Miguel Lucena

Tornozeleira no cabo

Tornozeleira no cabo

Ele pensou que estaria imune ao fazer campanha para a mulher do homem. Correu para um lado e outro, promoveu café, almoço e janta, bingo, pau-de-sebo, torneio de futebol e corrida de argola, segurou menino catarrento para a candidata beijar e ficava com o fedor dos cagados, porque a bonita só dava uma bicota no bruguelo, com o tronco em forma de “C”, para não encostar muito.

Foi um trabalho bem feito e reconhecido, tanto que ela prometeu levá-lo para o gabinete, na Praça dos Três Poderes, ou no Governo do Distrito Federal, no Paço do Buriti, em se concretizando as tratativas de seu partido com o governador eleito.

Tudo parecia andar em perfeita harmonia, até que a  namorada começou a ciumar, a falar uns querrequequés, um tal de “você coisou acolá”, referindo-se a uma caminhada num beco sem saída de Ceilândia Norte e a um sumiço registrado para as bandas da lagoa fedorenta da Expansão de Samambaia. O cabo eleitoral perdeu a paciência, declarou-se “extremamente indignado”, como dizem os corruptos hoje em dia, e entrou em vias de fato com a companheira, sendo contido por Coca de João Tranguelo e preso pelo Sargento Cosme, irmão do Delegado Antenor.

Graças à eficiência do advogado PH, o cabo conseguiu se livrar da prisão, para se defender em liberdade, mas ganhou uma tornezeleira eletrônica. De acordo com a ordem judicial, ele só pode se afastar de casa por sete quilômetros, o que não lhe permite sequer comer um maxixe em Tião da Carne de Sol, no Colorado. Como mora na Fercal, em Sobradinho, não poderá assumir o cargo prometido pela deputada.

– E olhe que eu já aguentei cocô pra mais de metro, viu! – protestou, extremamente indignado.

*Miguel Lucena é Delegado de Polícia Civil do DF, jornalista e escritor.