Tragédia minimizada

Renan Filho

Governador disse que não permitirá, em Alagoas, a tragédia de Mariana e Brumadinho
14/05/2019

Renan Filho defende a Braskem prometendo mais do que a ciência pode garantir

Tragédia minimizada

Renan Filho defende a Braskem prometendo mais do que a ciência pode garantir

Governador disse que não permitirá, em Alagoas, a tragédia de Mariana e Brumadinho

Menos de uma semana depois de o laudo técnico do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) apontar a mineradora Braskem como responsável por afundar pelo menos 40 centímetros do solo e colocar em risco a vida de cerca de 30 mil habitantes de três bairros de Maceió (AL), o governador de Alagoas Renan Filho (MDB) resolveu ontem (13) dar garantias de que teria uma capacidade sobre-humana de impedir uma tragédia comparável às ocorridas em Mariana e Brumadinho, no Estado de Minas Gerais. O problema é que nem mesmo a ciência pode assegurar tais garantias e ainda busca soluções, além da evacuação das áreas de maior risco, para proteger os alagoanos. “Vou prioritariamente defender vidas. Não vou permitir aquilo que ocorreu em Mariana e Brumadinho e a partir daí criar as condições econômicas para a Braskem continuar sua exploração, desde que não seja em área pública. Pelo que fui informado previamente, há espaço para a Braskem exercer a mineração em áreas não urbanas, que é o ideal”, disse Renan Filho, ao defender a extração de sal-gema que reativou uma falha geológica e condena os bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. Na última quarta-feira (8), o coordenador dos estudos da CPRM, geólogo Thales Queiroz Sampaio, disse não poder garantir a integridade dos imóveis e moradores da região atingida, ao pedir um voto de confiança para a busca de soluções para o problema, com a continuidade dos estudos científicos, não contaminados pela politicagem e interesses econômicos. Ele também afirmou que não se pode descartar a possibilidade de uma subsidência abrupta, ou seja, um afundamento repentino do solo, na região afetada. Mesmo assim, o cientista disse que não há motivo de pânico, nem evacuação imediata. E prometeu apresentar um novo mapa de risco que embase a atualização do plano de contingência, até o final desta semana. “Não podemos assegurar a integridade dos imóveis nem das vidas dos moradores dos três bairros”, é a conclusão da ciência, após estudos expostos em audiência pública no auditório do Fórum da Justiça Federal em Alagoas, após quase um ano de iniciados. “Este trabalho foi muito duro e, certamente, o mais importante que nós já fizemos em nossas vidas ao longo dos últimos anos”, afirmou o cientista, no evento do qual o governador não participou. “A solução, hoje, é conhecer o mapa de risco e aquelas pessoas que estão em alto risco terão que sair de suas casas, com a ajuda do aluguel social liberado pelo Governo Federal”, completou o secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, coronel Alexandre Lucas Alves, ao responder sobre a possibilidade de soluções de engenharia. Conforme dados da Justiça Eleitoral, quando foi eleito para seu primeiro mandato de governador de Alagoas, nas eleições de 2014, Renan Filho recebeu R$ 320 mil de doação de campanha da Braskem e R$ 829 mil da Odebrecht, controladora da