Pois é. Resoluções de Ano Novo.

acessibilidade:

Resolvi tomar uma. Quero dar uma geral na minha, digamos, mesa de trabalho.

Andava a precisar. Tenho uma incorrigível propensão a acumular papéis. Entre outras coisas.

Lembrei que um dia inventaram um aparelho chamado Scanner. Pronto, não era da marca Tabajara, mas todos os meus problemas pareciam acabados. (Na verdade, os problemas não eram meus, mas da Tereza, que sempre sonhou manter sua casa limpinha e organizada.) Vinha até conseguindo. Mas, como diria Machado, a aposentadoria me devolveu plenamente a mim mesmo, com todas as minhas idiossincrasias.

O fato é que o Scanner me anunciou a ilusão do paraíso. Bastava escanear, gravar e arquivar digitalmente no computador os documentos e pronto. E jogava no lixo os papéis originais.

Ledo engano. A índole do acumulador repele a ideia de se desfazer dos seus guardados. Resultado: escaneei um montão de papéis, arquivei-os cuidadosamente numa pasta virtual e … voltei a guarda-los fisicamente.

Falando de mesas desarrumadas, impossível não lembrar da mesa do Barão do Rio Branco. O nosso patrono desenvolvia uma atividade profissional febril de pesquisar documentos e mapas. Tão febril que não lhe sobrava tempo para organizá-los. Há uma conhecida foto que registra o estado desorganização de seus papéis sobre a mesa.

Lembrei também de um colega, cuja mesa – em total obediência ao moto de que “a melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se” – seguia o exemplo do Barão. Tinha sobre a mesa uma série de montes de pastas de expediente criteriosamente arrumadas.

Havia as urgentes, as pendentes (subdivididas em Pendente I, Pendente II). Também Havia aquele monte de pastas batizadas de “Só o tempo resolve” e outras rotuladas de “Nem o tempo resolve”. E o colega ia levando a coisa a seu jeito, movendo as pastas de assuntos de um monte para outro à medida em que isso se fazia necessário. O que, aliás, quase nunca acontecia.

E aí lembrei também de uma vez em que eu servia provisoriamente na Embaixada em Lagos (Nigéria). Nesse tempo, sempre me chamou a atenção a desorganização da mesa de trabalho do Embaixador. O Chefe também era adepto do credo do Barão. Além de tudo fazia de sua mesa um grande cinzeiro para as cinzas dos charutos que fumava continuamente. Um dia o Embaixador deu uma escapadela a Londres. Durante sua ausência, ocorreu-me dar uma arrumada na mesa. Encontrei envelopes empoeirados que nunca tinham sido abertas. Fiz tudo como bom auxiliar, pensei. Ledo engano.

Ao chegar da viagem o Embaixador brindou-me com uma bronca espetacular.

Todas essas lembranças me levaram à resolução de dar um basta na minha bagunça. Tereza comemorou.

Mas, cá entre nós, da uma pena danada jogar fora aquelas cartas de amigos, recebidas do exterior (quando eu nem pesava em ser diplomata).

Ainda que escaneadas e arquivadas digitalmente.

Dante Coelho de Lima é diplomata.

Reportar Erro