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É assim mesmo?

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Nós assimilamos como normais os elevados índices de violência que nos flagelam e envergonham. Passamos a culpar as vítimas, que, afinal, “deram bobeira”. Assim agimos porque “isso é assim mesmo”.

Já não nos revoltamos com a impunidade. Ela passou a nos ser apenas algo desagradável aos sentidos, mas que “é assim mesmo”.

Nos habituamos ao desprezo cotidiano enquanto consumidores. Da qualidade sofrível de alguns produtos às indenizações frequentemente ultrajantes, vamos nos resignando. Afinal, “isso é assim mesmo”.

Com frequência danificamos nossos veículos e nossa saúde por conta do péssimo estado de nossas vias e calçadas. Suportamos quase sempre em silêncio os prejuízos sofridos. Claro: “isso é assim mesmo”.

Dormimos mal – ou mesmo não dormimos – por conta da barulhada produzida a poucos metros das janelas de nossas casas. Já não reclamamos. Não adiantaria, pois “isso é assim mesmo”.

Nossa cidadania vai indo para o ralo por conta da péssima qualidade da maioria dos serviços públicos sustentados pelos impostos que pagamos. Fazer o que? Ora, “isso é assim mesmo”.

Enfrentar este quadro é preciso, antes que ele destrua nosso país. Mas como fazê-lo? Há os que, com a paciência esgotada, reagem da forma possível pelo cotidiano afora. Pouco conseguem. Acabam rotulados como “criadores de caso”. E a vida segue!

Humildemente sugiro caminho outro, qual o da máxima vigilância, pela sociedade civil organizada, sobre os agentes encarregados de defender a cidadania. Sim, os agentes – e não os órgãos aos quais pertencem. Diversamente daqueles, estes não tem rosto. Não sentem a dor da responsabilização civil e criminal. Não sejamos, pois, inimigos de órgãos ou instituições, mas dos maus profissionais que as integram – não desestimulando seus bons agentes.

Eis aí, talvez, o caminho a ser trilhado: através das organizações civis irmos além das pessoas jurídicas, buscando a responsabilização administrativa, civil e criminal das pessoas físicas que, por omissão ou covardia, impõem ao Brasil uma triste rotina.

Nosso país já dispõe de um razoável suporte institucional para tal. Apenas razoável, mas suficiente para proporcionar muita “dor de cabeça” aos agentes públicos que insistem em não compreender a grandeza de seus cargos, deles colhendo homenagens ao invés de homenageá-los.

Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

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