Controle de preços, a nova arma contra inflação

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A inflação é o monstro que todos os países temem.

Trocando em miúdos, ocorre quando uma família precisa gastar mais dinheiro para manter o mesmo poder de compra que tinha no período anterior.

Para combate-la são usadas várias teorias.

Uma delas – o controle de preços – é demonizada pelos defensores do mercado aberto e do estado reduzido.

Neste contexto, surge uma nova tese de combate à inflação, até hoje não considerada.

A economista Isabella Weber, professora da Universidade de Massachusetts Amhesrt, sugeriu, em artigo no jornal “The Guardian” (2021), que talvez uma solução devesse ser, controlar os preços.

Ela foi cirúrgica: “Se não gostamos do que os preços estão fazendo, vamos controlar os preços”.

Weber usou uma metáfora: se sua casa está pegando fogo, você não gostaria de esperar até que o fogo acabe morrendo. Também não deseja destruir a casa inundando-a. Um bombeiro habilidoso apaga o fogo onde ele está queimando para evitar o contágio e salvar a casa.

O mundo acadêmico e empresarial desabou sobre ela, sendo pichada e combatida.

Paul Krugman, economista norte-americano, vencedor do Nobel de Economia de 2008, chamou-a de “verdadeiramente estúpida”.

Entretanto, depois pediu desculpas à pesquisadora e reconheceu que já houve experiências bem-sucedidas com o controle de preços no combate à inflação.

Desde Hamurabi, na Babilônia, discutem-se alternativas de combate a esse fenômeno econômico.

A economia ensina que os preços são importantes sinais de mercado.

Preços altos podem ser um agravante para os consumidores, mas sinalizam para os produtores a oportunidade de lucro.

Após a pandemia, a inflação tem sido ameaça constante em todo o mundo.

Até a Alemanha, país com tradicional estabilidade econômica, entrou em recessão técnica no primeiro trimestre de 2023, com a queda da demanda na indústria, inflação e taxas de juros elevadas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Roosevelt impôs rígidos controles de preços.

Diante de resultados positivos, alguns economistas americanos pediram a continuação dos controles de preços.

Isso incluiu nomes como Paul Samuelson, Irving Fisher, Frank Knight, Simon Kuznets, Paul Sweezy e Wesley Mitchell, além de 11 ex-presidentes da Associação Econômica Americana.

As razões que apresentaram para o controle dos preços também se aplicam à nossa situação atual.

Eles argumentaram que, enquanto os gargalos impossibilitassem a oferta de atender à demanda, os controles de preços de bens importantes deveriam ser mantidos para evitar que os preços disparassem.

O czar dos controles de preços em tempos de guerra, John Kenneth Galbraith explicou que “o papel do controle de preços” seria “estratégico”.

Isabella Weber fez um grande trabalho de campo na China, para esclarecer por que os chineses haviam conseguido evitar os erros que foram cometidos, por exemplo, na Federação Russa com a dissolução da União Soviética e os outros Estados pós-soviéticos.

Concluiu que na longa história da China, a estabilização dos preços básicos tem sido importante fonte de estabilidade para o Estado.

No período de Mao Tse-tung foi mantido um sistema de controle de preços, semelhante ao da experiência americana.

Atualmente, a ideia apresentada por Isabella Weber pode ser taxada de tudo, menos radical.

O seu crime havia sido atingir o coração da ortodoxia econômica do livre mercado.

Weber sugeriu que os formuladores de políticas deveriam aprender com o passado e fazer algo diretamente sobre a alta dos preços, em vez de tentar soluções como desacelerar a economia, reduzir juros, promover demissões em massa e paralizar as pesquisas, que podem levar ao risco de uma recessão.

Muito do que Isabella Weber argumenta está sendo aplicado em alguns países, inclusive Estados Unidos.

Hoje procurada pelas principais economias industriais como conselheira, ela confessa que houve recuo das pressões contrárias dos lobbies privados contra um programa bem-sucedido de controle de preços.

A razão desse recuo é que as empresas sabem que podem ganhar dinheiro aumentando seu volume, mantendo os empregados, para garantir que vendem os seus produtos, com uma margem de lucro modesta, mas sustentável.

Pelo visto, a economia global passa por revisões de teorias e princípios, até então tidos imutáveis.

Porém, para implantar a nova política (no caso a teoria de Weber), os governos terão que ser independentes e não sofrerem influencia dos grandes aglomerados econômicos

As ideias sensatas só prevalecerão, se houver coragem para adotar uma mudança de orientação na política econômica dos países.

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br

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