mineradora. Impactos na economia O ponto central da fala de ontem de Renan Filho foi reafirmar sua defesa da manutenção das atividades da mineradora em Alagoas “em áreas não habitadas e que não tragam risco para os alagoanos”. De olho no impacto da tragédia para a economia do Estado, ainda não calculado, o governador fala em construir condições para a Braskem continuar funcionando, dizendo “priorizar a preservação de vidas”. “Eu defendo a continuação das atividades [da Braskem] desde que não prejudique o meio ambiente e as pessoas. Existem áreas não habitadas no estado que permitem a atividade de mineração da empresa. A Braskem vai descontinuar a atividade de cloro-soda, que é o que diretamente depende da sal-gema. Vamos discutir com a mineradora, a manutenção do funcionamento das entorses para garantir a geração de emprego”, declarou. Mas o governador não quis comentar as críticas do Ministério Público Federal (MPF) sobre a fiscalização e concessão de licenças à empresa por parte do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA). “Não queria comentar crítica do MPF”, esquivou-se o governador, após a pergunta do site Gazetaweb. Carta branca já foi dada Renan Filho ainda confia na mineradora, menos de uma semana depois de o IMA autuar em R$ 29 milhões a Braskem, por ter apresentado dados errados sobre suas atividades, ao “contribuir” com os estudos sobre as causas do fenômeno geológico que fez a terra tremer em 2018 e ampliou as rachaduras no solo e em imóveis da região. Em fevereiro, o IMA admitiu que, no governo de Renan Filho, concedeu e renovou licenças de poços de extração de sal-gema, sem ter geólogo em seus quadros de servidores, nem capacidade técnica de produzir contraprova dos dados informados pela Braskem. Espera-se que a carta-branca concedida à mineradora não seja renovada, como prêmio pela tragédia provocada. Por isso, o MPF em Alagoas ajuizou ação civil pública com pedido de liminar contra a Braskem, a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o IMA de Alagoas, com o intuito de que sejam adotadas as medidas cabíveis ao procedimento de paralisação das atividades de exploração de sal-gema no Estado de Alagoas, considerando que intervenções inadequadas podem agravar a situação. A própria empresa mineradora anunciou, na última quinta-feira (09), a paralisação de suas atividades, adiantando que contestará os estudos da CPRM. Entre os dados técnicos apresentados, impressiona as revelações de que aumento de 71%, na cavidade (ou caverna) da mina 07 e redução de 92% na mina 19D, por exemplo. “Estas cavidades, que deveriam estar estáveis (com manutenção de volume), estão desestabilizadas, ora aumentando de volume, ora quase desaparecendo (desmoronamentos?). E uma caverna aberta pela mina 7 para subiu 200 metros acima da camada onde fica localizada a jazida de sal-gema, ao longo de 30 anos. A CPRM conseguiu avaliar as condições de apenas oito das 35 minas da Braskem (3 ativas e 5 inativas). Veja parte do estudo que mostra o que houve com as minas. As deformidades pintadas de vermelho nas minas mostram a evolução do tamanho da mina, em azul, o tamanho original:   Veja aqui a posição da Braskem sobre o afundamento dos bairros. E veja como a mineradora anunciou o início da suspensão de suas atividades.
13/05/2019

