Pão e circo

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Não faz muito tempo encontrei no respeitado jornal japonês Yomiuri uma notícia extraordinária: o governo de lá admitiu, humildemente, que os recursos públicos destinados à construção de obras não devem ser desviados para a realização de “shows”, confecção de propagandas e distribuição de brindes! É mesmo notável: descobriu-se que o importante é entregar a obra e ‘ponto final’.

Eis a notícia: “O Ministro dos Transportes e Obras admitiu em uma entrevista coletiva que cerca de 30% dos 9,6 bilhões de Ienes do orçamento de relações públicas foram gastos em projetos que provaram ser inúteis ou irrelevantes para a construção de obras. Os projetos incluíram patrocínio de shows, concertos, festivais, CDs e panfletos”. Transcrevo as palavras de um dos responsáveis: “Nós não deveríamos gastar o dinheiro dos contribuintes em projetos cuja efetividade seja discutível”.

Este episódio, apesar de seus contornos lamentáveis, traz lições notáveis ao Brasil. Aqui, segundo dados de 2005, o total de investimentos apenas em propaganda dos governos federal, estaduais e municipais somou espantosos R$ 907 milhões. Transcrevo parte de reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo sobre o ano seguinte: “os gastos com propaganda estatal federal passaram de R$ 1 bilhão. O valor divulgado não inclui gastos com publicidade legal (editais e balanços), custos de produção de comerciais nem patrocínios concedidos por empresas estatais”. Li que em 2013 chegamos a R$ 2,3 bilhões. Em 2019 a um orçamento de R$ 941 milhões apenas para a comunicação social.

Agora reflita: o Japão é um país rico, dono de um parque industrial fabuloso que o coloca na posição de 3º Produto Interno Bruto do mundo. O Brasil luta para sair do subdesenvolvimento, em uma trajetória penosa que ainda inclui auxílio governamental para que milhões de seus filhos possam simplesmente comer. No Japão a verba de relações públicas anunciada na notícia foi de 9,6 bilhões de Ienes (algo em torno de R$ 370 milhões). No Brasil, em 2005, apenas um grande banco estatal brasileiro gastou quase isso, e somente em propaganda (acentuo uma vez mais: sem contar patrocínios diversos que lá foram incluídos).

Diante deste quadro talvez fosse o caso de recordarmos Benjamim Franklin, quando dizia que “bem feito é melhor que bem dito”.

Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

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