O muro que não separa

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Mandamos nossos filhos para a escola porque sabemos – longe de qualquer controvérsia – que a educação é o único mecanismo, de fato efetivo, para transformar a vida das pessoas para melhor. Sabemos que com a educação aprendemos ofícios que nos permitem trabalhar e garantir nosso sustento com dignidade e mesmo com prosperidade. Todavia, o mais importante – pelo menos deveria sê-lo – é saber que com a educação passamos a entender e analisar o mundo que nos cerca com melhor propriedade, sem sermos tangidos e manipulados, alvos fáceis de fake news que graças às redes sociais se alastram com intensidade e rapidez cada vez maior.

Deveríamos estar cientes, também, de que governos autoritários, apoiados por extremistas ideológicos, tanto de esquerda quanto de direita, que tiram partido da democracia para controle da massa ignorante com o objetivo de usufruírem e se manterem no poder a qualquer custo não gostam, não admitem, não toleram pessoas educadas, capazes de pensar, analisar e refletir sobre o mundo que as cerca. E aí reside nosso histórico atraso civilizatório.

Quando à frente da reitoria da UNIFEI decidi que o muro que passou a compor a nova entrada da universidade fosse pintado com personalidades da educação, ciência, tecnologia e empreendedorismo, de tal forma inspirar nossos jovens e nossa comunidade com esses exemplos de vida. Com isso imaginei que o respeito à diversidade, seja ela de gênero, etnia e – por que não? – formas de pensar pudesse, também, resultar desse belo trabalho de arte.

Durante muito tempo disse orgulhosamente que este talvez fosse o único muro do mundo que não separaria, mas uniria, pois que lá estão desde baluartes da ciência até humildes funcionários públicos. De fato, lá estão uma mulher estrangeira (Johanna Dobereiner) que adotou o Brasil como pátria e com isso contribuiu para que o Brasil seja uma potência agrícola; um jovem cientista que poderia ter ganho o prêmio Nobel (César Lattes); sanitaristas (Oswaldo Cruz e Vital Brazil) que, caso estivessem vivos, teriam auxiliado para que – quiçá – não tivéssemos mais de meio milhão de mortes nesta tão mal administrada pandemia; lá estão educadores (Darcy Ribeiro e Paulo Freire) que entenderam que os extratos mais pobres e ignorantes da sociedade também precisam de educação de qualidade; lá estão a primeira universitária negra (Enedina Alves) do Brasil, assim como militares (Almirante Álvaro Alberto e Marechal Casimiro Montenegro) que foram além da honradez de suas fardas ao criarem instituições de ciência e tecnologia como o CNPq e o ITA, berço da Embraer. No muro da Universidade Federal de Itajubá, também, estão professores que dedicaram suas vidas à nobre arte do ensino (Richard Bran e Antônio Rodrigues de Oliveira). Não há, portanto, como alguém do “alto da sua sabedença” (como diria Guimarães Rosa) instigar outros para arrancar do muro essa ou aquela personalidade. Hoje apontam o educador Paulo Freire, amanhã será a vez do professor Aureliano Chaves, Anísio Teixeira ou do Visconde de Mauá? Não tem sentido, não tem razão.

São tantos os que lá estão, orgulhosamente perfilados para a posteridade. Vale a pena conhecê-los e que no futuro tenhamos mais muros, não para dividir, mas para ilustrar com outras personalidades deste nosso tão criativo e desigual país. Quem sabe dessa forma, as novas gerações poderão ser inspiradas por esses formidáveis exemplos de vida.

Que o muro da UNIFEI permita a todos refletirem que lá está um pouquinho de todos nós.

Dagoberto Alves de Almeida ex-Reitor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) nos mandatos 2013-16 e 2017-20, professor titular de Gestão da Unifei, graduado em Engenharia Mecânica pela Unifei, mestre em Engenharia de Produção pela Coppe-UFRJ e PhD em Manufacturing System Engineering pela University of Cranfield – UK.  Artigo publicado originalmente no site Chumbo Gordo.

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