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Bolsonaro, o GPS e o biruta

Quem está no mercado financeiro sabe que o cenário é desafiador para a economia mundial. Há gargalos nas cadeias produtivas, a inflação está acima da meta na maioria dos países, o desemprego ainda muito elevado (com poucas exceções) e a variante Delta mina a confiança de produtores, investidores e consumidores com relação à retomada econômica. Ou seja, mesmo fazendo tudo certo, com senso de responsabilidade, os desafios são grandes. Então, neste contexto, imagine um presidente que, em vez de atacar e buscar resolver os problemas reais que afetam a sua população e/ou economia, resolve combater problemas imaginários: a liberdade de expressão, ameaça comunista, risco de fraude na urna eletrônica, necessidade de armar a população etc. Bem-vindo ao Brasil!
Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro insistia que não sabia de economia e delegaria toda a formulação de política econômica para o seu “Posto Ipiranga”. Paulo Guedes, economista com PhD em Chicago, com ligações com colegas que trabalharam na ditadura Pinochet, parecia um oásis liberal depois do deserto que foi a recessão de 2015-2016 do governo Dilma. Além disso, após a eleição, o poderoso juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, aceitou o convite para ser ministro da Justiça, tendo a promessa de também ter carta branca. Apesar de ter sido um político folclórico, para dizer o mínimo, Bolsonaro era percebido como uma pessoa sincera, sem escaramuças, que não tentava enrolar, e era direto. Ao mesmo tempo, ele indicava que sabia de suas limitações e que iria delegar as principais políticas aos seus (até então) superministros.
Logo no início do governo, foi revelada uma investigação de um esquema de “rachadinha” no gabinete do filho 01, Flávio Bolsonaro, quando ele era ainda deputado estadual. A partir daí, todas as decisões de Bolsonaro, no campo da justiça foram sendo minadas. Culminando na tentativa de intervenção na Polícia Federal (PF) e saída do próprio ministro Moro, passando pela indicação do Augusto Aras para a Procuradoria Geral da República (PGR), que o ex-juiz não aprovava, mas que se mostrou muito solícito ao presidente. Apesar da queda da bandeira da luta pela corrupção, o mercado reagia positivamente nos dias em que Bolsonaro se fortalecia.
Do lado econômico, bem ou mal, 2019 foi um ano excelente ao se aprovar a reforma da previdência. Entretanto, a reforma administrativa ficou emperrada. A Câmara dos Deputados e o Senado avançam com suas reformas tributárias, mas Paulo Guedes desconversa e tenta desenterrar uma CPMF que “não é CPMF”. Chega a pandemia e as reformas são deixadas de lado, o auxílio emergencial e outras medidas contra a crise ajudam a amortizar a queda da economia, mas o que destoa do resto do mundo é o discurso que a covid-19 era uma “gripezinha” e que todos deveriam voltar ao normal. Essa reação do presidente, aliada à demissão do elogiado ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez com que muitos investidores percebessem que tínhamos uma pessoa na presidência imprevisível, para não dizer irracional. O real sofreu muito com a início da pandemia, mas a maioria das moedas emergentes voltaram a um valor próximo ao nível do início de 2020. O real foi a moeda emergente que mais se desvalorizou contra o dólar.
Essa desvalorização do real potencializou o choque do preço das commodities na nossa inflação. O real que costumava se valorizar junto com as commodities, ficou para atrás, impactando a nossa inflação doméstica. Sem perspectivas políticas de se fazer reformas econômicas que controlassem os gastos públicos ou o sistema tributário, o Banco Central se viu obrigado a subir a taxa de juros para evitar que um maior repasse aos preços internos. E esses juros mais altos começaram a reduzir as expectativas de crescimento para esse ano e no próximo, que é ano de eleição.
O PIB vem demonstrando que o ritmo de crescimento caiu de +1,10% no primeiro trimestre desse ano para -0,10%. E o desemprego está teimosamente acima de 14%. E apesar de todos estes problemas reais, Bolsonaro decide reunir multidões pelo país para declarar que não cumprirá determinações judiciais do ministro do STF, Alexandre de Moraes, que o investiga em vários processos.
Assim, a maioria dos agentes do mercado financeiro achava que o governo Bolsonaro fosse um moderno aparelho GPS (Sistema de Posicionamento Global, em português), mostrando claramente e racionalmente o caminho a ser trilhado. Porém, aos poucos, o mercado vem percebendo que o governo está mais próximo de um outro instrumento de navegação, aquele que detecta as variações do vento: o biruta.
Josilmar Cordenonssi Cia é graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas. É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.