José Maria Couto Moreira

Rodrigo Maia, conferencista

acessibilidade:

Eis que surge mais um palestrante (quem sabe um conferencista ?) no horizonte da política intelectualizada de nosso Brasil. Diz-se mais um porque há um da política que tem se notabilizado aqui e alhures (no exterior, principalmente) pelas densas e longas palestras que profere ao câmbio de alguns milhares de dólares americanos. São os jornais que o dizem. E deleita seus ouvintes com seu vasto conhecimento obtido em sua caminhada, desde o torno mecânico (nessa etapa deixou escapar o precioso mínimo da mão esquerda), em suas intervenções na vida civil como integrante de sindicatos, nos alvoroços, clamores e alaridos das esquinas e dos palanques, e depois, na presidência da República, cujo salto para aquela cadeira o fez em três tentativas. Este patrício, proferindo teses respeitáveis no campo da sociologia, da antropologia, do direito e até da filosofia, com incursões na metafísica, tem encantado auditórios os mais seletos do planeta.

Destaca-se este igualmente debatedor para que o primeiro saiba que concorre em universo paralelo, em que a sapiência também é derramada generosamente.

Pois, então, não é que o adiposo presidente da Câmara Federal se candidata a distribuir, também, em gesto solidário, só comparável aos dos pais da Pátria, sua espaçosa experiência legislativa na desvairada São Paulo, em sede física onde pontifica o mais respeitável sociólogo brasileiro ? A convite (circunstancial) do líder (presuntivo) da nata intelectual que se fixou no encantador Chile durante o período militar, e depois aqui prosseguiu em sua obra, a mesma que o autor mandou que todos esquecessem, lá, no acreditado Instituto FHC, assentou-se o nobre parlamentar , após um confortável voo solo pelas asas da gloriosa Força Aérea Brasileira, a mesma em que o presidente da República houve por bem interferir (não havia outra alternativa) nos critérios de requisição de transporte aéreo para bem do tesouro, e, provavelmente, a de número 770, seja esta a São Paulo (um parênteses necessário): o viajante realizara, até então, desde o início de seu mandato, 769 aventuras aéreas, o que lhe garante recorde absoluto no contingente dos tresloucados usuários). A propósito, é a caneta azul, a popular Bic, a responsável, e está produzindo maravilhas em reparos e consertos no aparelho estatal. Como uma simples e depreciada canetinha pode agir tanto em favor de um povo ! Vai, por certo, comprometer os planos e a biografia do conferencista, o Marco Polo do terceiro milênio. Imaginem o gozo intelectual do ex-presidente ao ouvir as premissas, advertências e conclusões do impoluto palestrante (hoje a eufemia melhor diz “jogar para a plateia”). Se aplicada a aritmética, o deputado contaria como afastado das sessões em metade delas !

Esta pantomima praticada pelo agora prof. Rodrigo Maia convola e propaga a aliança ficta com o ex-presidente, o que não repercutirá bem para a memória de FHC, num encontro que se falou até em “empeachment”, um instituto democrático respeitável para ser arguido e manejado quando os derrotados não suportam a vitória democrática do oponente.

Estaria o parlamentar com esta série sucessiva de devaneios pretendendo o quê ? Seria seguir a linha rotineira de políticos quando vencem seus mandatos de disponibilizarem-se para conferências ? Ou, quem sabe, candidatar-se a membro da Academia Brasileira de Letras, ainda que com currículo cultural deficiente, visto este requisito não mais ser exigível para alcançar a imortalidade desde o ingresso na egrégia Casa de Machado – uma usurpação – de Merval Pereira e seu bigode).

Leitores, o que mais se pode esperar deste chefe do legislativo que não o melhor exemplo do mal exemplo ? Com certeza, não é com este festival de viagens que Sua Excelência empreende no Brasil e mundo afora é que irá conquistar respeito de seu eleitorado, o carioca, porque este povo, embora muito preso a sua tradição de carnaval, sabe pesar e medir o candidato na hora do voto. Ainda outro dia o mesmo Rodrigo esteve na antiga corte de Aragão e Castela, onde foi encontrar-se com grandes empresários espanhóis. Lá credenciou-se, como imagina, a arauto do novo Brasil, este mesmo país que, também segundo “o filhote”, possui um presidente que não está sabendo muito bem como governar a nação.

Quem sabe (tudo é possível), esse nobre parlamentar irá copiar o antológico episódio do rei inglês e a um futuro momento dizer: meu reino por um cavalo!

José Maria Couto Morei a é advogado.

Reportar Erro