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'Pastel', 'Perfume'...

Para PF, Delfim é o 'Professor' na Planilha de propinas da Odebrecht

Operação Buona Fortuna rastreou superpropina para o ex-ministro

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Nas planilhas de propinas da Odebrecht, a Polícia Federal descobriu que ‘Professor’ era a alcunha do poderoso ex-ministro Delfim Netto, do milagre econômico da ditadura militar. As senhas para Delfim na máquina de pagamentos ilícitos da empreiteira eram ‘Pastel’, ‘Diamante’ e ‘Perfume’.

Nesta sexta-feira, 9, a PF fez buscas na residência e no escritório de Delfim, alvo maior da Operação Buona Fortuna, fase 49 da Lava Jato.

O ex-ministro está sob acusação de ter sido contemplado com uma propina de R$ 15 milhões de empreiteiras contratadas para as obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Desse montante, R$ 4,4 milhões já foram rastreados pelos investigadores e bloqueado por ordem do juiz federal Sérgio Moro.

Aos 89 anos – ele completa 90 em 1.º de maio próximo -, Delfim ficou conhecido como o ‘professor’ desde os tempos em que exerceu o cargo de ministro da Fazenda do regime militar, entre 1967 e 1974 – governos Costa e Silva e Médici. Em tempos de exceção que culminou na edição do AI-5, vendeu-se a imagem de um Brasil próspero.

A superpropina para Delfim foi rastreada na Operação Buona Fortuna – o nome da fase 49 da Lava Jato é uma referência a uma das empresas de consultoria do ex-ministro.

A pista para chegar a Delfim foi encontrada no Sistema Drousys, sofisticado programa de computador produzido pelo Setor de Operações Estruturadas – famosa máquina de propinas da Odebrecht.

Os repasses teriam sido realizados para um sobrinho do ex-ministro, Luiz Apolonio Neto, também alvo da Buona Fortuna.

“Os pagamentos realizados pela Odebrecht teriam ocorrido por meio de seu Setor de Operações Estruturadas diretamente a Luiz Appolonio Neto”, assinalou o juiz Sérgio Moro. “O codinome utilizado para se referir a Antonio Delfim Netto nas planilhas e sistemas internos da Odebrecht era ‘Professor’.”

Moro destacou, na decisão que abriu a fase 49 da Lava Jato, que R$ 200 mil ‘teriam sido destinados, inicialmente, a Antonio Delfim Netto, a pedido do então ministro de Minas e Energia Edison Lobão, conforme relato do colaborador Henrique Valadares (da Odebrecht)’.

“Posteriormente, teriam sido ainda destinados a Antonio Delfim Netto, via Luiz Appolonio Neto, R$ 300 mil na gestão de Antonio Carlos Dahia Blando e R$ 720.000,00, em três parcelas de R$ 240.000,00, na gestão de Augusto Roque Dias Fernandes Filho.”

Moro assinalou que ‘há registros no sistema Drousys dos pagamentos havidos’.

“No primeiro caso, parcela de R$ 300 mil, existente registro parcial do pagamento de R$ 63 mil, na data de 31 de julho de 2012, associado ao codinome ‘Professor’ e à senha ‘Pastel'”, registrou o juiz. “No segundo caso, pagamento de R$ 720 mil em três parcelas de R$ 240 mil, ‘existente registro integral dos pagamentos’, associado ao codinome ‘Professor’, e nos valores acima explicitados, 9 de março de 2018, nas datas de 11 de setembro de 2014 (senha ‘Diamante’), 18 de setembro de 2014 (senha ‘Diamante’) e 22 de outubro de 2014 (senha ‘Perfume’)”

O rastreamento mostra que o pagamento efetuado em 22 de outubro de 2014, no valor de R$ 240 mil, foi igualmente registrado em tabela apreendida com Maria Lúcia Tavares Guimarães, ex-funcionária do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht.

Delfim foi ouvido sobre a suspeita de propinas antes da formalização do acordo de delação premiada com os executivos do Grupo Odebrecht e confirmou o recebimento de R$ 240 mil em espécie, via seu sobrinho Luiz Appolonio Neto. Na ocasião, o ex-ministro declarou que o valor seria referente a um ‘serviço de consultoria’ prestado à empreiteira, mas sem contrato formal.

“Tal versão dos fatos, desacompanhada de documentos comprobatórios, foi depois infirmada pelos depoimentos dos colaboradores do Grupo Odebrecht, cujo teor foi ainda respaldado pela planilha apreendida com Maria Lucia Guimarães Tavares e pelas anotações no sistema Drousys”, anotou Moro.

O juiz da Lava Jato ressaltou que o sobrinho de Delfim ‘aparentemente faltou com a verdade ao declarar, após condução coercitiva, que não conhecia o executivo da Odebrecht Antonio Carlos Dahia Blando’.

A análise do conteúdo do celular de Appolonio, apreendido pela PF, apontou que ele possuía o contato telefônico do executivo da empreiteira, e que ambos trocaram mensagens eletrônicas entre si. (AE)

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