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Dois de outubro, e não 30 de novembro de 2021, é quando os reservatórios do sistema elétrico chegarão, na média, a 10% do volume útil. O sarrafo subiu. Um Everest à frente. E seria pior se uma série de medidas, como o decreto de emergência hídrica, não estivesse em prática.

Dia 25 de maio, no Valor, alertei que os cenários para o resto do ano seriam de extrema gravidade. As manifestações vieram de vários lados. Do Congresso Nacional, TCU, de técnicos da ANEEL e até de empresários, sempre a sublinhar preocupações.

A indignação de Humberto Guimarães, escrita nas Cartas de Leitores do Valor de 30 julho, despertou-me o interesse de abordar novamente o tema. Para ele, as ações do governo seriam inócuas. Entendo que não. Nem os maiores conhecedores do sistema elétrico ousariam afirmar que, durante meses, o consumo de energia seria atendido com uma participação de 30% de termelétricas. Também não diriam que, em tal conjuntura, as hidrelétricas contribuiriam com menos de 50%. Tem dado resultado, portanto, a nova política de operação do sistema. E, para o futuro, estratégias coerentes são estudadas, como a que eleva os volumes mínimos operativos. Podem recuperar os reservatórios, o que não ocorre desde 2011.

Mas é pouco. Em 26 de maio, a geração por meio de hidrelétricas era da ordem de 42 GW na madrugada, aumentava para 54 GW entre 8 e 16 h e passava para 58 GW até às 20 h. Naquele dia, a demanda máxima foi 81,3 GW, sendo 75% dela supridos por hidrelétricas. Durante todo o dia as termelétricas e as eólicas geraram algo como 12 e 4,5 GW, respectivamente. Os reservatórios tinham, então, o equivalente a 124 GW médios.

Veja o que acontecia em 29 de julho. Em todos os horários referidos, as hidrelétricas produziram 10 GW a menos que em 26 maio, exceto na hora da ponta, quando geraram 54 GW, ou 66% da demanda máxima de 81,4 GW. As térmicas produziram 18 GW ao longo de 24 horas, um honroso desempenho, contra 7,5 GW médios das eólicas – abaixo do esperado, mesmo com recordes pontuais. Apesar de todos esses inéditos esforços, no dia 29 de julho os reservatórios contavam com 103,4 GW médios (35,6% do volume útil). Perderam 20,6 GW médios em 63 dias. Parece pouco, mas não é.

No Informativo Preliminar Diário de Operação do ONS, sempre transparente, percebe-se que, na média, as hidrelétricas têm gerado 39 GW, ou 35 GW com os fins de semana. Como a ideia do operador é chegar em novembro com 10% do volume útil (de 290 GW médios) nos reservatórios, o total disponível para uso cai de 103,4 para 74,4 GW médios. Este número, dividido por 35 GW médios, resulta em dois meses e quatro dias. Apavorante.

Mantido o panorama, já no início de outubro os reservatórios estariam em 10% do volume útil mínimo operativo. Mesmo que se queira utilizar toda água, estratégia não indicada pois beira à loucura, a energia armazenada não chegaria ao fim de outubro.

Mais: de agora em diante, com a redução da queda, dada diminuição do volume útil, em especial nos reservatórios de cabeceira, a cada dia será utilizado mais água, o recurso escasso, para produzir 1 kW. Por isso, mesmo com o decréscimo da geração em mais de 10 GW, as hidrelétricas precisarão produzir muito para atendimento da demanda máxima. Um contrassenso.

É imperativo, por conseguinte, que sejam retirados no mínimo 6 GW do consumo a partir das 16 h, o que não é trivial. Com efeito, há uma desnecessária polêmica acerca de uma carta que as distribuidoras teriam enviado a seus grandes consumidores. Vi uma delas. Achei até que seria mais uma das proativas orientações da Comissão de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética – CREG, essencial em razão do quadro atual. Se não é desprezível a chance de degradação da confiabilidade, é prudente avisar a um conjunto de consumidores que poderão ser desligados para evitar o colapso do sistema. É isto que diz a providencial carta, que cita uma rotina que só serve nessas situações.

O ONS, no último programa mensal de operação, deu novos detalhes da gravidade dos cenários com o passar do tempo. A expectativa é que o nível de armazenamento no Sudeste, em 31 de agosto, atinja 21,4%. Ficaremos, já em agosto, a 11 pontos percentuais do mínimo esperado para fins de novembro, quando inicia o período de chuvas. A principal consequência é a explosão do custo marginal de curto prazo, que passou para quase R$ 2.600/MWh. Mais de 100% de aumento.

Ninguém liga para tal grandeza. Ela indica quanto custa o último recurso energético acionado para atender à carga. Como a tarifa média é R$ 600/MWh, em agosto o consumidor pagará pela eletricidade 4,3 vezes menos do que ela vale. Um claro e irracional incentivo ao uso de um bem severamente escasso.

Mas como sair do corner? A geração por hidrelétrica deveria ser reduzida para não mais que 22 GW médios, contra os 35 GW atuais, ou a produção de térmicas e eólicas, juntas, teria que ser elevada para 45 GW, duas impossibilidades. Não há saídas, assim, sem ações concretas do lado da demanda.

Complicou muitíssimo. O caminho ficou mais estreito e repleto de obstáculos. É como o ciclista de pista oval desafiado numa prova de 100 km, montanha acima com inclinação de 20 graus, com 150 kg às costas. Aumenta muito a possibilidade de chegar à marca final se eliminar grande parte desse peso.

Confio nos competentes técnicos do MME, ONS e da ANEEL. Espero que tragam em suas algibeiras soluções mais eficazes que o receituário ortodoxo, mas, insisto, o sarrafo foi elevado. Quase instransponível.

Mesmo crente na ciência, sigo a orar para o Anjo da Guarda, cuja data de celebrar é 2 de outubro. Mas sobra uma ladainha para Santo André, irmão mais velho de São Pedro, de quem lembro ao pensar na chuva. O dia de Santo André, a propósito, é festejado em 30 novembro.

Edvaldo Santana é doutor em engenharia de produção e ex-diretor da Aneel.
Artigo publicado também no jornal Valor.

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