Renan Filho fala em manter mineração da Braskem que ameaça 30 mil maceioenses

Vidas x economia

Renan Filho fala em manter mineração da Braskem que ameaça 30 mil maceioenses

Governador de Alagoas defende manter produção da mineradora, 'sem riscos para o alagoano'

Ausente na audiência pública da última quarta (8) que expôs, com dados científicos, a mineração sobre uma falha geológica como causa de uma das maiores tragédias do Estado de Alagoas, o governador Renan Filho (MDB) ponderou sobre os riscos objetivos à vida de cerca de 30 mil alagoanos e falou de seu desejo de manter a mineradora Braskem funcionando “desde que não traga riscos para o cidadão alagoano”. A declaração foi dada na última sexta-feira (10), dois dias depois de a Braskem ser identificada em laudo técnico do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) como causadora de tremores de terra e afundamento de pelo menos 40 centrímetros na região de três bairros de Maceió (AL). Segundo a CPRM, a Braskem não poderia ter ignorado ou desconhecido a existência dos riscos de extrair sal-gema da mina localizada sobre uma falha geológica que foi reativada pela perfuração de 35 poços ao longo de 44 anos, e por isso voltou a se movimentar, após milhões de anos adormecida pela natureza. “Com o laudo da CPRM, o governo do Estado suspendeu as licenças de operação da Braskem e a Agência Nacional de Mineração também. Por isso eles resolveram paralisar a operação da indústria. Nós depois disso vamos com serenidade conversar para que não traga impacto econômico que eventualmente a empresa continue produzindo desde que não traga riscos para o cidadão alagoano”, ponderou Renan Filho, em entrevista à TV Gazeta de Alagoas. Na mesma entrevista em que revela a intenção de preservar a atividade que segundo a CPRM ainda ameaça provocar uma subsidência (afundamento) abrupto do solo dos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro, o governador de Alagoas fala em responsabilizar culpados. E ainda isenta o órgão estadual licenciador, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) que mesmo sem condições técnicas de produzir contraprova aos dados apresentados pela Braskem sobre suas atividades de altíssimo risco, seguiu concedendo e renovando licenças para a mineradora. “Olha as informações normalmente são prestadas pela própria para empresa. Por isso a empresa foi multada, por não prestar informações com a devida fidedignidade ao IMA. A Agência Nacional de Mineração [ANM) também só suspendeu as licenças depois do laudo da CPRM, que levou quase seis meses para ser elaborado. Então esse caso é um caso complexo, todos os responsáveis precisam ser devidamente responsabilizados. É assim que o estado de Alagoas vai tratar e é isso que a gente tem cobrado”, declarou. Conforme dados da Justiça Eleitoral, quando foi eleito para seu primeiro mandato de governador de Alagoas, nas eleições de 2014, Renan Filho recebeu R$ 320 mil de doação de campanha da Braskem e R$ 829 mil da Odebrecht, controladora da mineradora. A incapacidade técnica do órgão licenciador da atividade em Alagoas para fiscalizar os 35 poços perfurados ao longo de 44 anos pela Braskem foi evidenciada em 22 de fevereiro pelo próprio instituto, em audiência pública promovida pela Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE). Na ocasião, o representante do IMA admitiu a ausência um geólogo efetivo ou comissionado nos quadros do órgão administrado pelo governo de Renan Filho, bem como a falta investigação técnica da atividade da Braskem, que fez afundar três bairros de Maceió. O Ministério Público Federal (MPF) também pode buscar a responsabilização do IMA e da ANM pela tragédia, segundo adiantou a procuradora da República Niedja Kaspary, na quinta-feira (9), em reunião que discutiu detalhes do laudo da CPRM, com o corpo técnico do órgão federal. O Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) já suspendeu a distribuição de R$ 2,6 bilhões de lucros para acionistas da Braskem, em resposta ao pedido de bloqueio de R$ 6,7 bilhões no patrimônio da subsidiária da Odebrecht, formalizado pelo Ministério Público e Defensoria Pública Estadual, que solicitaram a suspensão das atividades da mineradora e reforçam o pedido de bloqueio dos bens, após a audiência da semana passada. Impacto na economia Em estudo recente do programa de pós-graduação do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Alagoas, Railson Vieira Diodato relata que Alagoas possui relevância nacional no cenário petroquímico, por contar com a maior planta de processamento de cloro-soda e PVC da América Latina, da mineradora Braskem, ao explorar esta que é a maior jazida de sal-gema do Brasil. O estudo afirma que a Cadeia Produtiva da Química e do Plástico de Alagoas tem 104 indústrias, gerando 4.427 empregos diretos em 27 tipos de atividades econômicas, sendo a maioria para fabricação de fabricação de produtos químicos, farmoquímicos e farmacêuticos, borracha e material plástico. Os impactos na arrecadação e nas políticas públicas do Estado de Alagoas ainda estão sendo calculados. Mas já se tem conhecimento de um número: 30 mil vidas ameaçadas e outros milhares de imóveis nos bairros que podem deixar de existir justamente pela ação da mineração da Braskem. Como a jazida de sal-gema explorada é fixa e intransferível, a ponderação do governador precisará se amoldar a realidade da gravidade dos fatos, caso queira mesmo eliminar riscos à vida do cidadão alagoano. Veja a situação dos poços de mineração da Braskem, relatada pela CPRM: Veja aqui a posição da Braskem.
09/05/2019

Prefeito apela a Bolsonaro e Renan Filho por união pelas vítimas de afundamento, em Maceió

Mineração da Braskem

Prefeito apela a Bolsonaro e Renan Filho por união pelas vítimas de afundamento, em Maceió

Rui Palmeira discute o destino 30 mil pessoas de três bairros afundados pela Braskem, em Maceió (AL)

