Silvia Caetano

Escola para combater o racismo (2)

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Lisboa – O racismo deve ser combatido no início da formação escolar das crianças. Nessa fase, o corpo docente dos estabelecimentos de ensino precisa estar preparado para habilitar os jovens com valores e competências para a construção de uma sociedade mais justa e democrática, centrada na pessoa, na dignidade humana e na ação sobre o mundo enquanto bem comum.

A experiência vem sendo tentada em alguns países, como nos Estados Unidos, embora ainda sem grande expressão. Mais recentemente, após o assassinato de George Floyd, asfixiado por um policial norte-americano, pais de alunos de escolas brasileiras de elite mobilizaram-se com o mesmo objetivo. Eles não querem que seus filhos sejam racistas como Bolsonaro e Mourão, que negam a existência dessa nódoa na sociedade brasileira.

O movimento antirracista vem crescendo no mundo. Em Portugal, o governo socialista reconheceu ser preciso avançar com novas armas na batalha contra a discriminação de pessoas de outras etnias. No último dia seis de novembro, o Conselho Nacional e Educação de Portugal aprovou, por unanimidade, a implementação de 12 diretrizes no Ensino Básico e Médio para combater o problema.

A ação não se limitará às salas de aula. A partir de agora, as escolas portuguesas reforçarão as políticas públicas para enfrentar não somente a exclusão e a pobreza desses jovens, mas também a sua discriminação. A educação em Portugal, que já é boa e de qualidade, vai sofrer profundas modificações curriculares para oferecer uma visão abrangente e não etnocêntrica desses vergonhosos fenômenos .

Será implantado um programa nacional de educação antirracista e para os direitos humanos. Professores e funcionários receberão treinamento contínuo para apoiar a nova estratégia educacional. A ideia do governo é aprimorar o sistema de educação para garantir que crianças e jovens de todas as origens tenham acesso a ele e sejam totalmente integradas ao universo escolar. A estratégia visa impedir, além da segregação de crianças de outras etnias, os riscos de seleção social e as desigualdades no acesso aos diferentes cursos, do ensino básico ao superior.

Especial atenção será dada tanto às disciplinas que abordam figuras e acontecimentos históricos quanto às questões sobre a diversidade sócio-demográfica. A historia do país e do mundo será contada tal como se desenvolveu, sem minimizar crueldades cometidas por falsos heróis ligados à escravatura e ao colonialismo. Não por acaso, diversas estátuas de alguns desses – até então ídolos – foram removidas em alguns países pelos próprios governos por pressões da sociedade. Pichadas, desfiguradas e derrubadas, já não estão em praça pública.

Não é necessário ser especialista para perceber a situação do sistema público educacional brasileiro, com professores mal remunerados, escolas degradadas e falta de investimentos. Além do crescente aumento do abandono, do insucesso e das dificuldades na progressão escolar das crianças negras, pardas e mais pobres.

É visível que os trajetos desses jovens são irregulares, marcados por mais reprovação e desempenhos negativos, enquanto esmagadora maioria é encaminhada para vias profissionalizantes porque não lhes são concedidas as mesmas oportunidades dos brancos mais ricos.

Houvesse vontade política dos governantes estaduais e municipais no Brasil, sob cuja responsabilidade encontra-se o ensino básico – portanto um pouco mais distanciados do bolsonarismo de Brasília – programa semelhante ao português poderia ser adotado, iniciando-se um novo ciclo na formação dos jovens brasileiros. Mas a julgar pela campanha municipal, ainda estamos longe desse patamar de civilidade.

Talvez seja esperar demais que governantes, dirigentes, líderes e parlamentares brasileiros olhem a escola como ambiente único para iniciar a formação das crianças para o futuro. Esta é a primeira e única oportunidade para isso. Se for perdida, restará um país onde os Betos Freitas são assassinados por seguranças brancos em frente ao olhar inerte e emudecido dos que assistiram ao crime sem nada fazer.

A escola brasileira e seu corpo docente precisam ser preparados para exercer um papel transformador, mobilizando a sociedade para avançar em direção à democracia, justiça e equidade. Sem o que o Brasil continuará esse país dirigido – pois não se pode falar em governar, que é algo diverso e digno – por um capitão ignóbil, apoiado por militares de pijama.

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