Pedro Luiz Rodrigues

Precisamos de paz com a China

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Parecem faltar ao deputado federal Eduardo Bolsonaro – que já aspirou o cargo de embaixador em Washington e preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara de Deputados –as qualidades de equilíbrio e bom-senso recomendáveis para alguém com seu sobrenome e grau de responsabilidade.

Certamente não as exibiu, há dias, quando foi particularmente grosseiro com governo da China, responsabilizando-o pela pandemia do Covid19 e traçando paralelismo incongruente entre o episódio de Chernobyl e a pandemia. Tomou de volta uma resposta ríspida do Embaixador da China no Brasil.

Um deputado pode, é claro, falar ou tuitar o que lhe der na veneta. Mas quando, além de deputado, se é filho do Presidente, há óbvios limites em se fazer gracinhas com as palavras. Queira ou não, alcançarão o Bolsonaro presidente. Foi, aliás, o que disse o Vice-Presidente da República: se o nome do deputado fosse Eduardo Bananinha, não teria havido todo esse fuzuê. Mas como o sobrenome é Bolsonaro, declarações suas fazem pressupor o endosso do chefe do Executivo. Caso contrário, devem ser por este formalmente desautorizadas.

No Dia do Diplomata, em 2002, o então Chanceler Celso Lafer fez uma reflexão que deveria se tornar um mantra dos profissionais do ramo: “O poder da diplomacia é, em larga medida, o poder da palavra. Ela é o instrumento privilegiado de contato com a realidade de que dispõe o diplomata. Cultivá-la e dominá-la é, pois, cultivar e dominar a própria essência do fazer diplomático”.

O valor maior na política externa, é a defesa permanente do interesse nacional, do interesse do Estado e da Nação, e não de projetos políticos ou pessoais.  A diplomacia, que é o instrumento de atuação nessa esfera, funciona por intermédio do diálogo e da busca de entendimento; de seus agentes espera-se comportamento civilizado.

Quando percebia um subordinado irritando-se no trato de uma questão profissional, meu amigo o brilhante embaixador Marcos Azambuja costumava dizer: vá ao dicionário, meu filho, o releia o verbete Diplomacia. Não fosse pelo respeito ao verbete, toda reunião na ONU acabaria em socos e pontapés.

O embaixador da China em Brasília, Yang Wanming, cumpriu o seu dever e rebateu “o insulto maléfico contra a China e o povo chinês”, relembrando ao parlamentar sua qualidade como uma figura pública especial. Uma contra-nota foi emitida pelo Itamaraty.

Tenho acompanhado com atenção particular o noticiário internacional sobre a evolução do novo coronavírus, desde suas primeiras manifestações.   Há mais de um mês (quando no Brasil a grande preocupação era com o Carnaval que se aproximava), já havia observado, nesta coluna, ser digno de apreciação e respeito o modo como os chineses – governo e sociedade – vinham lidando com o gigantesco desafio viral.

Observei, também, que o esforço feito pela China em alguns casos não vinha sendo reconhecido, assumindo mesmo inaceitáveis características xenofóbicas. Naquela ocasião, agradeci aos chineses, como cidadão, a maneira adequada que nossos cidadãos – os que lá permaneceram ou os que preferiram ser trasladados ao Brasil – estavam sendo tratados.

É compreensível que tenha havido demora na constatação de que se estava diante de uma ameaça nova e não de uma reaparição dos coronavírus ‘comuns’ (229E e NL 63, OC43 e HKU1). A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) elogia os esforços da China, reconhecendo que o sistema global de detecção de epidemias não pode ser  instantâneo.

A China, onde a expansão da pandemia do novo coronavírus já foi debelada, tem se destacado recentemente pela rapidez e eficiência de sua assistência humanitária a países da Ásia, Oriente Médio e até mesmo da Europa.  A Itália já recebeu três equipes médicas completas, além de farto equipamento para o tratamento da doença. Com o Brasil e com o Distrito Federal a cooperação tem sido também intensa.

Pedro Luiz Rodrigues, diplomata e jornalista. Foi Secretário de Relações Internacionais do Governo do Distrito Federal.

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