Luiz Depine de Castro

O Brasil não é os Estados Unidos!

O Brasil não é os Estados Unidos!

A privatização é o melhor dos remédios para acabar com a ineficiência do Estado, resolver o problema do “cabide de empregos” e evitar gastos e investimentos públicos onde a iniciativa privada pode e tem interesse de fazê-lo, mas é um remédio.

Como todos os remédios, a privatização deve ser aplicada de acordo com a bula, sendo a dosagem adequada ao paciente evitando-se matar em vez de curar. O Brasil não tem nada a ver com Estados Unidos, Japão, Inglaterra e outros países do hemisfério norte. Abaixo da linha do equador, estamos em um mundo completamente diferente e essa regra é confirmada pela exceção australiana.

Por exemplo, a produção de aço no mundo civilizado marcha na direção da reutilização da sucata como matéria prima principal. Ao evitar começar a produção pelo minério de ferro, reduz-se o custo e aumenta-se a qualidade do aço, entretanto apesar desses benefícios o Brasil marcha na direção inversa do mundo civilizado. A produção de aço a partir da sucata necessita de um forno a arco que utiliza uma enorme barra de grafite, como eletrodo. Todos os países do primeiro mundo, acima da linha do equador, possuem fábricas de eletrodos de grafite em seus territórios, para exportação ou consumo próprio. O Brasil, um dos maiores exportadores de minério de ferro do mundo e um dos maiores fabricantes de aço do mundo, perdeu a única fábrica existente em território nacional há uns três ou quatro anos atrás, e assim mesmo, não era brasileira, era americana. Enquanto EUA, China, Japão, Rússia, França, entre outros dominam a tecnologia de fabricação desse material básico, o Brasil viu-se forçado a importar.

Por que o Brasil perdeu a única fábrica de eletrodos de grafite, com mercado cativo, sendo essa uma empresa privada americana? A resposta oficial foi de que as condições brasileiras deixaram de ser interessantes ´para a produção desse material e a fábrica havia se tornado obsoleta não compensando sua modernização. Mal ou bem, os empregados da fábrica eram possuidores de, pelo menos, parte da tecnologia de fabricação desse material. Hoje, mesmo essa parte da tecnologia foi perdida. Mesmo com desejo político, se pudéssemos virar o barco, hoje, levaríamos muitos anos para sair de um laboratório para uma indústria similar.

No governo do presidente Collor, pouco antes do processo de privatização, eu conheci a Usiminas e seu muito bem montado centro de desenvolvimento tecnológico e inovação na área da metalurgia visando a produção de aços especiais. Dois meses depois da privatização eu lá retornei e o centro tinha sido extinto. Seu corpo técnico ou tinha sido enviado para a linha de produção ou demitido. O mais importante era ganhar dinheiro de imediato, o futuro é problema das outras gerações. Ótimo, a empresa se tornou mais eficiente, aumentou a produtividade e acabou o cabide de emprego (será?), entretanto, hoje, o eleito presidente Bolsonaro reclama que temos que parar de exportar nióbio e produzir aços especiais no Brasil, mas de que jeito? O que seria, provavelmente a equipe com maior conhecimento tecnológico no assunto simplesmente foi exumada na privatização.

A realidade tecnológica nacional está descrita no trabalho “O Brasil ressuscitou sua economia …. e daí?” (*). Nesse trabalho está mostrada a real diferença entre o Brasil e o resto do mundo civilizado quando se trata de tecnologia. Enquanto nos Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul, por exemplo,  70% dos pesquisadores trabalham na indústria privada e apenas 30% no governo, no Brasil 95% dos pesquisadores trabalham para o governo e somente 5% está empregado na indústria privada. Em outras palavras, a empresa privada no Brasil não investe em desenvolvimento tecnológico e muito menos em inovação (*). A pouca tecnologia ainda existente no País encontra-se de posse de raras empresas estatais (após a privatização dos governos Collor e Fernando Henrique).

Com o primeiro sopro de privatização no País, perdeu-se, simplesmente, a maior parte da tecnologia existente porque ninguém se preocupou em forçar o envolvimento da empresa privada no assunto. Ninguém se importou com isso. A única preocupação foi otimizar a economia, a eficiência e a lucratividade MOMENTÂNEA. O futuro a Deus pertence, é o pensamento máximo dos brasileiros. Mesmo os que foram contrários à privatização o foram por estúpidos motivos ideológicos, eles nem sabiam o que era desenvolvimento tecnológico ou inovação.

Estamos às vésperas de uma anunciada privatização generalizada, e eu me pergunto se existe alguém preocupado com o que resta da tecnologia brasileira, de posse de algumas estatais, e que será perdida, exatamente como antes.

Suponhamos, apenas por hipótese, que se venda toda a área de refino da Petrobras e que, também por hipótese, a situação econômica brasileira no futuro desagrade seus proprietários e que as refinarias se tornem obsoletas (se é que a maioria já não é), como Pasadena, fazendo com que eles saiam do Brasil assim como fizeram os proprietários da fábrica de eletrodos de grafite, já mencionada. Afinal, não nos esqueçamos que algo semelhante já aconteceu com a refinaria de Manguinhos que hoje não refina mais petróleo. O que o Brasil espera fazer uma vez que já não contará mais com nenhuma expertise no assunto? Vai fazer a mesma coisa que faz hoje com minério de ferro? Vamos exportar petróleo para comprar gasolina e diesel?

O Brasil não é os Estados Unidos e Brasília não é Chicago!

Muito cuidado com o andor porque o santo é de barro!

Antes de pensar em privatizar empresas brasileiras detentoras de tecnologia, há que se forçar a que as empresas privadas invistam em desenvolvimento tecnológico. Novamente, sugiro a leitura do texto em referência, abaixo (*).

Não é possível que o governo do Bolsonaro dê o tiro de nuca na vítima que o Collor e Fernando Henrique já deixaram agonizante.

Luiz Depine de Castro – Engenheiro Químico (IME), Mestre em Engenharia Química – COPPE (UFRJ), Doutor em Ciência dos Materiais – Universidade de Bath (Inglaterra), Ex-presidente da Associação Brasileira de Carbono (2007 – 2017), Coronel Reformado do Exército, Consultor Tecnológico.