jair. Sabemos, porém, que ele tem sido estimulado pelo histrião Ernesto a ser um Trump dos trópicos. Praza aos deuses que o primeiro cidadão do Brasil rejeite tal oferta. Talvez a vaidade do Incensado Jair seja a de aparecer demais no Twitter escrevendo irrelevâncias, por desconhecimento da relevância da suprema magistratura que ocupa legitimamente. A comunicação com o eleitorado foi sempre proveitosa politicamente, tanto que Júlio César, num dos seus consulados, criou o primeiro diário oficial do planeta, o Acta Diurna, que publicava na tábua de madeira não só o que rolava no Senado, mas também as fofocas da sociedade difundidas no Forum, o shopping center de Roma. Claro, desde que a fake news interessasse ao titular do poder. Trabalho árduo, o dos gravadores, pois tiravam-se muitas cópias das edições para enviá-las a todas as províncias do vasto Império. Cícero conta que o general Júlio aguardava ansiosamente a chegada do correio na Gália e lia com gosto o Acta Diurna. Qual político não gosta de uma fofoca contra os adversários? O Incensado Jair tanto gosta que replica no Twitter, imitando o seu êmulo nos Estados Unidos. Ambos, Júlio e Jair, são comedidos na alimentação e na ostentação. É de sua lavra como cônsul uma lei que punia o luxo exagerado. Júlio pouco bebia, mas não era por questão religiosa, como acontece ao evangélico Jair nunca visto bebendo uma brama da antártica. Aliás, Júlio não pode ser chamado de homem religioso. Embora tenha exercido o cargo de pontífice máximo, presidia os rituais aos deuses apenas para cumprir a liturgia daquela disputada magistratura. Nisto era imbatível: na dignidade do cargo. Até na hora da morte. Conta-se que, ao cair no chão com a primeira punhalada, suas pernas ficaram de fora e ele cobriu-as com a toga ensopada de sangue enquanto era ferido por mais estocadas. Não pegava bem ao primeiro cidadão romano ser flagrado com as pernas de fora, mesmo na hora final. O Incensado Jair não está nem aí para essas minúcias tão relevantes no homem público: deixa-se fotografar no palácio de sandálias havaianas e de camiseta de time de futebol com anúncio do patrocinador. OK, o Divino Júlio comia pastel no Forum e o Incensando Jair se identifica com o povão que pratica essas singelas ações do cotidiano. Mas vamos combinar que o Incensado Jair está necessitado urgentemente de um preceptor que lhe ensine os rigores litúrgicos que devem emoldurar a figura pública do primeiro cidadão, como faltou ao Divino Júlio ouvir o conselho do amigo Marco Antônio para não dar sopa no Senado despreparado da roupagem apropriada a um alvo vulnerável, como se encontrava ele no fatídico dia. O Incensado Jair se assemelha ao Divino Júlio na homofobia, a despeito do que disseram os seus detratores. Mentia-se muito, como hoje, nos ofícios da política, da imprensa do Acta Noturna e do tribunato, ainda mais naquele tempo em que o Senado, na condição de tribunal, era generoso em acolher delações premiadas. Júlio César mesmo teve de se defender de algumas delações oferecidas por credores, pois ficara matando cachorro a grito por haver distribuído dinheiro aos eleitores, de forma acintosa, mas do seu próprio bolso (ganho legalmente nas conquistas), e isto era crime capitulado em lei. Como se vê, não há nada de novo na justiça eleitoral. Pau em quem compra voto. Voltemos à homofobia tão do agrado do Incensado Jair. Embora exista o relato calunioso, evidentemente de opositores, como Cícero, de uma suposta ocorrência homoafetiva na juventude de Júlio com um rei estrangeiro (parece até que já existia a internet), ele era macho alfa, tendo se casado três vezes e desfrutado de três amantes, uma delas tão bela quanto Elizabeth Taylor, segundo Hollywood, a Cleópatra. Júlio censurava o desvio do homem nesta matéria. Certa vez, a bordo de um navio no Mediterrâneo a caminho da Espanha, o general em comando deu uma enquadrada num oficial que olhava insistentemente para um belo soldado júnior. Só não despediu o flertador, com desonra, porque este era bom em combate, num tempo em que valia mais a outra espada, a de ferro, do que a opção sexual. Nosso Incensado Jair foi visto saindo do quartel em que gozava o merecido descanso para ir comer pizza na esquina. Em Davos saiu sozinho para tomar o café da manhã. E no Rio costuma beber água de coco no quiosque da praia. Já o vimos comendo churrasco com seus seguranças. É o seu tipo amigão. Também o general Júlio César preferia tomar suas refeições junto à tropa do que em sua tenda de comandante. Até mesmo nos quartéis de inverno da friorenta Germânia ele agia assim. Uma vez cedeu sua cama a um centurião ferido e foi dormir na relva sob as estrelas. Um poeta fardado. Isto é a tradução da boa camaradagem, fundamento essencial na formação de um exército profissional, presente no coração generoso do ex-capitão Jair. Na campanha da Gália, o general Júlio César fazia longas caminhadas a pé, junto à infantaria, em vez de montar no cavalo. Já Divino Júlio, ditador pela vontade do povo, frequentava o Forum no meio dos eleitores e dos libertos. E teve o desplante de abolir, para se igualar aos cidadãos comuns, o aparato ruidoso de seus lectores (os modernos batedores de motocicletas); depois dispensou sua segurança pessoal (soldados espanhóis provados na valentia), e, finalmente, para se igualar mais ainda ao povão, guardou no armário o seu colete de couro à prova de facadas escondido sob a toga. Ele estava assim, desprotegido como notou Marco Antônio, no triste dia das calendas de março em que morreu um dos maiores políticos de todos os tempos. Era completo: guerreiro, advogado, escritor, orador parlamentar, estadista. Fluente no inglês da época, o grego, e em outras línguas mediterrâneas e asiáticas. Não é lícito pedir tantos dons ao Incensado Jair ou a qualquer outro primeiro cidadão de qualquer país do mundo. O que vale é o escrito: o voto. E este ninguém tira do nosso primeiro cidadão. Por esses dias, basta ele tomar alguns cuidados, o primeiro deles com o seu Cícero. Este não tem nome latino, mas bárbaro: Olavo, o Olaf das nações nórdicas, aliadas aos germânicos sempre traiçoeiros com o general Júlio. E nem filósofo o Olaf é; dizem ser astrólogo, arúspice, como eram chamados pelos romanos. O Divino Júlio desprezava as superstições e zombava dos meteorologistas de infortúnios, embora um tal de Espurina tenha acertado naquilo que previu. Ora, nas tragédias sempre aparece alguém nas redes sociais para dizer: “Eu num falei?” O notável romano Cícero foi conselheiro do Divino Júlio por um bom tempo, até César trocar o partido dos aristocratas pelo partido do povo. Cícero formou ao lado dos conspiradores. Não há registro de que tenha sido um dos 23 facadistas, mas estava na cena do crime e a apuração dos fatos realizada pelo Moro da época o incrimina perante a História como traidor. O sucessor do Divino Caio Júlio César, seu filho adotivo Otávio César, obrigou Cícero a se matar. E fez outra besteira formidável: emprenhou-se no ouvido pelo que dizia seu principal assessor, e decretou guerra ao fiel aliado do Divino Júlio, o cônsul Marco Antônio de enorme prestígio popular e também saudado pelo partido aristocrático. O excelente arquiteto e péssimo assessor Agripa agia como o arúspice Olavo de Carvalho está agindo com o Incensado Jair, emprenhando-o contra o pró-cônsul Mourão tido e havido como leal à República. Não há nada de novo sob o sol. Dizem que o filho de Júlio, o enganado Otávio César, chorou ao ver morto o amigo do pai, mas era tarde. O bobalhão do garoto só muitos anos depois, com a vivência dos desfavores do poder, se tornaria Augusto e mereceu juntar o eloquente epíteto ao honrado nome da família Júlia. É preciso, pois, ao primeiro cidadão de qualquer República, acautelar-se com os falsos filósofos, e também com os filhos imaturos. É o que ensina a história contada por Plutarco. Pedro Rogério Moreira é jornalista.
25/04/2019

