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A terceira via ainda tem chance?

Se haverá ou não “terceira via” é uma indagação habitual, quando se fala da eleição de 2022. Há tempo pela frente. A previsão é que o último dia para filiação a um partido político seja 7 de abril de 2021, com as eleições em   2 de outubro (1° turno) e 30 de outubro (2° turno)

Luiz Inácio Lula da Silva uniu-se a Jair Messias Bolsonaro e aguçam a polarização política entre os extremos, através da difusão de ressentimentos recíprocos.

Ambos levam no ridículo a hipótese de uma “terceira via”, por não lhes convir.

Enquanto isso, as pesquisas mostram mais de um terço do eleitorado sem candidato à presidente da República, prenunciando a possibilidade de solução fora dos extremos.

Todavia, para tornar-se realidade terá que dar urgentemente sinal de unidade.

A radicalização prejudica o debate amplo, promove a intolerância e reduz a confiança no diálogo e na construção de soluções negociadas para problemas coletivos.

Como bem afirmou o ex-presidente Michel Temer “Brasil não pode continuar mais com esta guerra entre brasileiros e as próprias instituições”.

A candidatura alternativa exige a união em torno de “um nome”, que aglutine forças políticas e leve o eleitor a direcionar o seu voto para essa opção, se ele não quer votar em Bolsonaro, ou Lula.

Em momentos de crise política, os partidos sempre constroem pontes e coalizões entre grupos antagônicos.

Isso aconteceu na coalização formada por nacionalistas judeus e árabes-israelenses para derrubar o ex-premiê Benjamin Netanyahu, em Israel.

Joe Biden nos Estados Unidos, em 2020, juntou democratas e republicanos mais moderados.

No Brasil, na eleição de 1985 as forças democráticas se uniram em torno da candidatura de Tancredo Neves.

Em 2018, Bolsonaro ganhou uma eleição plebiscitária, que girou em torno de quem teria mais chances de tirar o PT do poder.

A eleição municipal de 2020 foi emblemática.

Não prevaleceu a polarização Lula e Bolsonaro. O PT e PSL fizeram menos prefeitos, que as cinco legendas MDB (783), Progressistas (687), PSD (654), PSDB (521) e DEM (466).

Os resultados demonstram, campo aberto na formação de uma coligação ampla, que viabilize a terceira via, em 2022.

Há contradições, que merecem análise.

Frequentemente, Bolsonaro e Lula criticam o “centro”, mas tentam atraí-lo para alianças.

Lula já buscou apoios junto a caciques do centro como José Sarney, Eunício Oliveira e até mesmo seu velho concorrente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Insinuou que gostaria de ter como “vice” nomes como Alexandre Kalil, prefeito de BH (PSD), a empresária Luiza Trajano, dona da rede varejista Magazine Luiza, Josué Gomes, presidente da FIESP, ou o general Santos Cruz, ex-ministro do governo Bolsonaro.

Ultimamente, Bolsonaro faz o mesmo e levou o líder do “centrão” senador Ciro Nogueira para o núcleo do governo, mesmo após seu ministro Augusto Heleno ter cantarolado: “Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”.

O general fez uma paródia do samba “Gente Bacana”, cujo refrão diz: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”.

Vê-se, que cada candidato joga poeira nos próprios olhos, para desviar atenção do que realmente tem importância.

Visão pragmática do quadro político de 2022, não pode considerar a “terceira via” como a salvação nacional. Bolsonaro e Lula não devem ser subestimados.

O presidente mantém percentual de apoio em torno de 25%. e Lula lidera as pesquisas, embora a sua candidatura possa ser afetada por algum processo judicial, a ponto de torná-lo novamente inelegível, com base na Lei da Ficha Limpa.

Já se percebe, que o debate da eleição não será em torno de denúncias apuradas na CPI do senado, que deixem dúvidas em sua credibilidade pública. A investigação desgastou-se muito pela evidente parcialidade.

Até os processos criminais contra Lula na órbita judicial, desde que continuem inconclusos, terão pouco peso na escolha do eleitor.

A possibilidade da vacinação em massa deverá afastar, em parte,  do debate sucessório, a influência negativa da gestão do vírus.

É unanime entre analistas e políticos que a questão básica em debate deverá ser o “estomago vazio da população”, ou seja, até onde os governos chegarão perto dos carentes e abandonados pera saciar-lhes a fome e o abandono.

FMI e Banco Mundial já uniram forças para pedir ajuda e salvar os pobres na pandemia

Dirigentes das duas organizações reforçaram seus apelos aos governos para que continuem aumentando os gastos públicos para sustentar a economia e evitar o agravamento da crise.

Não é hora do discurso abstrato de teto de gastos, cambio, redução de impostos.

Claro que não se justificam medidas irresponsáveis, ou populistas  mas se impõem “exceções” a esses princípios.

O fator decisivo para levar o eleitor à urna será o “bolso da população”, empregos, preços, condições de vida e um projeto político, social e econômico, que defenda a “união nacional”, a exemplo do que fizeram países como Chile, Espanha, Portugal, Polônia e outros.

Não se justifica cruzar os braços e buscar o “mal menor”.

Tem razão o cientista político Luiz Felipe D’Ávila, ao lembrar a filosofa alemã Hannah Arendt, que disse: “aqueles que escolhem o mal menor esquecem rapidamente de que escolheram o mal”.

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino Americano (PARLATINO); e- Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara; procurador federal; professor de Direito Constitucional da UFRN – nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br