Cenário mais provável ainda é vitória de Bolsonaro

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Amigos me perguntam como eu avalio o resultado da votação, ontem, da PEC 135 (“voto impresso/auditável”), a que eu atribuo o total de votos favoráveis muito além da minha expectativa, inclusive de partidos como PDT, PSB, PV e Cidadania.

Bem, começando pelo fim: muito embora a maioria dos analistas políticos encare essa questão pura e simplesmente como uma bandeira pró ou contra o governo, existe uma parcela da classe política verdadeiramente preocupada em aperfeiçoar o processo eleitoral no sentido de maior transparência etc.

Faltaram ao governo 79 votos para os 3/5 exigidos para aprovação de uma PEC. Mal comparando, já vimos no passado derrotas que, com o tempo, impulsionam vitórias — o que de imediato me ocorre é o ‘gás’ que a Emenda Dante de Oliveira (Diretas Já!) deu à candidatura Tancredo Neves na eleição indireta do Colégio Eleitoral.

Na pior das hipóteses, creio que a sementinha da dúvida já foi depositada na cabeça da opinião pública e dos seus representantes. Vamos ver o que daí vai brotar….

O que o governo tem pela frente, agora, é uma pauta de matérias econômicas, além, é claro, do Auxílio Brasil, o novo bolsa família.  Já deu para perceber que a agenda reformista é mais “consensual” no Congresso, principalmente na Câmara dos Deputados (Eletrobras, Correios etc).

No Senado, como eu previa, a CPI da Pandemia vai perdendo tração, como comprova o tempo cada vez menor de transmissão ao vivo que os canais de notícias dedicam às sessões.

Continuo achando que o mais temível dos inimigos do presidente Bolsonaro é ele mesmo. No 1º ano do seu governo (2019), muito antes da pandemia, as primeiras projeções de crescimento do PIB eram bastante otimistas; mesmo assim, os posteriores prognósticos foram murchando, reflexo do desconforto dos mercados com declarações e atitudes insólitas de sua excelência. Como vocês sabem, torço pelo sucesso do governo e pela reeleição do presidente, mas temo que esse azedamente das expectativas possa se repetir neste segundo semestre.

Outros obstáculos: como alguém aqui já observou perspicazmente, à medida que a vacinação avança, outras dores de cabeça sobem para o topo da pauta, como a questão do aquecimento global (combustível retórico para os adversários comerciais e ideológicos das exportações do agronegócio brasileiro); e a crise hídrica (teremos apagão nos próximos 2 meses?? Toc, toc, toc.)

Uma coisa é certa: aumento da conta de luz rima com agravamento da carestia. O comportamento da taxa de inflação é a variável econômica politicamente mais sensível que devemos acompanhar.

Decerto, é fácil comentar essas coisas do lado de fora…. Afinal, quem seria Bolsonaro sem o apoio do seu núcleo duro de fãs incondicionais que adoram essas performances? Para agregar outros segmentos a esse núcleo e viabilizar a reeleição, ele precisa que a economia decole e que Lula continue a liderar as pesquisas, de modo a aterrorizar maiores parcelas do eleitorado que poderão voltar ao aprisco bolsonarista por considerarem o Mito como o único capaz de exorcizar, de novo, a ameaça vermelha.

Só que isso, provavelmente, ensejará mais radicalização, maiores decibéis no discurso presidencial e, portanto, mais insegurança dos mercados.

Uma candidatura presidencial alternativa a esses extremos poderia cortar esse nó? Sim, a meu ver, mas desde que os nomes até agora aventados não fossem tão “carimbados” como pertencentes a uma classe política que grande parte dos eleitores repudia como corrupta etc.

Noves fora tudo isso, ainda creio que a vitória de Bolsonaro continua sendo o cenário mais provável.

Paulo Kramer é cientista político.

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