Mais Lidas

acessibilidade:

Marcílio Marques Moreira, 90 anos

Ex-embaixador do Brasil em Washington e ex-Ministro da Economia, Fazenda e Planejamento no governo de Fernando Collor, Marcílio Marques Moreira completa nesta quinta-feira (25) seu nonagésimo aniversário. Mas, mais do que o que tenha realizado nessas duas altas funções – e que não foi pouco -, o que se deve comemorar hoje é uma longa vida dedicada a entender as circunstâncias cambiantes da realidade, seja a nacional ou a internacional, e apontar caminhos e soluções para os complexos problemas que nos afligem.

Vale, para nos referirmos à época que vai de meados da década de 1950 – quando Marcílio Marques Moreira ingressou no Itamaraty-, até hoje, o mesmo comentário que fez ele sobre a época de San Tiago Dantas: “um período que, como todos os momentos de transição, apresentava forças rapidamente cambiantes, aspecto os mais variados, sinais muitas vezes contraditórios”. Está atualíssima, também, a parte final dessa reflexão, quando disse (sobre San Tiago) “que a maioria dos dilemas sobre os quais se debruçou, muitos dos impulsos que interpretou, não poucas dúvidas que o atormentaram, continuam vivos na sociedade de hoje, de modo que o contexto social em que se situava, em vários de seus setores mais importantes, ainda coincide com a problemática brasileira de nossos dias’.

Conheci-o em 1971, há exatos 50 anos, quando, como repórter da editoria de Economia do Jornal do Brasil, acompanhei palestra que deu sobre a situação econômica do Estado da Guanabara e a hipótese (concretizada em 1974, pela Lei Complementar número 20, e efetivada em 15 de março de 1975) da fusão do Estado da Guanabara com o antigo Estado do Rio de Janeiro.

Havia, então, já um ano que tinha a vontade de conhecê-lo pessoalmente, em razão do artigo que escrevera para a edição de 1970 da Revista Econômica, que o JB editou anualmente no período do chamado “milagre econômico”. Esse artigo, intitulado ‘Mercado Financeiro e Segurança Nacional”, vazado em linguagem inacessível à percepção da censura, fora bastante corajoso para uma época onde discordar era arriscado.

Nesse artigo, salientava Marcílio que mais importante para o desenvolvimento do que o acúmulo de capital ou o avanço tecnológico, era “a confiança da sociedade no futuro do País e a consequente determinação de torná-lo realidade”.  Nenhum governo da história, pontuou ‘resistiria a uma súbita retirada de apoio de todos os seus governados”. Recado mais direto aos detentores do poder à época, impossível.

– Acreditamos no mito de grandeza desta terra e deste povo; este é o caminho mais direto para a consecução de todas suas potencialidades. A história nos mostra que o possível só foi atingido por aqueles que aspiravam ao impossível. Guardemos os pés no chão, mas marchemos com a cabeça erguida, escreveu então.

Foto ao lado do presidente Ronald Reagan, com direito a dedicatória assinada.

Não há nada que Marcílio mais abomine do que a insensatez, aquela a que se refere Barbara Tuchman em seu livro ‘A Marcha da Insensatez”, quando, depois de apresentar diversos exemplos históricos, indaga das razões que levam governantes a tomarem decisões que resultarão prejudiciais a si mesmos e às sociedades que governam. Marcílio, por sua vez, manifestou seu pasmo sobre “o quanto líderes e povos podem desviar-se para caminhos que os arrastarão à própria ruína, embora existam alternativas viáveis a tomar, e vozes suficientemente lúcidas para avisá-los dos perigos iminentes”.