Salvando o Planeta

Eurico Borba

Salvando o Planeta

“Devíamos estar em pânico. E quando digo pânico, não quero dizer sair correndo e gritando. Quero dizer que precisamos sair da zona de conforto.” Palavras de uma menina sueca – Greta Thunberg – de 16 anos de idade, inteligente, articulada, simples (não usa piercings ou tatuagens, os cabelos são normais arrumados com duas tranças), expõe o que pensa com uma bela fluência em inglês. Desde o final de 2018 faz greve na sua escola, todas as sextas feiras, postando-se na frente do Parlamento Sueco pedindo ações concretas dos políticos para “resolverem a crise ambiental e o aquecimento da atmosfera”. Seu protesto espalhou-se por todo norte europeu com milhares de jovens participando – “Fridays for Future”. Referindo-se às gerações mais velhas, Greta diz com todas as letras: “vocês nos traíram, nada fazendo para salvar o planeta. Ouçam os cientistas. Nós jovens assumiremos a causa”. Greta já falou no Parlamento Europeu, no Parlamento Inglês, no Fórum de Davos e foi indicada, formalmente, para o Prêmio Nobel da Paz de 2019 – é o atual sucesso da imprensa europeia. A mídia brasileira não toca no assunto nem na ação da menina sueca, fica apenas prestando atenção para as nossas mediocridades, vulgaridades, banditismos e corrupções, se esquecendo de que o nosso mundo está morrendo. Vamos nós, a geração de velhos, nos juntar aos adolescentes e ir para as ruas exigir o encaminhamento de soluções para a crise ambiental, para o aquecimento da atmosfera. Estaremos lutando pela VIDA de nossos descendentes, os nossos netos. Eurico de Andrade Neves Borba, escritor, 78, ex professor e Vice Reitor da PUC RIO, ex Presidente do IBGE, mora em Caxias do Sul, RS.
25/04/2019

Mudanças no Planalto fortalecem Santos Cruz

Mudanças no Planalto fortalecem Santos Cruz

O desempenho do ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz (Governo) no suporte à articulação política e as críticas a Onyx Lorenzoni (Casa Civil) motivaram estudos internos para alterar ou “modernizar” os ministérios que funcionam no Palácio do Planalto. A intenção inicial seria apenas promover um troca-troca, com Santos Cruz assumindo a Casa Civil e Lorenzoni a Secretaria de Governo, mas isso empacou. O fato é que, concluída a reforma, o general Santos Cruz será fortalecido.
25/04/2019

Dilema nº 1

Dilema nº 1

Deslocando Santos Cruz para a Casa Civil, o governo ganharia em eficiência, mas poderia enfraquecer seu trabalho de articulação.