Miguel Gustavo de Paiva Torres

Os Filhos do Poder

Os Filhos do Poder

Dediquei uma década da minha vida profissional à África, e o que aprendi é que dificilmente a democracia parlamentar liberal ocidental chegará a vingar no continente africano, por mais pressão que façam os bons samaritanos europeus, ex-donos daquele pedaço do planeta.

Isto porque a tradição milenar é a tradição tribal, fincada nas raízes dos poderes divinos do Rei ou do chefe, e na família. Inclusive na família alargada. A família tribal causa de todas as lutas étnicas fratricidas que os ocidentais não compreendem e não entendem. A modernização política na África tende a abandonar a lealdade à família alargada no longo prazo, mas jamais, acredito, à família de sangue, muito embora no Togo, por exemplo, o maior inimigo do atual Presidente é o seu irmão mais velho, preso, por corrupção, o que parece inverossímil para quem conhece África.

Todos assistimos, recentemente, ao carnaval das andanças paulistas e cariocas do filho querido do Presidente da Guiné Equatorial. Faure Gnassingbé, atual Presidente do moderno Togo é filho de Gnassingbé Eyadema, o sargento cozinheiro que assassinou, com o apoio dos Estados Unidos, o intelectual fundador da República, Sylvanus Olympio – de família afro-brasileira-, que pretendia estabelecer relações privilegiadas com a Alemanha, país que teve a tutela do Grande Togo até a segunda guerra mundial.

O Grande Togo incluía Benim e parte de Gana, vizinhos geográficos do atual Togo, repartido entre franceses e ingleses. Na América do Sul, Perón inaugurou a época das esposas, entronizando no Poder e no governo Eva e Isabelita. No Brasil, família de Presidentes só resultou em confusão e morte, de Getúlio a Collor.

Agora parece que começamos a africanização da política brasileira. Flávio, Carlos e Eduardo, aparentemente querem governar junto com o pai presidente. Todos dispõem de títulos eletivos e poderiam se restringir aos seus mandatos populares. Flávio no Senado, Carlos na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, e Eduardo na Câmara Federal.

Carlos é um caso à parte porque, gênio da comunicação social, com perfil discreto, presta um valioso serviço pessoal e político ao Presidente. Flávio, por enquanto, também mantém perfil discreto e poderá ser um influente Senador da República. Eduardo, no entanto, está prestando enorme desserviço ao tentar se instalar no centro do Poder e da governança do Brasil, como verdadeiro “kingmaker”, designando ministros, embaixadores e assessores do Presidente.

Johnny Figueiredo provocou furacões na vida do General João Batista Figueiredo. Paulinho aprontava no governo do pai, Fernando Henrique. Lulinha e Luís Carlos também andaram aprontando no mapa palaciano brasileiro. Não deu certo.

Não dá certo. Nunca dará certo.

Governo é governo e família é família. As empresas familiares do século XX faliram praticamente todas, no Brasil e no mundo.

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.