Silvia Caetano

O naufrágio moral da União Européia

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Lisboa – Em 2015, a Chanceler Angela Merkel advertiu que se a Europa falhasse na questão dos refugiados, haveria a destruição da sua relação íntima com os direitos humanos universais. E então abriu as portas da Alemanha a mais de um milhão de pessoas que fugiam dos horrores da guerra e da perseguição política no Oriente Médio. Foi duramente criticada por seus pares na União Europeia, que classificaram sua generosidade como uma ameaça ao estilo de vida europeu e ao próprio Continente, revelando sua preocupação com a segurança em detrimento das questões humanitárias, política que persiste até hoje.

As previsões não se confirmaram. Ao contrário disso, o processo de integração adotado na Alemanha para acolher os refugiados e imigrantes vem ocorrendo normalmente, com metade das pessoas já empregadas. O país tem escassez de mão de obra, com cerca de 1,2 milhões de postos de trabalho vagos, sobretudo para enfermeiros, operários da construção civil, informáticos e motoristas para transportes públicos, entre outras funções. O governo alemão sabe que sua estabilidade política depende de um acordo comum na União Europeia para equacionar os problemas dos deslocados de seus países e tem tentado concretizá-lo, sem despertar o interesse dos seus parceiros europeus.

Fundada com base em valores para garantir os direitos humanos, chegou a hora da prova dos nove para a União Europeia. Ou fará valer sua Carta dos Direitos Fundamentais ou entrará em falência moral. O desafio do clube dos 27 será aprovar um acordo comum de asilo, com a divisão das responsabilidades entre todos os Membros do Clube, para oferecer condições dignas de vida aos milhões de refugiados e imigrantes. Até agora, além de rejeitá-los, bateram com a porta nas suas caras, lacrando as entradas da Europa, enquanto milhares, entre crianças, mulheres e idosos, são maltratados e confinados em campos chamados de acolhimento, onde padecem sob indecentes condições de vida.

No momento, a UE está apenas preocupada com a desinfecção das mãos. No último final de semana, a Presidente da Comissão Europeia, Úrsula Von der Leyen, foi à Grécia e à Bulgária, mas para avaliar os estragos que o coronavírus anda fazendo por aquelas bandas. Ontem, destinou 25 bilhões de euros para enfrentar o problema. Sobre os deserdados da sorte, nenhuma providência.A União Europeia porta-se como se já tivesse cumprido seu papel quando,em março de 2016, contratou,por seis bilhões de euros, o ditador da Turquia,Recep Tayyip Erdogan ,para exercer o papel de porteiro de fronteiras,bloqueando o fluxo migratório e acolhendo refugiados sírios.

Com tal volume de dinheiro, a União Europeia apenas comprou consciências e tempo ao ditador turco, sem preparar qualquer solução para o problema. A UE nunca teve uma política comum para os refugiados e imigrantes. Erdogan sabia disso então e,como mafioso experiente,aceitou o trato porque compreendeu que ,ciclicamente, chantagearia os líderes europeus,ameaçando abrir a porteira e,dessa forma,angariar mais recursos financeiros.Agora,cumpriu a ameaça.O sinal foi dado e milhares de pessoas desesperadas tentaram atravessar as fronteiras da Grécia e da Bulgária em direção ao sonho Europeu.

O novo stopim foi detonado porque forças governamentais apoiadas pela Rússia, em Idlib, lançaram uma ofensiva militar contra os rebeldes apoiados por Erdogan, matando militares turcos e impulsionando outro êxodo de sírios para a Turquia. Desesperado, o ditador turco buscou apoio no Ocidente para safar-se, mas nada conseguiu. Depois de ter tentado encarnar o papel de um novo líder otomano, de atacar os curdos, aliados do Ocidente e de comprar armas a Putin, Erdogan deve ter alucinado pensando que conseguiria apoio de Trump, da OTAN ou da UE. Derrotado no plano militar e isolado diplomaticamente, partiu para a chantagem. Deixou vago o cargo de porteiro

Para agravar ainda mais a situação, a Grécia fechou suas fronteiras, suspendeu a Convenção de Genebra e advertiu que não mais aceitaria pedidos de asilo. Repetiu-se o drama humanitário, com o enfrentamento violento dos civis e policiais gregos com os deserdados da sorte. Como sempre preocupados com a segurança das suas fronteiras, dirigentes europeus fizeram ar de paisagem, limitando-se a advertir que não aceitavam a decisão de Erdogan e adotando um discurso de elogios aos gregos, destacando que sua fronteira era a da União Europeia.

Ou seja, correram a prestar solidariedade à Grécia, não aos refugiados. Ursula Von der Leyen disse que “a Grécia é nosso escudo europeu.” Contudo, é bom que os gregos não se esqueçam de como esta mesma instituição os humilhou e os arruinou no passado, durante o governo de Syriza, Tsipras e Varoufakis, com uma terrível política de austeridade.

Com a bola baixa, Erdogan voou para Bruxelas tentar renegociar o acordo de 2016, processo que está em curso. Contudo, se a União Europeia continuar com sua atual política de subornar países do outro lado para barrar refugiados em fuga para a Europa, sem obrigar os 27 Estados Membros a respeitarem sua Carta dos Direitos Fundamentais, cujos fundamentos e objetivos são a defesa dos Direitos Humanos, poderá haver maior divisão interna e desestabilização política na União Europeia. Seu desafio agora é escolher entre adotar soluções efetivas e urgentes de assistência humanitária ou naufragar moralmente.

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