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Resgate em La Paz

Sumiço de aspone Garcia reforça suspeitas sobre seu desgaste com Dilma

É improvável que o "chanceler" para temas bolivarianos de nada soubesse

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A omissão de Marco Aurélio “Top-Top” Garcia, no caso da fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina, reforçou as suspeitas no Palácio do Planalto e no Itamaraty de sua eventual participação na operação de fuga, na medida em que nada acontece em relação à ala “bolivariana” de países da América do Sul sem passar por ele. Top-Top Garcia é uma espécie de “chanceler da Alba” (sigla de “Alternativa Bolivariana para as Américas”, delírio do falecido semi-ditador Hugo Chávez, que reuniu a Venezuela e republiquetas sob sua influência como Bolívia, Honduras e Nicarágua).
Além disso, o diplomata Marcel Biato era seu assessor e foi por ele indicado para o cargo de embaixador na Bolívia. Afastado do cargo por pressão do presidente cocaleiro Evo Morales, foi punido nesta terça-feira pela presidenta Dilma Rousseff, que retirou a indicação dele para a embaixada em Estocolmo (Suécia). Ela foi convencida de que Biato participou da decisão que deflagrou a operação de fuga do senador boliviano, pilotada pelo seu braço direito, o ministro conselheiro Eduardo Saboia. Mas um funcionário do 3º andar do Palácio do Planalto fez uma indagação carregada de significado ao repórter perguntador: “E quem pode garantir que não foi o Marco Aurélio quem entregou todo mundo?”
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Mas o silêncio constrangedor de Marco Aurélio Garcia pode revelar que ele foi tão surpreendido quanto qualquer cidadão, confirmando informações sobre seu afastamento e acentuado desgaste com a presidenta Dilma Rousseff, a quem serve como aspone para assuntos internacionais aleatórios, mas com influência nitidamente menor do que aquela exibida no governo Lula. Um sinal claro desse desgaste seria a retaliação ao embaixador Marcel Biato, que nem sequer se encontra na Bolívia porque já se desligou da embaixada na Bolívia, encontra-se em férias e acompanhando a recuperação de uma filha doente.

Antes, há duas semanas, outro assessor de Top-Top, embaixador Guilherme Patriota, indicado por ele para assumir o cargo de chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio (OMC), em substituição ao embaixador Roberto Azevedo, eleito para a direção-geral desse organismo das Nações Unidas, teve seu nome recusado pela própria presidenta. A recusa de Dilma evidenciou tanto o desprestígio de Top-Top quanto o declínio do ex-chanceler, que a acatou alegremente. Guilherme Patriota acabou forçado a aceitar um cargo secundário, ainda que em Nova York, na Missão do Brasil junto à ONU.
A presidenta Dilma nunca aceitou plenamente a proximidade de Garcia, por quem demonstra um certo asco. Mas o mantém no cargo a amizade com o ex-presidente Lula, que começou por impor sua presença no staff da campanha presidencial de 2010. Sem ter como dizer “não” àquele que inventou sua candidatura, Dilma encontrou uma forma de manter Garcia ocupado e distante: confiou-lhe a elaboração do seu “programa de governo”. A presidenta sempre se divertia, durante a campanha, quando relatava a amigos a manobra para manter “aquele chato” bem distante. Do mesmo modo, não pôde evitar a nomeação do aspone, novamente a pedido de Lula, mas não lhe dá missões relevantes, exceto aquelas que o mantenham bem longe.