Sobre lameira, tabacos e cobras

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Eu achava que lameira só tinha a ver com lama.

– Olha a lameira que a chuva deixou.

Depois, conheci um senhor magérrimo, bigode fino bem cuidado, chamado Lameiras, que fumava muito. Toda vez que o via fumando, associava-o à cobra tabagista – símbolo da nossa força expedicionária.

Imagina o Brasil na segunda guerra mundial se inspirando numa cobra. Não era só inspiração, era também ameaça:

– A cobra vai fumar…

Uma cobra fumando cachimbo era o reflexo mais poderoso da nossa valentia cívica. Nós, ambientalistas, teríamos adorado.

O símbolo americano, líder das forças aliadas era, como sempre foi, uma águia, pousada no sossego soberano do seu olhar no infinito. O nosso símbolo de força, uma cobra.

Quando soube da cobra, o baixinho voluntário, futuro general, adentrando o quartel, quis logo saber:

– Cascavel ou jiboia?

Fake News ou não, já haviam a CIA, a KGB, o Mossad ainda não, corria solto o segredo de que Hitler e sua rapaziada nazista tinha medo de cobra e que Mussolini, apenas por mera subserviência, estendera esse medo às hordas fascistas.

Num tom de voz querendo imitar Boris Karloff, ouvia-se sempre depois da meia noite pelos cinco mil alto-falantes dos acampamentos fascistas:

– A cobra vai fumar…

Joel Silveira e Rubem Braga estavam lá. Mas não contam que isso funcionava como tremenda arma de terror.

Tive uma professora que, sim, passaria com nota sete no teste do Alexandre, de até bonitinha que ainda era, mas que falava grosso.

Na minha cabeça, desde menino em Caxias, mulher tinha que falar fino, embora de jeito nenhum como o Miguel Fala Fina, o qual depois de operado passou a falar grosso e aí não perdeu a ternura, mas foi ficando triste, tristonho, tristinho, até que fechou sua escola de artes culinárias.

Mulher naquele tempo tinha que falar fino com voz dengosa que nem a Iris Letieri, a dona da voz nos aeroportos.

A minha professorinha não falava fino e até engrossava a voz mais ainda quando queria enfatizar a frase atribuída por Murilão a um certo Dom Pedro, que não foi o Pedro II nem o Pedro I:

– Olha aqui, cordão, eu não tô nem aí não, viu?

Mulher não era para cantar com a determinação e firmeza de uma Nora Ney, mas sim com a melódica insinuante de uma Emilinha Borba. Ou com a sofrência de uma Dalva de Oliveira.

Não demorou muito para eu descobrir que a nossa professorinha fumava.

Conheces alguma cobra no gênero masculino?

Pois se toda cobra é feminina e se muitas, no vicio da nossa expedicionária serpente, continuam a fumar, logo todas as fumantes falam grosso.

Pouco interessa se com o seu tabaco intoxicaram, dizem, até o Benito, o qual só por isso deixou de ser Maneco para ser Jacinto.

Choveu ontem à noite e da janela vejo a lameira que ficou na entrada da garagem.

Fui levar o carro para lavar e o Raimundinho me avisou que a roda traseira do lado direito estava sem a lameirinha. Não entendi nada. E ele repetiu:

–  Caiu ou roubaram.

Nesta terra que tem ladrão pra todo lado, não esperei que as minhas rugas raras na testa se movessem:

– É, roubaram!

Raimundinho admitiu:

– Roubaram. E levaram também os parafusos e as porcas.

– E onde compro outra lameirinha, Raimundinho?

– Se roubaram, foi porque não tem para vender em lugar nenhum.

Tirei a tarde para sair procurando. Não encontrei lameirinha à venda em lugar nenhum.

Com certeza aí em Teresina encontrarás, meu filho. Compra pra mim, a lameira do paralamas traseiro do lado direito da Hylux e aqui te pagarei.

Edson Vidigal é jornalista, escritor, advogado. Foi presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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