Marcílio tem procurado ser uma dessas vozes lúcidas, a buscar introduzir racionalidade e bom-senso nas reflexões e atos dos agentes da sociedade e, em particular, dos governamentais. Foi uma voz que começou a se manifestar a partir de 1966, quando deixou para trás as riquíssimas experiências profissionais e pessoais – como secretário na Embaixada em Washington (entre 1957 e 1963), como assessor no Ministério da Fazenda, de San Tiago Dantas (1963) e no BNDE (1963 a 1966) –  e foi trabalhar com o governador Negrão de Lima, primeiro na Copeg (Companhia Progresso do Estado da Guanabara), depois na Codesco (Companhia de Desenvolvimento das Comunidades).

No final de 1967, a imprensa cobriria seu discurso emocionado, ao anunciar a criação da Codesco, que presidiu, e que inovaria no tratamento das comunidades faveladas, evitando remoções e promovendo a reurbanização, do que Brás de Pina foi modelo. Os planos de Marcílio não prosperaram. O governo federal criou a os  recursos de financiamento com que contava a empresa estadual.

Foi nesse momento, escreveu Marcílio, “que tive a aguçada percepção da ‘questão social’ para a qual me despertara a tia Edith (irmã de sua mãe), que há quarenta anos fundara uma obra social, que até hoje (1985) dirige no bairro operário de Vila Maria (SP)”. Foi essa percepção que fê-lo soltar a voz, dar entrevistas e escrever artigos.

Os planos de Marcílio não prosperaram, porque o governo federal, com a criação da CHISAM (Coordenação de Habitação de Interesse Social do Grande Rio), com postura ‘remocionista’, acabou por retirar a autonomia (e os recursos) do órgão do governo estadual.

Marcílio promoveu, então uma guinada em sua vida, e assumiu, no final de 1968, uma vice-presidência do Unibanco, cujo presidente, Walther Moreira Salles, fora seu embaixador em Washington. Mas a nova função nunca lhe embargaria o cérebro ou a voz.

Em março de 1970, produziu o artigo corajoso a que acima me referi.

A partir de 1975, ficaria mais contundente: “O que se sente, porém, é que o regime, embora bem sucedido numa fase, acabou se transformando num passivo oneroso para a sociedade.” Em maio de 1975, em artigo no Globo (da série “Brasil numa hora de mudança”), escreveu: “(…) o regime, embora bem-sucedido numa fase, acabou se transformando num passivo oneroso para a sociedade”.

Em 25 de setembro de 1975, um raríssimo registro de Marcílio numa coluna social, a do Zózimo Barroso do Amaral, onde declara que  “Marcílio Marques Moreira é um notório sambista…”. Realidade ou ironia? Não sei até hoje…

Em 1976 e 1977, os títulos das matérias revelam seu conteúdo ousado para a época: “Marcílio pede liberdade sindical”, ou  “Banqueiro perde abertura, já!” – e isso em seminário organizado pela Fundação Milton Campos, da Arena, partido que apoiava o regime militar!

Com a economista e deputada Conceição Tavares, do PT.

O Estadão produziria um vigoroso editorial sobre essas declarações de Marcílio: “Quem se entusiasmou pela proeza ambígua do regime brasileiro, conseguindo a estabilidade social enquanto deixa arrastar-se indefinidamente a instabilidade institucional, pode preparar-se para pagar bem cedo o preço dessa euforia inconsiderada:  inabalável, o regime tornou-se também sem atrativos. Sobre o hiato das gerações modela-se um vazio de poder porque as gerações emergentes voltam as costas à política, embora cultivem uma vocação política”.  Foi o que Arena (partido governista) acabou de ouvir, sem meios tons, do diretor do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Rio de Janeiro, professor Marcílio Marques Moreira, em seminário promovido pela Fundação Milton Campos.”

Nos anos seguintes, Marcílio baterá sistematicamente nas mesmas teclas, cujo resumo ele mesmo ofereceu: “ a exigência que se coloca hoje, no Brasil de repensar, de reformular e reorientar o arcabouço institucional e político, é essencialmente endógena, não vem de fora para dentro, nem da constatação de um fracasso.  O próprio atingimento das metas tornou obsoletas políticas de 15 anos atrás”.

