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FHC fala sobre impeachment e Temer em entrevista ao Clarín

Para ele, impeachment foi legítimo e Temer chega ao fim do mandato

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O jornal argentino Clarín publicou hoje (26) uma entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a situação política brasileira. FHC estava em visita ao país para encontrar amigos pessoais, mas aproveitou a ida para um encontro com o presidente Mauricio Macri. A explicação foi dada várias vezes a jornalistas que questionaram se ele havia se "antecipado" ao presidente Michel Temer, que visita a Argentina no próximo dia 5 de outubro. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Clarín – Havia realmente razões para o impeachment de Dilma Rousseff?

A Constituição tem um capítulo muito amplo sobre o impeachment, onde se listam as possibilidades. Uma delas é desrespeitar o Congresso com relação ao orçamento. E Dilma fez isso.

Mas todos não fizeram isso, você também?

Não, não. Para começar, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi criad

Qual a sua opinião sobre o governo Temer? O senhor acredita que para manter a governabilidade, depende do que ocorrerá com a economia?

A economia tem forte influencia sobre o desempenho dos governos. Quando a economia vai bem, os governos mesmo sendo ruins, são mais apreciados. E vice-versa. Mas quem é Temer? O vice-presidente de Dilma.

Quem votou nele? Os que votaram em Dilma. Eu não votei nele. Eu votei pelo outro lado (Aécio). Quando Dilma sai, a base de sustentação popular de Temer fica muito difícil. E os que votaram contra Temer são os que têm que mantê-lo agora. Temer é consequência de uma decisão política, dentro do marco constitucional que indica que o vice-presidente tem que assumir.

Ou seja, não é um governo que tenha um inicio popular forte, mas sim um governo com base congressual forte. E é preciso completar um vazio que é de..

Popularidade.

?Sim, de popularidade. Eu diria que principalmente de liderança e Temer ainda não se impôs como liderança nacional e terá que fazer isso e o tempo é curto.

E os desafios enormes.

?São enormes e o desafio fundamental é a economia porque existem 12 milhoes de desempregados. E acho que Temer deverá explicar ao país que a situação pela qual passamos é consequência de erros políticos e econômicos dos governos Lula e Dilma. A dívida pública brasileira é de cerca de 70% do PIB e a taxa de juros é de 14%. Consequências dos erros do passado.

Mas o PMDB estava com Lula…

?Comigo, com Lula e com Dilma, e com Sarney…

O PMDB é então coresponsável pelo que ocorre.

?O PMDB é o grande partido de governo, de muitos governos. Hoje, o PMDB tem 58 deputados entre 513 deputados na Câmara. O PT 56 e o PSDB 54, 52. Somando os três são cerca de 190. E existem 30 partidos. Esse é um drama institucional do Brasil.

E a bancada evangélica.

?Os evangélicos também. Que não são tão numerosos, mas que têm peso. Mas existe uma fragmentação partidária enorme. A carta magna brasileira deu lugar a isso. Eu era senador (na constituinte). Foi uma espécie de pavor da autocracia (que acabou permitindo a fragmentação). Existe liberdade total para a formação de partidos.

FHC aproveitou para se encontrar com o presidente argentino Mauricio Macri. Foto: PR Argentina

Por que o PMDB que esteve em todos os governos faria algo diferente agora? E Temer que fez parte do governo Dilma…

Mas a verdade é que Temer se afastou do governo Dilma, a partir de determinado momento. O PMDB como outros partidos mudam, de acordo com as circunstâncias. O PT teve uma espécie de hegemonia e controle conjunto dos partidos. Como funciona o sistema político brasileiro desde a Constituinte de 1988?

Existem dois partidos que têm certas condições de liderança, o PT e o PSDB. E existe um que estabiliza ou não, que é o PMDB.

E quando estes partidos conseguem apoio da opinião publica. E mais do que isso, quando conseguem fazer política. Ou por exemplo quando houve o boom das commodities que beneficiou Lula, as coisas funcionam. Quando não, se perde um pouco o rumo. E foi o que aconteceu. O PMDB percebeu que o PT estava sem rumo, e saiu. A pergunta para Temer é: ‘que rumo teremos’.

E Temer terá força para realizar as reformas que quer, já que não tem ainda liderança e popularidade e ainda reformas que são antipáticas?

?Não sei se são (reformas) liberais. Existe uma espécie de fixação no continente de que a ideia de desequilíbrio fiscal é progressista, de esquerda. Enquanto que o controle fiscal é de direita. É um erro. Não é nem de direita e nem de esquerda. A situação é tão dramática, que os estados estão em uma situação difícil, a arrecadação está diminuindo porque tivemos dois anos seguidos de crescimento negativo. Alguma coisa terá que ser feita.

Acho que o que falta no Brasil neste momento é palavra, voz para apresentar, argumentar quais são os problemas e porque chegamos ao ponto que chegamos.

Temer pode ter liderança tendo 10% ou 15% de aprovação popular?

?Mas acho que terá que fazer (reformas). Eu fui ministro da Fazenda sendo sociólogo e praticamente desconhecido nacionalmente. E consegui.

O senhor citou a fragmentação partidária no Brasil e está registrada a baixa popularidade do presidente. Existe um divórcio da sociedade brasileira com o sistema político atual?

?Totalmente.

Os votos brancos e nulo aumentam. Protestos são realizados. O que significa esse divórcio?

?Mas esse divórcio não é só no Brasil.

Mas no Brasil é uma novidade porque o brasileiro não era tão ativo em relação à política (com protestos, por exemplo).