O destino dos moradores das áreas de risco dos bairros afundados pela mineração da Braskem, em Maceió (AL), começa a ser definida em reunião marcada para esta sexta-feira (10) com o prefeito Rui Palmeira (PSDB) e representantes da Defesa Civil Nacional e do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Enquanto isso, o prefeito apela aos governos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e do governador de Alagoas Renan Filho (MDB), para que trabalhem juntos com o município em busca de soluções para a tragédia que ameaça a vida de cerca de 30 mil maceioenses dos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. Rui Palmeira reforçou que acionará a Braskem na Justiça para que arque com os danos que provocou, recebendo benefícios fiscais, inclusive. E também informou que deve viajar para Brasília (DF) na próxima semana, em busca de apoio e recursos do governo federal, para construção de moradias e de soluções para estabilizar o terreno dos bairros atingidos pela atividade da Braskem de extração de sal-gema sobre uma falha geológica reativada após milhões de anos, segundo laudo divulgado ontem pela CPRM. “Ontem fiz contato com alguns ministérios e na próxima semana iremos nos reunir para buscar todo o apoio possível. Já foi apontada a responsabilidade para empresa Braskem e hoje a prefeitura já vai entrar com ações contra a Braskem. Vamos solicitar indenização aos moradores e também aos cofres públicos. Já que a prefeitura abriu mão da cobrança do IPTU e de outros tributos. A gente vai cobrar, obviamente, a partir de agora. Mas a prefeitura precisa de todo o apoio do Governo do Estado e do Governo Federal. A gente precisa trabalhar juntos para encontrar, a partir de agora, a solução”, disse o prefeito, em entrevista à TV Gazeta. Mais de três meses antes da divulgação do laudo oficial da CPRM que aponta a Braskem como causadora do problema, o presidente Jair Bolsonaro disse, em 25 de janeiro, saber que a atividade de mineração causava o afundamento dos bairros. No dia 12 do mesmo mês, o presidente havia determinado a seus ministros que agilizassem o diagnóstico e a solução para fenômeno que fez a terra tremer em 2018. Um dia depois da declaração de Bolsonaro acusando a Braskem, o governador Renan Filho anunciou, ainda em janeiro, a suspensão das licenças ambientais para três poços localizados no bairro do Pinheiro, como medida preventiva. Bolsonaro não falou sobre o assunto publicamente. Já Renan Filho declarou à TV Pajuçara que tomará medidas para punir os culpados. E reproduziu em seu Twitter uma nota oficial que informa que o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) atenderá ao pedido do Ministério Público e da Defensoria Pública formalizado ontem, para interditar mais quatro poços da Braskem, identificados pelos números 32, 33, 34 e 35, ainda em atividade. “Por isso, lá atrás, suspendi as licenças, mesmo antes da emissão do laudo”, disse o governador, em referência a três poços que atuavam no bairro do Pinheiro até janeiro deste ano. “Essa decisão foi muito importante. A partir da divulgação do laudo, vamos verificar quais serão as novas orientações e tomar as medidas cabíveis para punir os responsáveis, ressarcir os atingidos e tentar impedir com todo nosso empenho para que não haja desastre”, completou Renan Filho, em entrevista à repórter Ana Karolina Lustosa. Quem fica e quem sai? O encontro de amanhã entre o prefeito, Defesa Civil Nacional e a CPRM tratará das próximas ações relacionadas aos problemas geológicos. Rui Palmeira destacou que precisa saber qual é o novo mapa de risco para saber quem pode permanecer e quem quem que deixar suas casas. E reforçou a necessidade de união entre Município, Estado e União, inclusive para ampliar o período do aluguel social para além do limite de um ano, enquanto se buscam soluções de engenharia para os bairros. “A gente precisa ampliar esse prazo, mas também dizer para as pessoas qual será o futuro delas. As pessoas perderam, alí, uma casa onde moraval há 40 ou 50 anos e a gente precisa ter uma coordenação junto do governo do Estado e do governo federal, para a gente saber: ‘E agora, essas pessoas vão para onde?’. O problema emocional é o mais grave para todos os envolvidos. Com esse novo mapa, a gente pode saber quem pode retornar, quem pode permanecer e quem tem mesmo que sair e quem não pode voltar. E apontar possibilidades, para quem não puder voltar, de moradias em outros pontos da cidade, com recursos e apoio do governo federal. É nisso que a gente tem que estar focado para dar as respostas”, disse Rui Palmeira. Um projeto de macrodrenagem para a região do Pinheiro já foi apresentado pelo prefeito ao governo federal, além de outros projetos que precisam do aval da União. “A empresa [Braskem] vai ser responsável solidária por todos os dados causados na região. A gente está fazendo trabalho paliativo, tamponando as fissuras para evitar que com a chuva elas aumentem. Mas já sabemos a quem cobrar. A Braskem vai ter que fazer um estudo e um investimento para que o solo pare de ceder. Temos agora a causa e o causador”, afirmou o prefeito, ao falar dos projetos. Rui Palmera disse que atual quadro requer atenção especial com o bairro do Mutange, além da atenção normalmente dada às habitações em áreas de encosta. “A Defesa Civil continua lá no Pinheiro, que é a área de maior atenção que devemos ter na cidade. A barreira do Mutange, que por si só já é uma área de risco, com esses problemas se torna ainda mais perigosa. Então vamos ficar atentos a essas questões”, antecipou, na entrevista à TV Gazeta. Veja aqui a posição da Braskem.
07/05/2019

