Almir Pazzianotto

Retrato do Brasil

Retrato do Brasil

A fotografia da família quilombola do interior de Goiás, constituída por três adultos e três crianças, diante do casebre de tijolos de barro, estampada na primeira página da edição de 7/4 de “O Estado” é retrato do Brasil miserável desconhecido das elites.

A matéria publicada na página 8-A do conceituado jornal paulista, ilustrada com duas outras expressivas fotografias, traz o título “Conservadores tentam capturar da esquerda”. Pergunto-me que País é este onde o combate à miséria só agora, passados vários séculos, entrou no radar de partidos de direita, como está escrito no corpo da reportagem?

A família fotografada é constituída pelo casal João Paulo Maia e Darlene Rosa que, no casebre coberto com zinco e palha, vive com os filhos Tarles, de 8 anos, Rixon de 6 e Elismax com seis meses. Com eles mora o  idoso avô paterno de nome João Francisco Maia, com 74 anos. Na cozinha, separada do único quarto por um lençol, “o fogão trabalha quando há dinheiro para o gás. Um pequeno isopor ajuda a manter o que é possível comprar. Não costuma ser muito. O almoço quase sempre é arroz, feijão e chuchu. A energia elétrica ainda não chegou. Falta muito. Mas não sonhos”, concluiu a jornalista Renata Agostini que assina a cruel reportagem. A família procura sobreviver com o Bolsa Família no valor de R$ 212,00 mensais, menos de R$ 10,00 por dia.

Na mesma edição o editorial de “O Estado” aborda o problema da expansão da miséria. Ali se lê: “Segundo o Banco Mundial, entre 2014 e 2017 mais de 7,3 milhões de brasileiros caíram na pobreza e passaram a viver com renda mensal de até US$ 5,50 por dia, algo equivalente, pelo câmbio atual, a cerca de R$ 635,00 por mês. Com a economia fraca e ainda travada por muitas incertezas, há pouca esperança de retorno em um ano ou dois ao nível de atividade, já baixo, de 2014”. “Segundo a FGV – escreveu o editorialista – o custo da alimentação para as famílias de baixa renda subiu 7,93% nos 12 meses terminados em março. Foi, de longe, o combustível mais importante da inflação de 5,42% suportada pelas famílias com renda mensal de até 2,5 salários mínimos”.

O governador de Goiás Ronaldo Caiado, que na legislatura anterior era senador, segundo a reportagem acaba de instituir o Gabinete de Políticas Sociais onde reuniu cinco secretarias e a equipe da primeira dama. “Liderança do DEM, ele integra um grupo de governadores conservadores que estão dando prioridade a uma causa associada, desde a ascensão do lulismo, a seus adversários do PT: a inclusão social”.

Com 13 milhões de desempregados, 15 milhões subocupados, número ignorado de vendedores ambulantes e de esquecidos, o panorama social é motivo de vexame nacional. Afinal, como se explica a existência da multidão doente, desvestida, descalça, sofrida e faminta, no país que possui a 8ª maior economia do mundo, onde se destaca como produtor e exportador de alimentos? Combater a miséria, a fome, a doença, o analfabetismo, o desemprego é obrigação de todos; não pertence a determinado grupo de governadores ou a reduzido número de partidos. Trata-se compromisso do Estado Democrático de direito, como diz o Preâmbulo da Constituição.

Nas zonas rurais do Estado de São Paulo, no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, talvez não se conheçam situações de miséria como aquelas descritas na reportagem. São Paulo e Rio de Janeiro exibem outras formas de miséria, presente em milhões de famílias faveladas, vítimas de todas as espécies de carência e de elevado nível de violência.

Até o momento não se ouviu do presidente Jair Bolsonaro palavras reveladoras de preocupação com a questão social. O envolvimento com assuntos externos e a campanha pela aprovação da PEC da Previdência capitalizaram as energias do governo. É prudente, porém, que dedique parcela do tempo à questão social. Afinal, foi ela que transformou Lula em liderança popular e levou o PT à presidência da República, onde se manteve mais de 12 anos.

Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.