Daniel Lima

Vida, Água e Energia

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É impossível existir vida como a conhecemos, sem água. A água também é imprescindível para a geração de energia, como também, da energia depende os processos de captação, tratamento, distribuição e utilização para diversos fins da água. Como se vê, uma depende da outra e o nosso amanhã depende de ambas.

Vivenciamos hoje uma situação esdrúxula no tratamento das questões da geração elétrica no Brasil. Por um lado, continuamos ainda na dependência de bons períodos chuvosos, para que não venhamos a ter problemas de racionamento de energia e, por outro, vivemos sob a tutela dos nossos dirigentes os quais, na tentativa de solucionar os problemas do setor, penalizam o cidadão através de encargos repassados para as tarifas de energia e destinados, entre outras finalidades, ao custeio de termelétricas, que utilizam gás, diesel, óleo combustível e carvão mineral.

Na perspectiva do setor elétrico, os reservatórios são vistos como grandes baterias que armazenam energia na forma de água. Na medida em que o crescimento da demanda elétrica não vem acompanhado por essa capacidade de reserva de energia, mostra-se necessário buscar alternativas para dar mais segurança ao suprimento de eletricidade ao sistema elétrico. Vale observar também, que o país atravessa a maior crise hídrica deste século, com impactos significativos nos níveis de água dos reservatórios.

Nesse contexto, a tendência, por tudo que o governo sinalizou até o presente, é que haja a expansão da geração termelétrica, em particular as térmicas a gás natural, como principal alternativa de flexibilidade ao sistema elétrico considerando as condições de mercado e a política e planejamento do setor elétrico.

Mas, devemos ficar atentos a alguns aspectos que são peculiares as termelétricas. Sob a ótica ambiental, a geração termelétrica, em especial a de origem fóssil, além de emitir Gases de Efeito estufa (GEE), também pode levar ao agravamento de problemas ambientais importantes, como poluição do ar, chuvas ácidas, geração de compostos orgânicos voláteis (com efeitos perversos na saúde pública, como: impotência masculina, diabetes, supressão da imunidade, hipertensão, câncer, processos alérgicos, inflamatórios, problemas cardíacos, entre outros) e altos consumos de água, provocando potenciais conflitos com outros usos (tais como irrigação, abastecimento público, e demais usos industriais).

Um levantamento realizado, em 2016, pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) de São Paulo, que utilizou informações disponibilizadas pela Agência Nacional de Águas (ANA), constatou que as 70 usinas termelétricas com potência igual ou superior a 100 MW, encontram-se 40% em situação “muito crítica”, 9% estão em situação “crítica” e 12% em situação “preocupante”, quanto aos níveis de escassez de recursos hídricos. Se considerarmos as termelétricas instaladas no Nordeste a situação é calamitosa, 68% em situação “muito crítica”, 7% em situação “crítica” e 19% em situação “preocupante”. Ou seja, está faltando água para as termelétricas existentes.

O nível de criticidade de uma bacia hidrográfica revela-se um importante indicador do risco de ocorrência de conflitos pelos usos dos recursos hídricos. As termelétricas necessitam de um volume de captação muitas vezes superior ao correspondente ao abastecimento público de médias e grandes cidades.

Uma questão vem à tona quando se avalia o perfil das grandes térmicas em operação no Brasil. A maior parte dessas usinas opera com sistemas de resfriamento de circulação semifechada em torres úmidas, sendo que muitas dessas térmicas localizam-se em bacias hidrográficas a apresentarem altos níveis de criticidade hídrica.

Tomando como exemplo as termelétricas Porto de Pecém I e II, movidas a carvão e com potência implantada total de 1.085 MW. Estas usinas utilizam um volume de água equivalente a 3.093 m³/h, que são captados do mesmo reservatório que atende a cidade de Fortaleza, dos quais 2.712 m³/h irão evaporar no processo gerador de energia. Isso significa que 88% do volume de água que entra no sistema serão dissipados na atmosfera na forma de vapor. Para que se tenha ideia desse quantitativo, o volume evaporado seria suficiente para abastecer uma cidade com aproximadamente 370 mil habitantes, como Vitória/ES, o que é muito significativo. Outro caso que chama atenção é o da termelétrica Atlântico, que utiliza em seu processo de produção de energia 63.700 m³/h de água, o que daria para abastecer uma cidade com 4,4 milhões de habitantes, ou duas vezes a população do Estado de Sergipe.

No caso das termelétricas, o que se verifica são situações de degradação da qualidade do ar ou escassez hídrica em que a inserção da geração termelétrica é fator determinante para o seu agravamento. Se estamos diante de uma tendência de expansão da termeletricidade no Brasil, esses dois fatores – poluição e recursos hídricos – precisam ser olhados à luz do território, por um viés ambiental, como uma questão socioeconômica, e sobretudo como um fator que põe em risco a vida no Planeta.

Daniel Lima é diretor da RDSol (rede de Negócios em Energia) e presidente da Associação Nordestina de Energia Solar (Anesolar).

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