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Vítimas da ditadura militar

Bolsonaro impede trabalho de equipes técnicas em ossadas de Perus

Grupo de Trabalho já analisou mais de 900 ossadas de retiradas da vala clandestina, onde foram deixados corpos de vítimas da ditadura militar

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Ossadas encontradas na vala de Perus serão enviadas para análise de DNA na Bósnia

O presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto que acaba com conselhos, grupos e comissões da administração pública federal. O decreto 9.759 encerra ainda os trabalhos Grupo de Trabalho Perus, responsável pela identificação de corpos de desaparecidos políticos entre as 1.047 caixas com ossadas da vala clandestina do cemitério de Perus, na zona oeste de São Paulo.

Entre as ossadas encontradas na vala de Perus estão mortos pela ditadura militar (1964-1985) e também pessoas mortas em chacinas e por grupos de extermínio, que depois esconderam os corpos.

Segundo a procuradora regional da República, Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, afirma que o decreto não extingue o GTP, mas “acaba com a equipe de identificação, que é o conjunto desses profissionais, que atuam em várias frentes”.

O grupo é vinculado à Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e tinha a missão de concluir a identificação de vítimas.

“Mais do que enterrar os desaparecidos, o governo está implodindo todo um sistema voltado à justiça. O decreto não atinge só o Grupo de Perus, mas também o Grupo de Trabalho Araguaia”, disse a procuradora.

Questionado, o ministério não respondeu como pretende, e se pretende, continuar o trabalho de identificação das ossadas. A pasta respondeu apenas que “está avaliando, estudando e proporá algo dentro dos parâmetros do decreto”. Durante sua atuação parlamentar, Bolsonaro criticava as buscas pelos desaparecidos. Posou ao lado de cartaz sobre as buscas na região do Araguaia que dizia: “Quem procura osso é cachorro”.

A vala de Perus foi descoberta em 1990. Nos anos 1970, policiais e militares enterraram ali com nomes falsos presos políticos assassinados. Suspeita-se que até 40 deles estivessem na vala – seis deles já foram localizados ali e outros sete em sepulturas sem identificação no cemitério.

O trabalho de identificação é feito hoje por meio de um convênio assinado entre o governo federal e a Prefeitura de São Paulo, que envolve ainda o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf), da Universidade Federal de São Paulo – depois de passar por legistas da USP e da Unicamp, que foram acusados de descaso na identificação das ossadas.

Em setembro de 2017, as ossadas foram enviadas para o International Commission on Missing Persons (ICMP), laboratório bósnio escolhido porque tem experiência com a análise de mais de 20 mil casos de identificação humana no conflito da ex-Iugoslávia.

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