Mais Lidas

“Apenas um office boy”

Youssef passou nomes para Careca falar em depoimento

Agente da PF relatou que delegado da força tarefa orientou-o a falar com doleiro, seu vizinho de cela

acessibilidade:

O agente da Polícia Federal Jayme Alves de Oliveira Filho, vulgo Jayme Careca, disse à Justiça Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, que era “apenas um office boy” do doleiro Alberto Youssef, personagem central da investigação sobre desvios e corrupção na Petrobrás. Em depoimento nesta segunda feira, 4, ele não citou nome de nenhum político e afirmou que não sabia a identidade das pessoas a quem entregava “pacotes” a mando de Youssef.

Em seu primeiro depoimento, Jayme Careca afirmou ter entregue R$ 1 milhão ao senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) a pedido de Youssef. O agente contou ainda ter entregue dinheiro em uma casa no Rio que teria sido destinado para ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Tabela apreendida pela Polícia Federal em um escritório de Youssef indica que o policial federal fez ao menos 31 entregas de dinheiro vivo entre 2011 e 2012. O valor distribuído chegou a R$ 16,9 milhões.

Revelou que o doleiro lhe passou nomes e endereços que deveria citar em seu depoimento à força-tarefa da Lava Jato. Jayme Careca contou que o delegado da PF Márcio Anselmo, da força-tarefa, lhe disse que se não prestasse nenhuma colaboração “ia ficar preso até o dia da audiência”.

“Eu estava transtornado, não estava legal”, afirmou o policial.

Segundo ele, o delegado da PF orientou-o a falar com o doleiro na Custódia. Os dois, Jayme Careca e Youssef, estavam presos na Custódia da PF em Curitiba, vizinhos de cela.

“Vai que o Alberto (Youssef) vai lhe ajudar a fornecer os nomes, (o delegado) me forneceu uma carga de caneta e um pedaço de papel. Voltei prá carceragem, no dia seguinte eu ia ser ouvido e assim eu fiz. Fiquei lá, minha cela era ao lado da dele (Youssef), falou endereço tal era fulano, beltrano e tal e eu fui anotando mecanicamente, era tanto, não era tanto, era x. E fui embora. Apresentei. No dia seguinte era o meu depoimento, mas não teve o depoimento. Ele (delegado) falou que ia falar com o procurador. Ele disse que se eu fornecesse alguns nomes eu podia ser beneficiado, podia ser ajudado de alguma maneira, que a intenção não era prejudicar porque sabiam que minha atuação ali era de office boy, enfim, e foi isso que eu fiz. Só fui ouvido na terceira vez, apresentei os nomes que me forneceram, os valores, e passei adiante aquilo. Voltei umas 3 ou 4 vezes descendo a carceragem, só isso, volta lá, pega mais alguma coisa, mais alguns dados mais relevantes. Voltei lá, apresentei o que tinha que apresentar ao delegado que me ouviu. O procurador parece que não quis me ouvir, achou que aquilo não tinha nenhuma novidade ali. Voltei para a carceragem. Na hora de formular o depoimento constavam alguns nomes que não podiam constar, parece que ia ter conflito.”

O policial é acusado de ser “entregador de malas de dinheiro” a políticos por ordem do doleiro. Ele teria realizado pelo menos 31 entregas em espécie. Na contabilidade do doleiro, chamada “Transcareca”, há indicativos de que ele entregou R$ 13 milhões, além de US$ 900 mil e mais 365 mil euros.

Evasivo, Jayme Careca esquivou-se da maioria das indagações que lhe foram feitas pelo juiz Sérgio Moro na audiência realizada na segunda feira, 4. Confrontado com o depoimento que ele próprio fez na Polícia Federal, ocasião em que admitiu ter feito entregas de valores, o policial disse que quando ainda estava preso na carceragem da PF, em Curitiba, o doleiro orientou-o a citar nomes e endereços. Perante o juiz ele afirmou que “não sabia” que havia dinheiro nos pacotes que entregava. Youssef pagava a Jayme Careca entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil por serviço.

“Eu era um office boy, nada além disso. Ele (Youssef) fazia isso para me ajudar, era um bico, única coisa fora do meu trabalho para poder ajudar a minha renda.”

O juiz insistiu no detalhe de que na PF Jayme Careca contou que sabia que transportava dinheiro. “Eu estava transtornado, não estava legal quando fui preso. Aí me deram uma caneta e um papel, fui anotando mecanicamente alguns dados. Apresentei o que tinha que apresentar ao delegado. O compromisso que firmei com a polícia foi de citar 3 endereços de 3 políticos. Aí fui solto. Fui para o médico, psicologicamente fiquei mal. Depois que me curei fui confirmar os endereços. Só podia falar o que era, o que não era não posso inventar. Minha vida sempre foi assim.”

Jayme Careca disse que prestou serviços para o doleiro entre 2010 e 2013. Questionado se foi a algum escritório ou na sede das empreiteiras OAS e UTC Engenharia – suspeitas de formarem cartel na Petrobrás -, ele respondeu. “Se é o que está escrito aí (no depoimento à PF), excelência, então é isso.”

O policial disse que na carceragem da PF encontrou-se com Youssef “duas u três vezes” e o doleiro o orientou a dizer que esteve “naqueles endereços”. O juiz Sérgio Moro ficou intrigado com a versão de Jayme Careca, principalmente quando o agente da PF insistiu em dizer que não sabia o que havia nos pacotes que entregava. “Ele (Youssef) entregava, se era dinheiro que tinha no pacote não sei informar.”

O juiz prosseguiu. “O sr. não tinha os nomes das pessoas para quem entregava?” “Eu não tinha, ia ficar anotando no meu caderninho?”, respondeu o policial. “Eu não estava investigando nada, minha função era de office boy.”

“E se tivesse drogas no pacote?”, insistiu o juiz.

“Até onde eu sei, excelência, o sr. Youssef não é traficante. Se eu suspeitasse de alguma coisa não passava nem perto dele.”

O policial disse que conhece e entregou valores para Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como lobista do PMDB na Petrobrás.

“Eu era amigo dele. Entreguei pacote para o sr. Fernando Baiano.” (AE)

Vídeos Relacionados