Miguel Gustavo de Paiva Torres

Noite em Lisboa

Noite em Lisboa

O horário normal da embaixada do Brasil em Lisboa previa o encerramento do expediente para as 17 horas, mas, com o Embaixador José Aparecido de Oliveira os funcionários já haviam se acostumado ao excepcional, e aceitavam sair no espaço de tempo entre 18 e 19 horas. Aparecido dispensava o motorista e dizia, a cada final de expediente, que iria mais tarde da noite, de táxi da Quinta das Mil Flores para a residência no Restelo, um percurso longo e não muito seguro. Por cortesia eu me oferecia “para ficar mais um pouco” e levá-lo em meu carro para casa. Esse “mais um pouco”, com o tempo terminei me acostumando, significava permanecer na sala do embaixador até às 22, 23 horas, ou mais. Com a diferença de fuso horário de 4 horas a menos em Brasília, Aparecido aproveitava o horário noturno para fazer o que mais sabia fazer, e gostava. Assim, como seu acompanhante na embaixada vazia, fui testemunha involuntária de momentos marcantes da nossa história política recente.

Amigo do Presidente Itamar Franco e do seu núcleo íntimo no poder, José Aparecido era uma voz que se fazia ouvir e seguir no Planalto. Recordo que, alguns dias antes do seu telefonema para Fernando Henrique Cardoso, para convencê-lo a abrir mão do Ministério das Relações Exteriores, e aceitar ser o novo Ministro da Fazenda e candidato à presidência da República, com o apoio do Planalto, Aparecido me convocou para um almoço na residência com o professor Mangabeira Unger, que já articulava, naquela época, a candidatura do jovem governador do Ceará, Ciro Gomes, à presidência da República. Aparecido não costumava receber sem uma testemunha presente. No almoço, a três, o professor, com seu característico sotaque da língua inglesa, fez um esforço retórico apaixonado em favor da candidatura de Ciro Gomes, e o seu ponto forte para convencimento era o de que São Paulo, como maior força econômica do Brasil, não podia somar  também a força política, ganhando a Presidência, em detrimento do equilíbrio da Federação. Havia levado um polpudo calhamaço com o que seriam as ideias e projetos de um eventual governo do cearense adotado, Ciro Gomes. Ciro havia feito um reconhecido trabalho como governador do Ceará, e ainda não tinha a fama de coronelismo que angariou com o tempo de permanência da família na política nacional. Ao final do almoço, Mangabeira saiu contente com a explicação feita por ele sobre a necessidade de equilibrar força econômica e força política, em beneficio  do equilíbrio federativo, e com os comentários positivos  recebidos à mesa.

Mais tarde, Aparecido entregou-me o calhamaço para leitura e observações.  E fez um comentário curto: “São Paulo é São Paulo.”  Dias passados, depois de conversar com Itamar Franco, no horário noturno, telefonou em seguida para FHC e insistiu para que aceitasse trocar o cargo de chanceler pelo Ministério da Fazenda,  como condição necessária a um apoio do governo Itamar à sua eventual candidatura à presidência. Em seguida, telefonou para donos e diretores de jornais e televisões do Rio e de São Paulo- amigos seus-  informando, em primeira mão, a ida de FHC para a Fazenda.  Abria assim caminho para o Senador Fernando Henrique Cardoso chegar ao Palácio do Planalto.

Eleito, FHC não deu a Aparecido a chance de se tornar o primeiro Secretario Geral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa- a CPLP-, organismo que ele criou, durante sua gestão como Embaixador em Lisboa, com muito esforço pessoal e habilidade política e diplomática.

Miguel Gustavo de Paiva Torres, diplomata, serviu na embaixada em Lisboa entre 1991 e 1994.