Obra bilionária do Canal do Sertão Alagoano é abandonada e tem água subutilizada

Bilhões evaporando

Obra bilionária do Canal do Sertão Alagoano é abandonada e tem água subutilizada

Governo de Alagoas é cobrado por abandono do Canal do Sertão

Uma audiência pública realizada ontem (6) pela Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) expôs a subutilização das águas do Canal do Sertão Alagoano, em prejuízo de 900 mil sertanejos de 38 municípios do semiárido do estado. O evento reuniu técnicos, trabalhadores e produtores rurais, que exigiram do governador Renan Filho (MDB) e das autoridades estaduais a garantia de funcionalidade imediata das águas canalizadas pela obra que já consumiu mais de R$ 2,5 bilhões em recursos públicos da União. Segundo o deputado Inácio Loiola (PDT-AL), que propôs a audiência, o objetivo da ação foi cobrar um plano de ação consistente para tirar de vez do papel o Canal do Sertão, mostrando à sociedade e às autoridades que a população e o Estado estão deixando de produzir e perdendo receita. Os alagoanos que observam o grande volume de água acumulada na obra que construiu um rio artificial que serpenteia o solo esturricado de Alagoas cobram a realização do propósito principal do projeto que prometeu transformar o Sertão e o Agreste do Estado em polos de produção de hortifrutigranjeiros do Nordeste. A maior obra de infraestrutura hídrica de Alagoas foi iniciada há 27 anos, no projeto que visa canalizar por 250 km as águas do Lago Moxotó, formado pelo represamento do Rio São Francisco, em Delmiro Gouveia (AL), até Arapiraca (AL), no Agreste de Alagoas. A a obra se encontra em 75% de avanço físico, apesar de concluídas até o Km 113. E tem recursos garantidos para conclusão do trecho IV, até o Km 123,4, nas cidades sertanejas de Senador Rui Palmeira e São José da Tapera. Técnicos, parlamentares e representantes de instituições e entidades discutiram a falta de funcionalidade da obra de relevância social e econômica fundamentais para mitigar de forma perene os efeitos da seca, mas que ainda não tem definida a política de gestão de suas águas, nem plano de segurança para evitar o uso irracional da água e o risco para animais e pessoas que circulam no entorno do canal. O deputado Davi Maia (DEM-AL) expôs as dificuldades de diversos agricultores para ter acesso à água, em vídeo exibido na audiência pública da ALE. O parlamentar alertou que agricultores passam sede e fome, sem conseguir produzir, ao lembrar que o governo prometeu kits de irrigação. “Sabe quantos kits chegaram? Nenhum”, denunciou Maia, ao cobrar participação mais efetiva do Legislativo nas reuniões do Comitê Gestor do Canal do Sertão. Maia ainda lamentou o grande volume de dinheiro público investido na obra ainda sem função social nem econômica. “Esse recurso segue evaporando com a água, já que tão pouco tem sido utilizado para o desenvolvimento da região!”, escreveu o deputado nas suas redes sociais. Assista ao vídeo sobre a atual realidade do Canal do Sertão, produzido pelo deputado Davi Maia: Falta de gestão e caos Os presidentes da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag), Givaldo Teles, e da Federação da Agricultura do Estado de Alagoas (Faeal), Álvaro Almeida, cobraram mais compromisso do poder público para executar a obra que se arrasta há quase três décadas e possui trechos concluídos abandonados. E a falta de gerenciamento da política da agricultura e a burocracia para liberação da outorga para uso da água foram apontados como entraves que prejudicam os agricultores. “Na nossa visão, o canal é penalizado com a falta de gestão. Ele está abandonado com os rebanhos pastando ao seu redor e com os pés de algaroba crescendo junto as paredes de estruturação da obra. Isso é muito