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No jornalismo, compromisso e precariedade andam de mãos dadas

Centro de pesquisa lança publicação sobre novos arranjos do trabalho no jornalismo na Grande SP

No jornalismo, compromisso e precariedade andam de mãos dadas

Segundo o relatório, o mundo passa por um momento de uma “mecânica do medo”, mostrando que o ódio aos jornalistas se transformou em violência. Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Profissionais com carga de trabalho pesada, remuneração baixa, trabalhando em projetos que sofrem grandes dificuldades de financiamento. Mas que, mesmo assim, são muito engajados no que fazem. São características comuns entre os jornalistas que trabalham em novos arranjos jornalísticos atuantes na Grande São Paulo, descritas em uma pesquisa recente do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), vinculado à Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Os pesquisadores usam o termo “arranjos jornalísticos” para se referir a novos arranjos econômicos do trabalho dos jornalistas que se organizam por fora dos conglomerados de mídia. O ecossistema formado por eles na Grande São Paulo inclui desde veículos que se apresentam como jornais até grupos que se identificam como coletivos. Foram objeto da pesquisa arranjos como Agência Pública, Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Az Mina, Nós, Mulheres da Periferia, Opera Mundi, Envolverde, É Nóis, entre outros.

O mapeamento deste ecossistema partiu inicialmente do Mapa da Mídia da Agência Pública e considerou marcadores de critérios jornalísticos na produção de conteúdo e autoidentificação como “alternativo” ou “independente” – alguns, como o Nexo, a própria Pública e a revista AzMina se apresentam como “independentes”, por exemplo. O mapa inicial foi incrementado pelos pesquisadores por meio de um método chamado “bola de neve”, que consiste basicamente em seguir as indicações de pessoas que estão inseridas no universo que está sendo estudado. O resultado já havia sido publicado em 2018 em um artigo da revista Líbero.

A novidade, agora, são os achados da pesquisa qualitativa feita junto a representantes dos arranjos jornalísticos, que estão reunidos em um ebook disponibilizado no site do CPCT. O centro de pesquisa apresentará a publicação em um seminário no dia 15 de fevereiro, às 18h, no Centro Universitário Maria Antonia (Rua Maria Antonia, 258 e 294, Vila Buarque, São Paulo).

Muito trabalho, poucos recursos

Após a etapa inicial de mapeamento de 70 arranjos jornalísticos, os pesquisadores aglutinaram as características identificadas e selecionaram os 29 arranjos mais representativos para as etapas qualitativas. Na sequência, os representantes de 26 arranjos foram entrevistados – três não participaram. Na última etapa, 15 desses jornalistas participaram de grupos de discussão.

Segundo a professora Roseli Figaro, coordenadora do CPCT e da pesquisa, as etapas qualitativas revelaram que os jornalistas que trabalham nos novos arranjos se deparam com situações bastante precarizadas, sem vínculo nem segurança. A maior parte deles, inclusive, produz de forma voluntária. Quando há ganhos financeiros, eles tendem a ser pequenos e intermitentes, já que os projetos enfrentam dificuldades para financiar seu funcionamento. Entre as mídias pesquisadas, a mais estruturada é o Nexo, única que mantém profissionais contratados com carteira assinada.

Fotomontagem a partir dos subsídios gráficos de sites de jornalismo

Outra característica comum é o grande volume de horas que os jornalistas trabalham. “Essa gente trabalha no seu arranjo jornalístico, mas mantém também outro emprego para se sustentar. Com a questão da mulher, isso se intensifica”, afirma Roseli, lembrando que a jornada de trabalho das mulheres tende a superar a dos homens quando as tarefas domésticas são contabilizadas na equação.

A docente da ECA conta também que, apesar das condições precárias que enfrentam para trabalhar, o trabalho desses jornalistas é muito dedicado. “Eles têm um vínculo profissional e emotivo. Estão comprometidos a fazer um jornalismo para ampliar as vozes sociais, aquelas vozes que a mídia tradicional não consegue dar espaço”, diz.

“Mesmo com todas essas dificuldades, por que elas continuam a fazer isso? (É que) para elas o jornalismo é um bem fundamental, e elas se colocam como defensoras desse bem”, acrescenta Roseli.

A coordenadora do CPCT defende que, para melhorar o quadro de precariedade e subfinanciamento, são necessárias políticas públicas para custear os arranjos do trabalho dos jornalistas. Isso porque o que esses arranjos produzem pode ser compreendido como “um bem público fundamental para a democracia”, na avaliação da pesquisadora.

A pesquisa, intitulada As relações de comunicação e as condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos econômicos alternativos às corporações de mídia, foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e teve financiamento da Fapesp.

 

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Silvana Salles, do Jornal da USP
Silvana Salles, do Jornal da USP
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