?Não, não era. Mas também não tinha que encarar tanto desemprego. A inflação ainda está relativamente baixa, em 7% ou 8%. A verdade é a seguinte, a estrutura política da democracia se baseia nos partidos e os partidos tradicionalmente são vinculados a seguimentos sociais, classes, grupos. Esses eram os partidos. O da socialdemocracia estava vinculado aos trabalhadores, sindicatos, os conservadores, liberais e etc.

A sociedade contemporânea é muito mais fragmentada. Não é que não existam classes e grupos sociais fortes. É que eles já não são os únicos aos quais as pessoas se filiam. É preciso perguntar: ‘qual é tua postura sobre meio ambiente, gênero, e muitos outros assuntos e situações que condicionam o comportamento das pessoas. Redes sociais, a ação direta de um ao outro.

E os partidos dificilmente entram nestes temas que preocupam as pessoas.

As instituições tradicionais não estão acompanhando a velocidade…

?A velocidade das mudanças. Ainda se fala em esquerda, direita, classe tal e tal. Mas não é mais assim. Não é que não existam mais. Mas é que não existe só isso. E isto ocorre também no Brasil.

O senhor falou sobre isso com Macri?

Um pouquinho sim. Macri representa essa angustia de algo novo. E pode ocorrer no Brasil também.

Mas quem seria no Brasil essa nova liderança?

?Nesse momento não vemos. Mas nunca se sabe. Pode surgir uma surpresa. Hoje os candidatos, são os que existem, mas falta muito (para 2018). As pessoas querem outra coisa e os partidos se calam sobre os assuntos que preocupam as pessoas. Não têm coragem de falar. Falar sobre droga, não falam. Sobre LGBT, não falam. Falar de meio ambiente, não falam.

Existe um tabu.

Existe. Porque pensam que perdem votos. Mas os jovens querem discutir estes assuntos. Eu converso muito com os jovens. Desde que deixei a presidência, já recebi cinco ou seis mil jovens para diálogos no Instituto (Fernando Henrique). E como falo sobre estes assuntos tenho maior facilidade para ser ouvido. E também porque não estou na política ativa. Não sou candidato a nada.

E o que o senhor disse a Macri?

Trocamos ideias. Eu disse a ele que o Brasil tem possibilidades de sair do impasse porque temos uma base muito sólida na parte de agronegócios. Depende um pouco também da sorte, dos preços das commodities, temos uma falta enorme de infraestrutura, e há capitais no mundo.

No novo governo (Temer), temos que ver como o Brasil tratará a indústria, porque o Brasil é mais industrializado que todos os demais países da região. Existe base para crescer. Se Temer conseguir aprovar as reformas nesta linha, as coisas vão melhorar. Além disso, não acho que haverá problemas entre Brasil e Argentina. E também acho que o Mercosul não deve se manter somente no comércio, mas também na integração física.

Qual a sua opinião sobre a Venezuela? Existe muita polêmica.

?A Venezuela é uma tragédia. Eu me dava bem com Hugo Chávez porque coincidimos como presidentes. E quando me perguntavam sobre Chávez, eu dizia que ele seria julgado pela história segundo a capacidade que tivesse para diversificar a economia da Venezuela. A Venezuela depende do petróleo. E essa foi a tragédia da Venezuela e o Chavismo porque o preço do petróleo caiu e tudo se baseia na abundancia dos petrodólares.

O problema é o populismo, quando se governa sem olhar as contas. E enquanto existe uma pessoa carismática, isso mais ou menos ameniza. Mas quando essa figura carismática desaparece, caso do Maduro, aparece a crise.

E ocorreu o mesmo com Lula e Dilma. Ele tem carisma, ela não.

Na sua opinião, que lugar a história reservará para Lula, para Dilma e se o senhor concorda que o Brasil vive um antes e um depois de 2013, quando os protestos começaram?

?Lula será lembrado por ter sido o primeiro líder sindical que chegou à Presidência. Teve um governo mais organizado e a abundancia das commodities. E não há duvidas de que ele incluiu mais gente. É um fato. Mas em reforma agrária, ninguém fez mais do que eu. Mas Lula simboliza isso.

E não só simboliza como conseguiu. Eu não gosto de criticar Lula, principalmente quando estou fora do Brasil. Mas eu não sei por que ele se dedicou a cavar sua história. É uma pena. Acho que a história vai balancear, vai dizer o que ele fez de bem e de ruim. Mas não sei como isso terminará. Tomara que acabe bem.

E Dilma?

?Dilma vai ser lembrada como a primeira mulher que chegou à Presidência do Brasil. Mas depois ela não se saiu bem porque a economia do mundo não a favoreceu e porque ela também ela insistiu no que chamou de nova matriz econômica, o que significa, na pratica, aumentar o consumo sem aumentar o investimento, quer dizer, aumentar a divida.

Sobre os protestos de 2013?

?Foi quando as pessoas perceberam que podiam atuar diretamente. E essa é uma questão global.

E como o senhor será lembrado pela história?

Um pontinho no passado (riu). Mas não vou sair da cena política, não vou deixar de dizer publicamente o que penso.

Para o senhor, Temer terminará o mandato em 2018?

?Acho que sim.

Foi só coincidência ou não que o senhor esteja aqui poucos dias antes da visita de Temer? (Temer chega dia três de outubro para uma visita relâmpago). 

?Pura coincidência. Eu vim passear. Tenho 85 anos e seria uma loucura que eu me metesse no cotidiano da política.

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