preocupante. O agricultor familiar não tem acesso ao crédito já que a outorga é uma exigência feita pelos bancos para liberar os recursos. A situação está um caos. É preciso que o Estado tome conta de fato e de direito do Canal do Sertão. Não existe uma empresa ou uma secretaria responsável para fazer os agricultores produzirem alimentos, gerando emprego e renda no campo”, afirmou Givaldo Teles. A deputada Jó Pereira (MDB-AL) expôs a ausência de plano de gestão para o projeto, ao defender a necessidade de foco e definição política para organizar a utilização do Canal do Sertão; além de combater e prevenir a desertificação e a salinização; retomar a manutenção do que já foi construído, evitando a deterioração do equipamento; e cobrar resultados, também em respeito aos recursos já gastos na obra. “O Canal do Sertão aumentou a disponibilidade hídrica, mas infelizmente não estamos sabendo aproveitá-la devidamente, pois o sertanejo nunca teve acesso à água de acordo com suas necessidades… Há uma dívida do Estado em relação às políticas públicas de manutenção e do uso do Canal do Sertão”, disse, ao eleger como grande desafio a reversão do abandono e a manutenção do trecho construído. A deputada também disse faltar no local até mesmo manuais e procedimentos de funcionamento dos equipamentos de bombeamento, prejudicando a operacionalidade técnica e podendo gerar prejuízos ao erário. O deputado Gilvan Barros Filho (PSD-AL) sugeriu haver outros propósitos do governo de Renan Filho, ao questionar suas verdadeiras intenções para o Canal do Sertão. E afirmou que Alagoas poderia ser um pólo de fruticultura, com geração de emprego e renda nos municípios de pequeno porte. Mais dois bilhões O secretário de Infraestrutura e ex-ministro dos Transportes, Maurício Quintella, disse que o Governo de Alagoas busca mais recursos em Brasília para acelerar a obra. E considerou “pouco” os R$ 64 milhões previstos para aplicar na execução da obra em 2019, ao cobrar ação da bancada federal junto ao Governo Federal para garantir mais dinheiro para o canal. Quintella calcula a necessidade de mais R$ 2 bilhões para a obra alcançar seu destino final, em Arapiraca. Presente na audiência, o secretário-executivo de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas, Alex Gama, disse que o Estado está atento às demandas das comunidades, elaborando um plano de ação com equipes de sua pasta, e da Agricultura e Infraestrutura. No sexto ano de governo de Renan Filho, propósito é dar “resposta rápida” à sociedade por meio de projetos de perímetros irrigados em áreas dos municípios de Delmiro Gouveia, Pariconha e Inhapi. E demonstrou confiança de que o Estado irá viabilizar em curto prazo outras áreas de produção agrícola irrigada, além dos perímetros de Itiúba e Boacica, no Baixo São Francisco. O secretário de Agricultura de Alagoas e ex-governador Ronaldo Lessa, avaliou que o Canal do Sertão precisa de projetos alternativos e disse já existir projeto para o uso da obra, já aprovado e aguardando recursos, para atrair empresários para um dos perímetros. “Já existe um certo uso ao redor do canal. É preciso transformar isso em riqueza, produção, irrigação, tecnologia e assistência técnica. Tudo isso vai fazer com que o canal dê resultados. Um dos projetos é com a Sedetur [Secretaria de Desenvolvimento e Turismo], para atrair empresários em um perímetro na região de São José da Tapera”, finalizou o secretário. Durante a audiência, o governo defendeu a criação de uma Agência de Regulação para o Canal do Sertão. Também cobraram a funcionalidade da obra os deputados Marcelo Beltrão (MDB), Ângela Garrote (PP), Fátima Canuto (PRTB). E os deputados Paulo Dantas (MDB), Cabo Bebeto (PSL) e Francisco Tenório (PMN) também participaram da sessão.