Em página inteira, com diversos entrevistados, o Globo publicou, em 22 de abril de 1979, a matéria ‘O que é a Democracia?’  Marcílio Marques Moreia alinhou o que considerava mais desejável uma democracia que, expressando os anseios de toda a sociedade respeitasse as seguintes regras:

 1 – quanto aos princípios, seriam hauridos da tradição cristã, ocidental, assim como no nosso patrimônio cultural, englobando os valores da liberdade, dos respeito aos direitos humanos de igualdade, paz e justiça, e

2 – quanto às origens, derivaria da vontade geral, não só enquanto expressa em eleições periódicas, mas também através de processo de comunicação constante, que abriria os canais para o povo exprimir seus anseios mais profundos.

“Isso significaria o regime de opinião pública, de coparticipação de todos nas grandes decisões nacionais e de pluralismo associativo que asseguraria uma descentralização de fato dos processos de decisão e execução”, concluiu.

Um dos problemas mais sérios do Brasil, diz-nos Marcílio, é o que San Tiago Dantas chamava de “inatualidade nacional”, a falta de atualidade cultural, científica, tecnológica, política.  “Enquanto as coisas acontecem, perdemos tempo discutindo, através do espelho retrovisor, pequenos problemas. (…) Parece que optamos livremente pela discussão dos detalhes, das mesquinharias, e nos esquecemos dos ‘grandes desenhos’, dos objetivos maiores da sociedade”.

Em agosto de 1984, Tancredo Neves foi efetivamente lançado candidato à presidência da República, pela coligação opositora Aliança Democrática, formada pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e por dissidentes do Partido Democrático Social (PDS), agremiação governista, abrigados na Frente Liberal. Marcílio fez-lhe, então, a entrega de um profundo estudo sobre o tema da dívida externa brasileira.

Em fevereiro, às vésperas da esperada posse de Tancredo Neves na Presidência da República, escreveu no Estadão: “Politicamente, caberá ao governo levar a bom termo a passagem do processo de liberalização para o da democratização, especialmente através de novo diploma legal que institucionalize os avanços políticos em sintonia com os anseios da Nação e as realidades de novos tempos. A Constituição deverá ser o fio condutor da ‘obra a realizar’, nos anos e décadas a vir”.

Com meu deslocamento para Brasília, em 1973, e depois, do Jornal do Brasil para O Estado de São Paulo – Jornal da Tarde, e depois, de lá para o Itamaraty, praticamente perdi contato com Marcílio. Só voltaria a reencontrá-lo em Washington, em 1986, eu como segundo secretário (responsável pelas áreas de promoção comercial e de imprensa) ele como Embaixador. Assessorei-o depois, também, no ministério da Economia, Fazenda e Planejamento.

Sua capacidade profissional associada à honestidade intelectual e pessoal – levou-o a ser embaixador em Washington (em 1986) e a ministro da Economia, Fazenda e Planejamento, em 1991. Muitas histórias existem a ser contatadas sobre essas etapas.

Pedro Luiz Rodrigues é jornalista e Embaixador de carreira aposentado. Antes de ingressar no Itamaraty atuou, na década de 1970, na grande imprensa brasileira (Jornal do Brasil, Jornal de Brasília e Estado de S. Paulo). Deste último, foi diretor da sucursal de Brasília. No governo atuou porta-voz do Itamaraty, de Marcílio (na Embaixada em Washington e no Ministério da Economia) e de dois ministros da Fazenda (Ernane Galvêas e Pedro Malan). Foi nomeado subsecretário de imprensa do Presidente Tancredo Neves, secretário de imprensa do presidente Fernando Collor e diretor internacional da Presidência do Senado FederaL. No setor privado, foi sócio da Flecha de Lima Relações Institucionais e diretor de comunicação da Febraban. Integra o Conselho Consultivo da Campo e escreve regularmente no Diário do Poder.