Silvia Caetano

Todos serão julgados

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Lisboa – Quando os efeitos devastadores da pandemia da coronavírus forem apenas uma triste lembrança, será a hora de julgarmos nossos líderes, dirigentes políticos e governantes. Quem esteve ou não à altura dos cargos que ocupam.

Na primeira fila, estarão os que conduziram o barco com sabedoria durante a travessia do estreito vigiado por Escila e Caribdis, monstros marinhos da mitologia grega que controlavam os limites do mar, e conseguiram chegaram à outra margem.

Também os que souberam liderar a união de todas as forças do seu país no combate ao vírus, prevenindo, salvando vidas e evitando danos ainda maiores aos seus habitantes. Estes não serão esquecidos e lhes seremos gratos

No banco dos réus, os que apenas gastaram tempo e energia na disputa pelo poder e protagonismos, conduzindo erraticamente a nau ao naufrágio, levando com eles muitos para as profundezas do Oceano.Lá ficarão enterrados. Deles não mais se falará, a não ser para citá-los como exemplo do mal

Será também o momento de avaliarmos nossas escolhas políticas, pois o voto é uma responsabilidade. Os que sufragaram candidatos reconhecidamente autoritários, desqualificados, narcisos e mentalmente doentes, apoiando os piores, deveriam fazer uma reflexão sobre como contribuiram para o mal ser ainda maior.

O mundo mudará por muitas razões. Com a interrupção das atividades econômicas em alguns países, reduzindo-se drasticamente as emissões de CO2 na atmosfera, as gerações mais jovens perceberam como alguns dos seus governantes tratam mal o planeta. O céu da China ficou azul, os canais de Veneza transparentes e moradores de cidades até então encobertas pela poluição, puderam finalmente contemplar o firmamento,ver a lua e as estrelas.

Dirigentes como Trump, que saiu do Acordo Climático e nada faz para evitar catástrofes na natureza, e do seu bajulador negacionista, Bolsonaro, incapaz de admitir ou impedir o que vem ocorrendo na Amazônia, não apenas os desmatamentos, mas também a falta de proteção efetiva para as populações indígenas, terão de prestar contas às gerações futuras, pois elas saberão cobrar.

Além dos seus seguidores fanáticos, ninguém mais crê na transformação de suas personalidades egocêntricas, convicção respaldada por estudos de especialistas que excluem tal possibilidade nas suas idades. As tardias medidas adotadas para enfrentar a crise, embora  algumas   acertadas,mas claramente motivadas por interesses políticos, não ajudarão a reescrever seus currículos.

Sobre o tema, o professor de história da Medicina na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e autor do livro “Epidemics and Society:From Black Death to the Present”, Frank M.Snowden, declarou a The New Yorker:” As epidemias são uma categoria de doenças que parecem surgir como um espelho no qual os humanos projetam sua verdadeira imagem.Refletem também a nossa relação com o ambiente.Mostra a relação moral que temos uns em relação aos outros como pessoas.”

Embora o momento seja dramático, permite retirar lições positivas. É preciso mudar o paradigma na nossa relação conosco, com os outros e com o meio ambiente. Ninguém vê o coranavírus como forma de o planeta nos encaminhar para direções certas, mas pessoas com sensatez suficiente poderão aproveitar a situação como uma oportunidade para refletir sobre muitas coisas.

Podemos pensar na adoção de medidas capazes de travar a crise climática, a proliferação de armas nucleares, de combater as desigualdades e injustiças sociais e a distribuição econômica, bem sobre as rápidas mudanças tecnológicas. Todas reduzem as resistências dos nossos sistemas. O Prêmio Nobel da Economia, Josephh Stiglitz, já havia alertado que, longe de ser necessária ou benéfica para o crescimento econômico, a desigualdade tende a enfraquecer seu desempenho.

O ensinamento de Stiglitz deveria ser o bê-a-bá dos nossos governantes e seus economistas liberais, que nunca lhe deram ouvidos e agora terão de enfrentar o resultado do descaso com os 100 milhões que não possuem saneamento básico, com a saúde pública e necessidades primárias dos mais pobres.

Temos um sistema de saúde pública despreparado para atender com eficácia o contingente de infetados que não possuem planos privados de saúde. Um exemplo  foi à revolta do sindicato de enfermeiros do SUS de Pernambuco que, no início da semana, ameaçou parar atividades por causa da falta de máscaras e de até de sabão para lavar as mãos.

Ainda bem que temos o povo que temos. A Pandemia revelou nosso poderoso potencial ,bem como a de muitos outros países , para enfrentar a crise que nos afeta a todos. Estamos nos reiventando, reiventando o significado de comunidade, o não depende da nossa classe política.Quando tudo passar, o individualismo já não terá asas para voar.

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