Jorge Oliveira

O capitão e o general não se entendem

O capitão e o general não se entendem

Barra de S. Miguel, AL – Nem bem acabou a ressaca da posse e a família Bolsonaro volta a ser questionada sobre a conduta de Queiroz, o assessor de Flávio, filho do presidente. Mas dessa vez quem arrastou o capitão para se explicar em público foi nada menos do que o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que, numa entrevista a GloboNews foi categórico: “O Queiroz precisa dar explicações mais consistentes sobre as movimentações financeiras dele”. Pronto, surgiu o primeiro ruído de crise no governo provocada pela sinceridade contundente do auxiliar direto do presidente.

Acossado, na quinta-feira, 03, o capitão procurou a TV do Sílvio Santos, porta-voz do governo, para suavizar as declarações do seu general. Mas não conseguiu explicar os arranjos financeiros nebulosos do assessor que comprometem a sua família. Mais uma vez tentou, diga-se, a bem da verdade, mas não convenceu o seu general da lisura dos negócios do Queiroz, uma espécie de PC Farias na vida dos Bolsonaro.

Fabrício Queiroz trabalhava com Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Durante muito tempo ele administrou os salários dos empregados do gabinete do deputado sacando dinheiro na boca do caixa até o montante de R$ 1.200,00, como apurou o Coaf. Descoberto, negou-se a prestar depoimento ao Ministério Público, mas não se furtou em ir à TV do Sílvio Santos para dar uma entrevista, onde, entre outras coisas, falou que sabia “fazer dinheiro”, desde, claro, que a máquina para imprimir as cédulas fosse pública.

Ao se recusar a depor, Queiroz não só desrespeitou a justiça como os brasileiros que precisam conhecer melhor os seus negócios com o filho do presidente. Na entrevista ao SBT, o assessor mostrou-se nervoso ao ensaiar o próprio enredo que criou para tentar se safar das acusações. Agora, a justiça tem a obrigação de intimá-lo para esclarecer como tanto dinheiro dos empregados do gabinete de Flávio foi parar nas suas contas.

Os eleitores do Bolsonaro certamente acreditam que o próprio presidente teria interesse em que o Queiroz se apresente ao MP. Acham, inclusive, que isso iria elucidar também o mistério dos R$ 24.000,00 que caíram na conta da mulher do presidente. Esse dinheiro teria saído da conta corrente de Queiroz que se diz um ótimo vendedor de carros, negócio que lhe rendeu uma boa fortuna em 2016 sem nenhum tipo de comprovante.

A família presidencial precisa dos esclarecimentos “plausíveis” do Queiroz, como disse Flávio depois de falar com ele sobre a monumental movimentação financeira do seu gabinete da Assembleia Legislativa, que sofreu uma devassa da Polícia Federal depois da descoberta de que deputados socializavam o dinheiro dos seus empregados.

A artimanha de Queiroz é continuar empurrando seu depoimento com a barriga até o início de fevereiro quando Flávio assume o mandato de senador e o processo segue para o STF, onde certamente vai dormir na gaveta de um ministro qualquer.

Mesmo se negando a depor, Queiroz já deu pistas de que está disposto a ser ouvido ao dizer na entrevista que muita coisa ele vai “esclarecer ao MP” quando for novamente intimado. Por exemplo: detalhar as transações financeiras do gabinete de Flávio. Ou reafirmar – quem sabe – que todo dinheiro que passou pelas suas contas no banco é fruto dos seus negócios com carros.

Ao movimentar toda essa grana comprando e vendendo veículos usados, Queiroz realmente mostra que sabe “fazer dinheiro”, mas precisa prestar contas das suas negociatas para limpar o nome dos Bolsonaro que chegam ao poder depois de uma campanha cujo mote foi a honestidade e o combate a corrupção.

Mas por enquanto as explicações de Queiroz não convencem nem os assessores mais próximos do presidente. Veja o que disse o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, em recente entrevista a GloboNews:

“(…) Eu não achei a manifestação dele absolutamente consistente (…) O que quem está de fora espera? Uma declaração: “Está aqui o recibo. Uma coisa provada”.

Quem sabe agora na condição de ministro da Justiça, Sérgio Moro, não dá uma mãozinha à família pedindo ao Queiroz para esclarecer essa coisa dos funcionários fantasmas do gabinete do Flávio. Assim, os eleitores do Bolsonaro ficariam mais confortáveis para defendê-lo desse pessoal maldoso que espalha na internet que Queiroz também é o seu laranja.

Que gente maliciosa, hein!